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Opinião

Islão, terrorismo e a desinformação

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Por Moisés Kambundi
Professor e escritor

Decidimos escrever este artigo, no intuito de esclarecer de forma académica, alguns preceitos que recaem na desinformação, relativamente ao Islão e Terrorismo, de modo imparcial e desapaixonado. Não podemos ficar com a ideia de que ser muçulmano é ser terrorista, é grave ler e ouvir isto de determinadas pessoas que até vão à “Dubai” e se espantam com a sua grandiosidade. É sensível mas tem de ser abordado.

Como surge o Islão:

Maomé (Abu al-Qasim Muhammed) nasceu por volta de 570 d.C., no seio de uma família de mercadores, mas não cresceu com os seus pais. Seu pai faleceu antes do seu nascimento quando visitava Medina, e sua mãe não sobreviveu durante muito tempo após dar a luz a Maomé, portanto, como ficou órfão muito cedo, foi criado pelo seu tio Abu Talib, no centro comercial que era Meca naquela altura. Era um local sagrado para os deuses locais antes do período islâmico, que se tornara mais tarde um santuário do Islão. Durante uma parte do ano, as pessoas iam a Meca em peregrinação, e, também era uma boa oportunidade para se fazer comércio, devido ao fluxo de gente oriunda de vários clãs e tribos distantes, o que resultou no ponto intermediária entre a Península Arábica e Damasco, bem como os impérios Bizantinos e Persa. Os habitantes desta região, Cabaa, se instalavam em Meca e na vizinha Medina, 400 quilómetros a Norte, por estes terem um modo de vida pouco sedentário, e estas duas cidades, tinham aquilo que muitos povos precisavam, religião e comércio sem um poder centralizado, ou seja, ausência de Estado.

O clã de Maomé era Hashim, parte da tribo Quraysh. Portanto, estes clãs estavam habituados a migrar com as cáfilas de camelos e rebanhos de cabras, centenas de quilómetros de deserto aberto. Algumas disputas pelos poços de água era latente entre os diferentes clãs, igualmente ao bom pasto os rebanhos e inúmeros conflitos do dia-dia. Quando estes conflitos não eram resolvidos pelas tradições e normas das tribos nómadas, recorriam a Lei de Talião, justiça por mãos próprias.

Maomé vendia especiarias nas caravanas de Camelos, ensinado pelo seu tio, logo, foi assim que conheceu a sua primeira esposa, Khadjiha, que era viúva, começaram primeiro a ter relação de negócios e mais tarde decidem se casar. Foi neste quotidiano que, por volta dos 40 anos, Maomé começou a ter visões e revelações, cuja origem veio identificar como Anjo Gabriel. Estas revelações formaram o inicio do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, a nova religião monoteísta, sendo Alá o único Deus verdadeiro, um seio onde existia judeus e cristãos. Em 613, Maomé começou a pregar a nova religião e a exortar a jurar fidelidade a Alá, largamente pela cidade, o que não foi bem recebido por toda gente. Contudo, os clãs comerciantes, viram outras pretensões em Maomé, receavam que quisesse aceder ao poder político em Meca, que não tinha um governo centralizado, e o maior receio eram os seguidores que foram aumentando cada vez mais.

Em 622 Maomé faz a Hégira para Medina, a pedido dos natos daquela terra, 75 indivíduos, foram até Meca, pedir que fosse a Medina, juraram protege-lo e a sua nova religião, Maomé aceitou, primeiro, porque perdeu o seu tio em 618, segundo, porque acabara de perder a sua esposa em 619, terceiro, para evitar as hostilidades que havia sobre si em Meca, e quarto, porque foi convidado por um grupo de cidadãos para que os ajudasse a resolver os seus problemas, que eram os mesmos de Meca na verdade. Estes habitantes de Medina, acreditavam que Maomé, por ser um estrangeiro neutro, e com a sua nova religião, poderia ser um bom árbitro para as disputas e, levar a paz e ordem à cidade. Este acordo ficou conhecido como a Constituição de Medina.

Com efeitos imediatos, Maomé passou a ser juiz de disputas entre clãs e indivíduos, ou seja, qualquer situação devia ser apresentada a Deus e a Maomé. Como iria fazer isto? Através do acordo plasmado na Constituição de Medina, que deviam aceitar os ensinamentos de Maomé e suas revelações. A constituição de Medina dizia o seguinte:

Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo! Este é o escrito de Maomé, o profeta entre crentes e muçulmanos de Quraysh e Yathrib e aqueles que os seguem e que estão ligados a eles e que fazem campanha com eles. São uma comunidade única, distinta das outras pessoas.

