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Lilianne Kiame e a procura da essência dos espaços em Angola

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Há espaços que não se ocupam, ocupam-nos. Nesta relação com velhas e novas arquitecturas que colonizam a nossa forma de estar e de ser, a jovem Lilianne Kiame encontrou a tonalidade das pinturas a óleo que levará à exposição “For a New Tomorrow”, evento que a Jahmek Contemporary Art e a Tigra inauguram esta sexta-feira, 25 de Novembro, no Hotel Globo.

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Lilianne surge no ecrã de uma entrevista virtual à frente de duas grandes janelas do Hotel Globo. Atravessam-nas uma luz intensa e branca. A arquitecta de 29 anos, que tem o espaço como unidade de medida universal, rapidamente estabelece essa linha entre luz e sombra como a fronteira entre o “cá dentro”, onde se prepara a exposição “For a New Tomorrow”, e o “lá fora”, onde gira o mundo de todos os dias.

“De que forma se relacionam estes dois lados, é uma pergunta que sempre me faço”, assume. “Estou nesta galeria e pergunto-me até que ponto as pessoas que vejo passar nas ruas saberão o que está a acontecer aqui, de que forma entenderão a mensagem que queremos transmitir, como participarão neste futuro que propomos nas nossas obras e do qual elas também fazem parte, invariavelmente”.

Em Lilianne, o autoquestionamento é uma constante que ela mesmo extrapola. “Não ambiciono mudar o mundo, mas quero provocar uma reflexão em quem vê as minhas obras”, indica a jovem de olhar calmo, mas incisivo. E se falamos de provocação, a obra que apresentará na exposição promovida pela Jahmek e pela Tigra é uma verdadeira ode. Numa série de cinco pinturas a óleo, Lilliane confronta a nossa relação com “uma cidade importada” que “continua a ser colonizada nos seus espaços mais íntimos, que são as nossas casas”.

A ideia partiu da leitura do clássico “Quem me dera ser onda”, de Manuel Rui. “Sempre me interessou o tema das construções em Luanda e a sua desvinculação com a nossa cultura. São construções onde não existem espaços para sermos nós mesmos e para socializarmos”. “Neste sentido”, afirma, “a história do porco que, no livro de Manuel Rui, habita num prédio de Luanda, pareceu-me fantástica”.

Na obra que leva esta sexta-feira à mostra “For a New Tomorrow”, Lilianne actualiza esta história. “Se no pós-independência, período em que se ambienta ‘Quem me dera ser onda’, havia um porco num prédio, então agora, em 2022, certamente haverá um boi”, ironiza. A série de pinturas retrata, assim, “um boi magrinho que vive num edifício de habitação social dos anos 70”. “Como não existem espaços para socializar neste tipo de prédios, o animal mora no hall do elevador, onde também vai ser abatido”. À medida que a história se desenrola, as pinturas vão-se tingindo, pouco a pouco, de rosa-carne. “Como a luz dos matadouros e charcutarias”, detalha.

Esta “alegoria bovina” algo “macabra”, admite, “é uma sátira que denuncia um sistema urbanístico totalmente desajustado à nossa forma de estar”. “Há um desejo aspiracional, digamos, de residir num meio urbano, mas nas nossas cidades a precariedade dita as regras”. Ao mesmo tempo, aponta a jovem que estudou Arquitectura na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, “não existem estudos sérios sobre como adaptar a nossa cultura a esse meio urbano.” E exemplifica: “Construímos uma cidade inteira no Kilamba, pusemos lá as pessoas na esperança de que morassem nos edifícios e deixassem de matar galinhas, mas isso não aconteceu, porque esta é nossa forma de viver.” “Com a minha obra, quero que as pessoas percebam que os espaços têm que as servir, e não o contrário. A arquitectura não tem que propor um novo modo de vida, mas sim adaptar-se e melhorar a vida de todos nós”.

A essência

Para Lilianne, esta “tentativa de fazer dos espaços o que eles não são” vai além dos lugares onde vivemos (com ou sem bois no hall do elevador). “Exigimos constantemente que a cidade seja o que não é, moldamo-la sem lhe medir o pulso e modificamos o espaço à nossa volta sem critério”, critica. Em simultâneo, aponta, “forçamos padrões de beleza no nosso quotidiano que não têm nada a ver connosco e que representam a aspiração a ser algo que não somos. Fugimos uma e outra vez do que nos faz autênticos e perdemos a noção do nosso potencial.”

Como “antídoto transformador”, a jovem apela à nossa “capacidade de assombramento”. “Todos os dias esforço-me por me impressionar com alguma coisa”, revela. “Comecei com o básico, a natureza, e com o tempo fui descobrindo que o aparentemente banal pode ser único, foi como um despertar”. “Quando, nesta exposição na Jahmek, falamos ‘num novo amanhã’, para mim trata-se disto mesmo: a urgência de converter estas pequenas epifanias de espanto em arte. Esta pode ser a chave para construirmos um futuro onde nos valorizemos e descubramos a nossa verdade”.

A busca desta “essência” pode ser “trabalho de toda uma vida”, bem sabe. Por isso, Lilianne apela à “força artística colectiva” para assumir esta missão, recorrendo a plataformas como a que a Jhamek e a Tigra puseram à disposição da jovem e dos também artistas emergentes Irene A’Mosi, Magno Daniel, Hélder Garcia e Resem Verkron. “Trabalhar de forma colectiva, respeitando a individualidade e expressão artística de cada um, é garantia de que faremos chegar esta visão de futuro a muito mais pessoas, gerando um impacto muito maior do que se lutássemos sozinhos”.

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