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Irene A’Mosi e a “Poesia Passageira” nos candongueiros de Luanda

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Num candongueiro, a poesia viaja à janela. Na obra audiovisual “Poesia Passageira”, a escritora e poeta Irene A’Mosi captou-lhe os sons, imagens e linguajar. A videoinstalação que acompanha as viagens nossas de cada dia faz parte de “For a New Tomorrow”, exposição de artistas emergentes que arranca esta sexta-feira, 25 de Novembro, na Jahmek Contemporary Art, Hotel Globo, com o patrocínio da Tigra.

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Nos candongueiros de Luanda corre-se, discute-se, grita-se, ri-se e desespera-se. Sua-se num sobe e desce de corpos apertados e reinventa-se o dia-a-dia – cada dia, todos os dias. “Em contraposição a esse quotidiano, a Arte”, atira Irene A’Mosi. Com esta ideia em mente, a escritora e poeta aventurou-se no audiovisual e criou “Poesia Passageira”, videoinstalação que regista a memória colectiva deste mundo frenético com vocabulário próprio e cheiro a óleo queimado. A obra estará em exibição na mostra “For a New Tomorrow”, na galeria Jahmek Contemporary Art, a partir desta sexta-feira.

O manifesto artístico de Irene é contundente – “sou periférica” – e é o fio condutor de “Poesia Passageira”. “Quem vive na periferia cria uma relação intensa com este vaivém de candongueiros e eu venho de um bairro muito distante, o Bita, de onde tinha que apanhar cinco táxis para chegar à cidade”, relata. 

Durante essas “horas intermináveis”, abstraía-se do pára-arranca e fixava-se “nas conversas dos passageiros e nas frases curtas pintadas nas janelas, que vincavam as posições dos taxistas sobre a vida e a sociedade”. Assim nasceu a “ideia de retratar essa forma de comunicação”. Com o tempo, o projecto acabou por evoluir para “uma narrativa inevitável sobre desigualdade social”, na qual os “sons no interior dos táxis e as conversas entre os passageiros, motoristas e lotadores” alternam-se com o “barulho dos carros em movimento e o alvoroço das paragens.”

No centro desta cacofonia, “a palavra” ocupa o papel principal. Conta Irene: “As pessoas que trabalham neste tipo de serviços têm uma linguagem muito própria. Muitos taxistas usam termos novos ou modificam palavras (‘Gorfo 2! Gorfo 2!’), mas, curioso, dão-se a entender perfeitamente.” “Em Angola reinventamos todos os dias a forma de falar. É a nossa maneira de nos expressarmos e de mantermos uma comunicação fluida. Assim nos entendemos, e por isso não interpreto estas palavras como erros gramaticais ou outro tipo de deturpação da Língua Portuguesa, mas sim como algo novo e muito nosso.”

Nesta “desconstrução de normas e modelos que muitas vezes não nos representam”, Irene acredita que “a Arte tem um papel importante” e espera que obras como “Poesia Passageira” fomentem esta discussão. Com a videoinstalação, a também roteirista da Geração 80 leva-nos, assim, acelerador a fundo e música a alto volume, por circuitos periféricos, ora pó ora lama, onde a palavra é coisa própria.

A rua

Durante a exposição “For A New Tomorrow”, o candongueiro poético de Irene terá lugar reservado às portas do Hotel Globo, onde se encontra a galeria pop-up de Jahmek Contemporary Art. “É um marco importante”, considera. Espaços como este são geralmente inacessíveis para o mundo de onde a escritora vem. 

A chegada do azul e branco imaginário ao velho hotel da baixa luandense dá o tiro de partida a “uma mudança de paradigma”. “Levar a rua a um espaço como a galeria Jahmek, num evento apoiado por uma marca tão importante como a Tigra, é surpreendente para alguém como eu. Venho da rua, não tenho estudos universitários. Desde o fim do ensino médio até agora, tudo que aprendi foi nas ruas, onde tive que aprender a sobreviver desde muito cedo como artista e pessoa”. 

“Com esta oportunidade”, continua, “a periferia ganha finalmente representatividade nos centros artísticos”. “Muitos artistas que expõem em galerias obras sobre ‘a rua’, não pertencem realmente a esse mundo. Têm a intenção de abordar um problema, mas acabam por ver ‘a rua’ como um objecto que podem pintar ou fotografar, mas nunca entender. Na verdade, ‘a rua’ é muito mais que uma paisagem, faz parte das nossas vivências, comunica connosco, e há que ouvir o que tem a dizer sobre nós, sobre o nosso passado e o nosso futuro”, defende.

É precisamente esta voz que Irene quer elevar como artista que assumiu a missão de “recolher memórias colectivas”. “Não quero ser um mero elemento decorativo entre tantos artistas”, mas sim “usar a Arte para perturbar, chocar, provocar”.  “É uma aposta no futuro”, sublinha. “Quero que, através desses registos, as próximas gerações saibam como vivíamos, como nos comportávamos, quais eram as nossas narrativas. Dessa forma, poderão perceber que caminhos funcionaram ou não, que erros cometemos e que não deverão repetir”.  

Entre as memórias acumuladas neste baú que enche pouco a pouco, Irene A’Mosi busca respostas. “A vida é uma sequência de perguntas que nós, como artistas, temos que ajudar a responder através do nosso trabalho. Temos que questionar o que vemos e ajudar a encontrar soluções, para que não arrastemos velhos problemas indefinidamente como sociedade”. Para a poetisa, que participa em “For a New Tomorrow” com outros quatro artistas emergentes (Resem Verkron, Magno Daniel, Hélder Garcia e Lilianne Kiame), “são espaços de liberdade como os que a Jahmek e a Tigra proporcionam, sem qualquer tipo de censura ou limitação”, que “permitem aos jovens pensar como induzir esse futuro diferente através da Arte”.

Uma abertura que, por sinal, já tinha sentido anteriormente por parte da Tigra. Há sete anos no mundo da arte, onde começou por participar em eventos de spoken word, Irene participou noutros eventos patrocinados pela marca, como o Festival de Cinema no Feminino ou a Slam Tundavala. Também colaborou com “Mulheres com Pulungunza”, projecto dedicado ao empoderamento feminino, do qual a Tigra é parceira.

Nesta busca “incessante” por soluções e visibilidade, Irene sabe que as respostas e resultados não são imediatos, “há que persegui-los”. Por enquanto, diz, continuará a “apostar na produção audiovisual”, que descobriu este ano quando realizou a curta-metragem “Museu de Manifestações”, onde relata as dificuldades de mobilidade de pessoas portadoras de deficiências físicas em Luanda. No seu mundo criativo, a palavra e a imagem serão sempre o complemento perfeito. Juntas, descrevem um mundo onde as histórias se contam tal qual como são: “um espaço e tempo ocupado por luzes e escuridão”.

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