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Médicos angolanos protestam por melhores condições de trabalho

Mais de cem médicos angolanos marcharam ontem em Luanda para exigir melhores condições de trabalho, pedindo aos governantes que “experimentem” fazer as consultas nos hospitais públicos de Angola, e admitiram a possibilidade de avançar para a greve.

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Os médicos exigiram também a colocação de 1.500 colegas que se encontram no desemprego, no meio de cartazes com frases como “governantes façam consultas nos hospitais públicos”, “exigimos boas condições de trabalho e de vida”, “respeito e dignidade da classe”, “PGR faça auditoria do concurso 2018 do Ministério da Saúde” ou “se somos mais de 800 burros, encerrem as faculdades de medicina do país”.

O presidente do Sindicato dos Médicos de Angola, Adriano Manuel, disse aos jornalistas que este é o primeiro momento de um grupo de ações que vão levar a cabo nos próximos dias.

Segundo o sindicalista, que manifestou disponibilidade para dialogar com a tutela, depois da marcha, “realizada apenas para demonstrar que a classe médica está unida”, os médicos vão aguardar até 02 de março que o Governo manifeste vontade para negociar.

“Se isso não acontecer, no dia 02 de março vamos voltar a sentar [o sindicato] e vamos solicitar aos colegas que decisão tomar em função do silêncio do Governo. Se houver silêncio, de certeza absoluta que vamos decretar, nesse dia, uma greve”, avisou Adriano Manuel.

Em novembro de 2018, os médicos realizaram uma greve de três dias, que a entidade patronal considerou ilegal.

Adriano Manuel realçou que o objetivo é que todos os médicos desempregados sejam colocados, “porque os que se encontram em exercício estão sobrecarregados, porque há um elevado índice de mortalidade nos hospitais e uma falta de profissionais na periferia”.

“Não conseguimos entender como é que temos médicos desempregados. Mas, em contrapartida, querem mandar vir médicos estrangeiros. Isto é inconcebível, não pode acontecer. Queremos que os nossos colegas entrem. Se entrarem, vamos diminuir o afluxo de doentes nos hospitais terciários e, dessa forma, minimizar o elevado índice de mortalidade que temos nos nossos hospitais”, frisou.

Sobre o polémico concurso de admissão de novos médicos, realizado em 2018, para o preenchimento de 1.703 vagas, no qual 825 foram considerados não aptos, o sindicato é de opinião que todos devem entrar para o sistema de saúde.

“Isto não é verdade, muitos dos colegas que reprovaram são médicos que já operam. Alguns deles já são especialistas e que operam nos grandes hospitais, fazem grandes cirurgias, como nos hospitais do Prenda, nas maternidades”, disse o médico.

Para Adriano Manuel, os exames feitos no concurso não servem para avaliar a competência de um médico, tendo em conta que 50% dos testes passaram por questões relacionadas com cultura geral.

“A ministra fez isso propositadamente. Só queremos saber se há dinheiro ou não para colocar os nossos colegas, porque são esses que até hoje continuam a garantir os serviços em Cabinda, Lubango, Malanje, são esses colegas que reprovaram”, lamentou.

Na segunda-feira, o sindicato vai divulgar uma carta aberta dirigida ao Presidente angolano, João Lourenço, havendo ainda a intenção de marcar um encontro com o chefe de Estado.

“Queremos pedir uma audiência ao Presidente da República para conversar connosco, porque as informações que lhe chegam não são reais. Vamos informar o Presidente da República do que é que verdadeiramente chega aos nossos hospitais. Antes da próxima iniciativa queremos conversar com o Presidente”, referiu.

Sobre a atual situação, Sérgio Romero, médico há quase 50 anos, disse que se vem degradando ao longo do tempo.

“Este processo chegou a este ponto pela falta de valorização da classe médica, pela falta do direito da dignidade, pela falta de respeito pela qualificação dos médicos, pela falta de poder de interpretação dos valores que acompanham qualquer profissional em torno da sua tabela salarial”, sintetizou.

Sérgio Romero considerou que a situação se agrava com o assunto dos 1.500 médicos que, depois de formados, aguardam pela sua entrada como funcionários do Ministério da Saúde.

“São como que rechaçados”, denunciou.

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