Análise
Lubango em duas velocidades: o centro evolui, a periferia sobrevive
Ah, o Lubango está a viver o fenómeno da chamada “requalificação selectiva”, aquele modelo urbano altamente sofisticado em que a cidade melhora… mas apenas onde já era apresentável.
Segundo as declarações oficiais, a qualidade de vida aumentou, as doenças associadas ao saneamento básico diminuíram e até os hospitais respiram com mais alívio. Naturalmente. Tudo faz sentido: quanto menos acesso real aos serviços, menor a procura, logo, estatisticamente, tudo melhora. Uma eficiência administrativa digna de manual.
Mas isso, claro, refere-se ao Município do Lubango “cartão-postal”, aquele que aparece nas inaugurações, nas visitas institucionais e nas fotografias cuidadosamente enquadradas com filtros de progresso. Porque o outro Lubango, aquele onde vive a maioria silenciosa, continua no seu estágio avançado de urbanização por sobrevivência.
Nas periferias, a requalificação ainda não chegou. As estradas continuam a praticar desporto radical, com buracos que desafiam a lógica e a suspensão dos automóveis. As habitações parecem ter sido erguidas num concurso entre a urgência e a necessidade, com resultados que a engenharia prefere não comentar em público. Há bairros onde o saneamento básico continua a ser tratado como artigo de luxo, todos falam dele, mas poucos já o viram funcionar de forma consistente.
As drenagens, essas sim, merecem destaque especial: funcionam como instalações artísticas contemporâneas. Quando chove, não escoam água, reinterpretam o território. Transformam ruas em rios, becos em lagoas e rotinas em exercícios de adaptação hidráulica.
Quanto à energia eléctrica, entrou-se num novo modelo de gestão inovador: o sistema de intermitência programada não oficial. A luz aparece e desaparece com tamanha disciplina que já não se sabe se estamos perante um serviço público ou uma experiência colectiva de resistência energética. Há quem chame gestão; outros preferem “criatividade institucional”.
No entanto, no centro da cidade, tudo está impecável. Passeios alinhados, iluminação estável, ruas organizadas como se o resto do município fosse apenas um cenário secundário. E, no imaginário urbano, talvez seja mesmo.
Mesmo assim, há quem afirme com convicção que “a cidade está melhor”. E está, sim a questão é simples e inconveniente: melhor para quem?
No fim, resta sempre o consolo competitivo: pelo menos estamos melhor que Benguela… dizem. Porque, no campeonato nacional da desigualdade urbanística, cada cidade apenas escolhe o seu próprio estilo de sofrimento com estética.
