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Opinião

Mais do que palavras, exemplos – Edson Kassanga

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O insucesso escolar de muitas crianças tem sido um problema que afecta muitas famílias angolanas. Estas apontam o dedo aos professores mas tal não implica dizer que elas sejam inocentes, tendo em atenção a primazia que têm de, pelos seus actos influênciar sobremaneira o comportamento das crianças e por via disso, com maior poder de reduzir os índices de insucesso escolar.

Tem alguma ideia de como pode melhorar o desempenho escolar das crianças que vivem consigo?

No final no texto está exposta uma ocorrência cuja lembrança humedece os meus olhos de tamanha emoção e as lágrimas suscitas por ela tornam a minha visão sobre a vida mais optimista e que poderá reforçar a sua ideia ou lhe sugerir outras.

A expansão das TICs que se encontram “ao alcance da mão” (Kalaf Epalanga) de qualquer um, aliado ao crescente custo de vida que colocam os chefes de família da vez mais longe de casa, e por conseguinte com pouco tempo para cuidar dos seus filhos, tem sido uma das causas que leva muitas crianças, e não só a terem insucesso escolar. No intuito de resolver este problema, uma parte significativa dos pais e encarregados de educação optam por
matricular-las noutras instituições que julgam ser melhores, por norma também mais caras, esquecendo de fazer o mais importante: dar bons exemplos.

Hoje mais do que outrora, não basta “arramar o cinto” como se diz na gíria para pôr os filhos a estudar nas melhores instituições de ensino. É imperioso, acima de tudo, que a família seja de facto um modelo na educação para eles, principalmente para as tenra idade, as crianças devido a grande capacidade de memorização que possuem e que as potencia a fazerem das actividades que aprendem nessa fase em hábitos para toda vida, salvo escassas excepções. Daí, é possível compreender, portanto, que é tudo somente uma questão de imitação, ou seja, as crianças limitam-se a imitar aquilo que observam dos mais velhos à sua volta.

Falando em imitação, lembro-me agora do que felizmente aconteceu comigo há quase um ano quando estive de férias na cidade do Lubango. É uma lembrança doce que humedece os meus olhos de tamanha emoção e as lágrimas suscitas por ela tornam a minha visão sobre a vida mais optimista. Por isso, faz todo sentido partilhar e aqui vai:

-Eram dias em que eu acordava sem preocupação de ir ao serviço e por conseguinte dava boas vindas aos dias lendo e deles me despedia também lendo (não quer dizer que lia durante todo dia). Durante este exercício de poder inestimável, várias vezes eu ouvia alguém abrir a porta do quarto onde lia. Em reação, os meus olhos eram para lá direcionados e através eles eu indentificava ser o meu irmão de 08 anos. Num relance, olhava para mim com aqueles olhos de brancura tão imaculada quanto cândida, casados com a aparência de tantos porquês e em seguida, fechava a porta em câmara lenta para evitar estrondo. Devia ter percebido que não eram horas oportunas para brincadeiras e que eu precisava de silêncio para o que estava a fazer na altura.

Porém, num dos meus derradeiros dias naquele lugar, ele voltou a fazer quase o mesmo. E esta diferença fez toda a diferença porque é precisamente por ela que ganhei estímulo para redigir o presente texto.

Poucos minutos depois de fechar a porta, ele voltou a abri-la e dessa vez trazia nas mãos húmidas, reduzidas e macias um livro. Afastando-se da porta, o menino caminhou sobre o “chão bruto” do quarto, num passo nem apressado nem lerdo enquanto se aproximava e olhava para mim esboçando aquele sorriso similar ao do jogador de xadrez, quando descobre na última jogada do adversário a chance para ele, a seguir, fazer cheque-mate.

Quando chegou ao pé de mim, num tom tão decisivo, assim como um tanto quanto imperativo para idade dele, disse: -“mano agora é a minha vez”. Inebriado e meio expectante com a surpresa prestes dar à luz a outra surpresa, coloquei de lado o jornal que estava lendo e orientei quase todos meus sentidos para a leitura do texto que o cassule já estava preparado para fazer do seu próprio livro de Língua Portuguesa.

Portanto, este é um bom exemplo e o meu irmão, como qualquer outra criança teria igualmente imitado se fosse um mau exemplo. Logo, os membros de cada família devem lembrar-se todos os dias que uma das primeiras habilidades desenvolvidas pelas crianças é a imitação, o que implica dizer que as actividades realizadas no seio familiar, lógico, pelo membros das suas famílias, serão as actividades que as crianças irão praticar e será por via das mesmas que se formará o caráter dos homens do amanhã.

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