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Opinião

Jornalista: a tábua de salvação que não salva

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Assinalou-se, nesta quarta feira 8, o Dia Internacional do Jornalista, uma data celebrada em memória a Július Fucik, da República Checa, preso e executado em 1943, pelos nazistas por causa da sua luta contra o regime fascista, pelos ideais de independência dos povos oprimidos e pela promoção da democracia.

Por cá, a tarefa é a mesma, mas a realidade social constitui, em meu entender, um entrave – entretanto ultrapassável – para o cumprimento exitoso, não apenas da obrigação social e diária de trabalhar, mas sobretudo do dever ‘sacerdotal’ de informar a sociedade, desempenhando o orientado papel de guardião da sociedade, com a missão de confortar os aflitos e afligir os confortados. A lista dos aflitos em Angola parecer ser cada vez mais assustadora, o que tem feito com que estes passem a olhar, como é natural, para os jornalistas, como a tábua de salvação, e não raras vezes, vistos também como merecedores de apredejos por causa das crises sociais que o país vem enfrentando.

O jornalista é um ser humano como qualquer outro e passa pelas mesmas dificuldades e problemas que os demais, mas difere-se devido a sua profissão, que o obriga a dormir e acordar no mesmo dia. Trabalhar sem tempo para almoçar. Regressa a casa quando já a família está a dormir e jantar comida do micro-onda.

Seu trabalho é ficar várias horas, na rua, debaixo de poeira, sol, andar sobre o lamaçal, mendigar disponibilidade de entidades que nos governam para este explicar o quê e como tem feito, estudar documentos, fazer telefonemas a pedir explicações para informar a sociedade a verdade dos factos com precisão.

O seu cérebro não tem lazer porque dorme e acorda a pensar no quão difícil está o contacto com uma fonte, ou no melhor ângulo a tratar um assunto de interesse público sem ferir a dignidade de outrem.

Ser jornalista em Angola e no mundo, é ser alguém à quem os injustiçados recorrem, os bandidos pensam assaltar, os poderosos ameaçam, os políticos temem, os gestores públicos fogem e a sociedade quer apedrejar, e ainda sim, todos eles esperarem pelo seu trabalho.

Caminhar com medo de meliantes no retorno a casa a noite.

Não ter nem final de semana para espairecer com os amigos e parentes. Ser aquele que a família, os amigos e a sociedade olham com vénia merecida, mas não poder ajudar um parente no momento em que mais precisa.

É todos os dias colocar a própria vida em risco para dar voz a um aflito, mas depois ficar horas na praça de táxi para ir ao trabalho ou regressar a casa e as vezes chegar ao destino com a roupa manchada por mãos sujas de outros passageiros na luta do táxi.

Estar no jornalismo é noticiar o quanto o país é bom, mas viver num bairro de cortar a respiração. ‘Fazer das tripas o coração’ para liquidar as contas do mês.

Girar de bairro em bairro, em arrendamentos (chamado de gira-bairro), porque o salário que ganha raramente serve para dar uma habitação condigna à família.

Ser jornalista em Angola e pertencer a única classe profissional que trabalha todos os dias com boa disposição, quando o país todo parou de produzir e está a reclamar da falta de tudo…

Tirando o pessoal da saúde e dos bombeiros, talvez não exista outra profissão em que os seus profissionais trabalham e vivem sob pressão triplicada. Por isso, é preciso que se respeite mais os jornalistas.

Perseguir, assaltar, fugir, criminalizar, prender, ‘pobretizar’ ou asfixiar jornalistas, em qualquer parte do mundo, constitui perigo para a própria sociedade, pois, sem eles, ninguém saberia o que se passa kilómetros a volta. Aliás, as mensagens dos actores políticos, as acções governativas, as informações sobre as grandes endemias, os conhecidos grupos de pressão, os movimentos feministas, as reivindicações sociais, a democracia, as campanhas de adesão ao voto, etc, etc. não teriam qualquer efeito, nem chegariam aos destinatários se não existissem os jornalistas e os órgãos de Comunicação Social.

Antes de fazer mal a algum jornalista, saiba que a vida é rotativa, os cargos e as posições são temporários. Portanto, toda acção humana é comunicação e terá, naturalmente, um efeito boomerang.
E por se tratar de uma data de comemoração internacional, permita-me, estimado leitor, terminar com chamada de reflexão com uma frase do Secretário Geral do Sindicado de Jornalistas Angolanos, Teixeira Cândido, há cerca de cinco anos, quando dizia: “O primeiro embaixador de um estado é a imprensa”.

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