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José Eduardo dos Santos terá estado 16 horas sem comer – acusa Tchizé

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A filha do ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos, Tchizé dos Santos alega que o seu pai, falecido na sexta-feira, chegou a ficar 16 horas sem comer e não foi assistido após sofrer uma paragem respiratória.

Estas acusações constam, segundo a estação televisiva CNN Portugal, numa extensa nota na qual os advogados de Tchizé dos Santos tentam enquadrar os acontecimentos em volta da morte do seu pai.

Tal como já tinha noticiado a Lusa, a nota refere as ligações entre Ana Paula dos Santos, a última mulher de José Eduardo dos Santos com quem teve três filhos, com o regime angolano, destacando que o seu matrimónio não é reconhecido em Espanha e que os dois estavam separados de facto há vários anos. Os advogados escrevem que “existem indícios” de que a morte do ex-presidente foi favorecida por Ana Paula dos Santos, o médico João Afonso, “e outras figuras próximas do regime angolano”, apontando negligência nos cuidados prestados.

Segundo escreve a CNN, a nota acusa Ana Paula dos Santos de impor a sua presença quando José Eduardo dos Santos já estava doente, tendo-se mudado “coercivamente” para a casa do marido cinco anos após a separação. Antes, não o tinha visitado “desde sua separação em 2017”.

Tchizé dos Santos diz ainda que o pai, “apesar do seu grave estado de saúde, impediu Ana Paula de entrar na sua residência em Angola durante o natal de 2021”.

Com a “entrada da sra. Ana Paula na casa de Dos Santos foi imposta coercivamente e foi desde que Ana Paula chegou a Barcelona e se instalou na casa de JES que a sua saúde piorou gravemente, com as suas capacidades físicas, mas também a sua habilidades cognitivas e volitivas, a serem cada vez mais afetadas, até que ele acabou em terapia intensiva no Hospital Teknon”, lê-se na nota, citada pela CNN.

O comunicado indica diz que, depois disto, as visitas dos filhos e o acesso aos dados médicos foram restringidas, conseguindo Ana Paula dos Santos garantir “o isolamento de José Eduardo dos Santos da restante família” e tendo reduzido tratamentos e cancelado visitas das equipas médicas nos dias 4 e 12 de maio.

Além disso, o médico que acompanhava o antigo presidente angolano, identificado como “doutor Afonso”, veio a revelar-se “um alto funcionário do exército angolano”, que “é pago pelo actual governo de Angola, como o próprio ministro angolano afirmou perante os meios de comunicação internacionais à entrada do Hospital Teknon”.

“Em Maio, a Presidência angolana, através do dr. Afonso, publicou uma nota supostamente assinada por Dos Santos, na qual afirmava que apenas o seu médico pessoal estava habilitado a falar da sua saúde (…). No entanto, a assinatura de Dos Santos na referida declaração é quase ilegível. Além disso, naquela época, o Sr. Dos Santos estava em um estado de saúde muito debilitado (na verdade, ele não conseguia nem comer sozinho), fato que indica não só que ele poderia não ter entendido o conteúdo do documento assinado, mas também que a dita assinatura teria sido falsificada pelo Dr. Afonso”, acusa.

Foi no final de Abril que os familiares puderam visitar José Eduardo dos Santos e alertaram para a falta de cuidados, alegando a filha que este ficou 16 horas em comer. Já em junho não terá sido assistido após uma paragem respiratória.

“Em 23 de junho de 2022, Dos Santos sofreu uma paragem respiratória, supostamente enquanto estava sozinho na casa de banho e um dos seus cuidadores esperava-o do lado de fora. Ana Paula estava em casa. A paragem respiratória levou à paragem cardíaca. A paragem cardíaca resultou na morte encefálica de JES. Este resultado é uma indicação de que a paragem respiratória foi muito mais longa do que o relatado aos serviços médicos espanhóis. O pessoal de serviço afirmou que Dos Santos apresentava um quadro grave de insuficiência respiratória desde o dia anterior. Apesar disso, Dos Santos não foi transferido para o hospital nem foi assistido no domicílio”, lê-se no comunicado.

Ana Paula manifestou depois “o seu claro interesse em se assumir como esposa legítima de Dos Santos para tomar a decisão de desligar os suportes de vida que o mantinham vivo e transferir o seu corpo para Angola, apesar de não ter nenhum direito em Espanha por estar separada de facto por cinco anos e o casamento não estar registado em Espanha. Isso, aliás, contraria a opinião da filha queixosa e de seus irmãos”.

É de realçar que Tchizé apresentou uma queixa em Barcelona no início de julho e pediu que fosse aberto um inquérito, alegando uma “tentativa de homicídio, falta de assistência a uma pessoa em perigo, [e] ferimentos causados por negligência grave”.

Recorde-se que as autoridades judiciais espanholas concordam com a realização de uma autópsia ao corpo do ex-presidente, que tinha sido pedida por Tchizé dos Santos.

A decisão do Juzgado de Guardia de Barcelona foi avançada à agência Lusa pela advogada de Tchizé dos Santos, Cármen Varela.

Tchizé dos Santos tem-se manifestado publicamente contra a realização de um funeral em Luanda, devido às desavenças entre alguns membros da família dos Santos e o governo angolano.

Tchizé, bem como a filha mais velha do ex-Presidente, Isabel dos Santos, que enfrenta processos judiciais em vários países, não regressam ao país há vários anos, alegando perseguições políticas e temerem pela própria vida.

José Eduardo dos Santos tem oito filhos, de cinco mulheres, não tendo sido divulgada publicamente a opinião dos restantes familiares.

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