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Análise

Irão, Washington e a ilusão da guerra necessária

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A recente carta de Joseph Kent, até então Director do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos da América, que entretanto, pediu demissão nesta terça-feira, 17, expõe uma clivagem real no pensamento estratégico norte-americano: a tensão entre o intervencionismo clássico e a doutrina de contenção pragmática que marcou parte do discurso de Donald Trump.

No essencial, o argumento apresentado não é novo, mas ganha relevância no actual contexto: a ideia de que os Estados Unidos poderão estar a ser empurrados para um novo teatro de guerra no Irão sem que exista uma ameaça iminente clara. Este ponto, embora politicamente carregado, merece análise fria. No sistema internacional contemporâneo, a noção de “ameaça iminente” deixou de ser exclusivamente militar; é também estratégica, tecnológica e nuclear.

Contudo, reduzir uma eventual escalada a uma simples imposição externa, nomeadamente por parte de Israel, é intelectualmente pobre e geopoliticamente impreciso. As decisões de Washington resultam de um cálculo multifactorial onde convergem interesses de nacional, credibilidade sistémica e equilíbrio de poder regional. Dito de forma directa: os Estados Unidos não entram em guerras por pressão, entram por interesse.

Ainda assim, há um ponto incontornável que o texto levanta e que não pode ser ignorado: o risco de repetição de erros estratégicos. A memória da Guerra do Iraque continua a assombrar qualquer decisão de intervenção no Médio Oriente. A instrumentalização de narrativas de ameaça, combinada com campanhas mediáticas, já demonstrou no passado a sua capacidade de arrastar potências para conflitos de longa duração, com custos humanos e financeiros devastadores.

A verdadeira questão, portanto, não é se há ou não influência externa, mas sim se existe clareza estratégica interna. A política externa de uma superpotência não pode ser refém de ciclos emocionais, nem de pressões conjunturais. Deve assentar numa leitura rigorosa da correlação de forças e dos interesses nacionais de longo prazo.

Se Donald Trump pretende manter coerência com a sua matriz “America First”, então, a decisão sobre o Irão será o teste definitivo: ou reafirma uma lógica de contenção selectiva, ou cede à tentação histórica do intervencionismo.

No fim, a história já ensinou, mas a geopolítica tem o mau hábito de repetir as lições que os decisores insistem em ignorar.

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