Em 628, com a sua autoridade, Maomé dirigia uma grande missão de emigrantes e ajudantes de Meca, supostamente para se integrarem na peregrinação. Os habitantes de Meca com receios, obrigaram-nos a parar perto da cidade, a fim de celebrarem um acordo em que no ano seguinte desocupariam a cidade para que eles pudessem estar sós e evitar confrontos. Enquanto aguardavam sob uma árvore, aproximou todos e fez com que eles jurassem lealdade. Este juramento ficou conhecido como o Juramento sob a Árvore, um passo crucial para o Estado de Medina.

Até aqui, o islão sempre vincou o BEM, mas, como tudo para se afirmar, carecia de imposição, tal como as outras religiões monoteístas, como judaísmo e cristianismo. Há vários dados públicos, se quisermos fazer uma introspecção mais profunda sobre o assunto. As religiões não são más, mas sim há pessoas com interesses maus.

A cisão entre os seguidores de Maomé deu-se no ano 632 após a sua morte, e a inexistência de um herdeiro designado. A luta pela sucessão opôs os partidários de Ali, genro e filho espiritual de Maomé, aos apoiantes de Abou Bakr, amigo de longa data do falecido. Esta última corrente acaba por se impor em nome dos valores tradicionais das tribos árabes dividindo em xiitas e sunitas (exemplo são os Sauditas e Iranianos), aqueles que ficaram com Abou Bakr (Sunitas) e os que seguiram o genro de Maomé, Ali (Xiitas), nascendo a corrente dos radicais e dos moderados. Há muitas outras etnias.

Portanto, perceba que, o terrorismo não começou no médio oriente, nem envolve propriamente muçulmanos, associar terrorismo ou terrorista, aos muçulmanos é uma abordagem selectiva, pouco académica e com um desconhecimento real da história.

Terrorismo ou acções terroristas típicas e mais comuns são aquelas que incluem assassinatos, sequestros, explosões de bombas, matanças indiscriminadas, raptos, aparelhamento e linchamentos, com vários interesses. Olhando para este quesito, são os muçulmanos os únicos a optar por estas praticas? Os Ku Klux Klan, conhecido como KKK distintos dos EUA, cometeram várias atrocidades, contra os negros, não elevamos a terrorismo por quê? A IRA na Irlanda, a ETA em Espanha nos anos 60 e 70, cometera atrocidades equivalentes ao terrorismo, se fizermos uma análise desapaixonada.

O terrorista pode ser qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos que pratique tais actos de terror, não é branco, negro, território, religião, é uma pessoa, por esta razão, hoje temos o terrorismo doméstico que tem dominado nos últimos tempos, e não ocorrem no médio oriente, não feitos por estrangeiros, não são cometidos por muçulmanos. Nos EUA, os casos de bulyng maior parte das vezes resulta em chacina, o jovem pega numa arma e dispara contra professores e colegas, é terrorismo doméstico.

Pensamos que a dúvida, surge na incompreensão com o Mujahidin que, é um indivíduo, ou grupo de indivíduos, que se empenha na luta pela jihad (guerra santa), aquele que luta sem se interessar pela sua vida, o que lhe interessa é a causa, custe o que custar, porém, motivados pela religião islâmica, e ódio pelo imperialismo ocidental que invadiu as suas terras e impôs uma mudança de paradigma em seu povo. Caso concreto é o que está a ocorrer no Afeganistão, onde hoje os Talibãs, assumem as rédeas do jogo por inacção dos americanos.

Terrorista pode ser qualquer um, até um Mujahidin, mas nem todo terrorista é um Mujahidin, porque o fundamentalismo religioso os diferencia, a repulsa pelo modelo ocidental é cerne, e isto, Sammuel Huntington, na sua obra, Choque das Civilizações, já havia alertado sobre estes incidentes de imposições. Quando são os ocidentais a invadir e iniscuir-se é aceitável, quando são os não ocidentais a reponderem com os meios que têm é terrorismo. Segundo Carlos Branco, na sua obra A Guerra nos Balcãs, a expansão para uma escala global da guerra santa (jihad), começa no conflito dos Balcãs, onde ganhou maior preponderância e aos olhos dos ocidentais, passou de certa forma a ser uma vantagem, pois lutavam na mesma frente. Portanto, há elementos mais do que claros que precisamos ver o assunto com grande profundidade.