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Análise

Investir em Defesa e Segurança ou defender os investimentos?

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1. Introdução: Segurança como Fundamento do Desenvolvimento Nacional

No século XXI, o conceito de segurança transcende o campo puramente militar: tornou-se um vector estratégico que atravessa todas as políticas públicas económicas, sociais e tecnológicas. Para além de proteger fronteiras, um sistema de defesa moderno protege infra-estruturas críticas, garante segurança jurídica aos investidores, resguarda cadeias logísticas e cria o ambiente de previsibilidade necessário ao crescimento económico sustentável. Em Angola, com aspirações de integração regional e atração de investimento estrangeiro directo, esse entendimento não é facultativo, é imperativo.

Investir na defesa, portanto, não deve ser visto como um custo isolado, mas como um componente do «pacote» de credibilidade do Estado que influencia directamente a decisão de investidores e a segurança dos cidadãos.

2. Segurança e Desenvolvimento: Fundamentos Teóricos e Evidência Empírica

As grandes obras teóricas sobre desenvolvimento apontam para uma relação íntima entre segurança e crescimento. Paul Collier mostra que fragilidade e conflito aprisionam economias; Amartya Sen lembra que liberdade real depende da protecção contra violência e privação. Estas ideias não são retóricas: traduzem-se em investimentos, fluxos de capital e políticas públicas. A Agenda 2063 da União Africana reforça a visão continental de que a paz e a segurança são condição necessária para a prosperidade.

Globalmente, há também uma tendência de aumento de gastos militares e de modernização tecnológica, fenómeno que amplia a necessidade de governação transparente e mecanismos de controlo.

3. O Estado Actual dos Gastos em Defesa em Angola: Realidade Orçamental e Tendências

Os números orçamentais próximos mostram variações recentes no esforço militar de Angola. Fontes de monitorização económica apontam uma redução nas despesas militares entre 2023 e 2024, com estimativas de despesa militar a situarem-se na ordem de centenas de milhões de dólares (em 2024 valores reportados indicam redução para cerca de USD 922,1 milhões). Ao mesmo tempo, o Orçamento Geral do Estado tem mostrado forte pressão por serviço da dívida e prioridades sociais que competem com o financiamento da defesa. Estes factos exigem uma leitura criteriosa: menos gastos nominais não significam automaticamente menor necessidade de modernização, muitas vezes é sinal de restrições fiscais que obrigam a escolhas estratégicas.

4. Riscos Específicos para Angola: Corrupção, Opacidade e Captura de Infra-estruturas

A fragilidade da governação no domínio orçamental e a percepção de corrupção em Angola são fatores que agravam o risco de captura de activos estratégicos por interesses privados, nacionais ou estrangeiros. Indicadores de percepção de corrupção colocam Angola em patamares que exigem reformas profundas; por outro lado, avaliações sectoriais específicas ao sector da defesa apontam para riscos elevados de integridade e baixa transparência em alguns processos. A captura ou privatização informal de infra-estruturas críticas (portos, aeroportos, sistemas logísticos, redes energéticas) em troca de financiamento imediato representa um risco sistémico: a soberania económica pode ficar fragilizada se activos estratégicos forem alienados sem contrapartidas de longo prazo e mecanismos de controlo.

5. Geoestratégia e Progresso: Por que Angola Precisa Fortalecer a Defesa para Garantir o Desenvolvimento

A importância do investimento em defesa e segurança para o posicionamento geoestratégico e geopolítico de Angola no actual cenário político, económico e tecnológico é determinante. Num mundo em transformação, marcado pela competição entre grandes potências, como observa Zbigniew Brzezinski (1997) na sua obra The Grand Chessboard, os Estados que não consolidam capacidades estratégicas tornam-se meros objectos da geopolítica e não actores com voz própria. Angola, com localização estratégica no Atlântico Sul e portas de entrada para a África Austral, precisa garantir que a sua posição marítima, energética e logística não seja vulnerável a influências externas ou pressões geoeconómicas. Para John Mearsheimer (2001), no quadro do realismo ofensivo, o poder militar e a capacidade de projecção são elementos essenciais para que os Estados mantenham autonomia e assegurem interesses nacionais num sistema internacional competitivo.

Adicionalmente, Klaus Schwab (2018), ao discutir a Quarta Revolução Industrial, sublinha que a segurança moderna depende não apenas do poder bélico tradicional, mas também da capacidade tecnológica, da inteligência artificial, da ciberdefesa e do domínio sobre dados estratégicos. Sem estes pilares, países ricos em recursos tornam-se alvos fáceis daquilo que Joseph Nye (2004) caracteriza como coerção indirecta e soft power predatório, no qual nações tecnologicamente mais avançadas disputam territórios e economias através de influência económica, controlo informacional e dependência digital. Assim, para Angola, investir na defesa significa proteger território, recursos e rotas comerciais, mas também fortalecer capacidade de decisão soberana, garantir previsibilidade interna, reforçar alianças estratégicas e posicionar-se como potência emergente com autoridade e respeito no sistema internacional. Em suma, quem não investe em segurança, conforme lembra Henry Kissinger (2014), “não preserva a paz, apenas adia o conflito”.

6. O Dilema Financeiro: Investir Mais, Investir Melhor — e Onde Reduzir

Dado o aperto orçamental, Angola precisa de priorizar. Não se trata simplesmente de aumentar verbas, mas de alocar com critério:

1. Prioridades de investimento

Ciberdefesa, inteligência e capacidades de informação: são multiplicadores de eficácia;

Controlo e vigilância fronteiriça (incluindo segurança marítima) para proteger rotas de exportação e bloqueio de contrabando;

Logística e manutenção: evitar que equipamento moderno se torne obsoleto por falta de manutenção.

2. Cortes e racionalizações possíveis

Reduzir compras redundantes e polivalentes sem avaliação de custo-benefício;

Evitar subsídios ou contratos de curto prazo que externalizem riscos fiscais para o Estado;

Reavaliar programas que não têm métricas de desempenho claras.

3. Alavancas para obter mais com menos

Cooperação regional para partilha de informação e plataformas comuns;

Parcerias público-privadas (PPP) condicionadas a cláusulas de protecção da soberania e transparência;

Investimento em formação e retenção de capital humano militar e técnico.

7. Transparência e Controlo Democrático: Ferramentas Concretas

A opacidade no sector da defesa prejudica a eficiência operacional e mina a legitimidade pública. Para inverter esse ciclo, recomenda-se um conjunto de medidas concretas e sequenciadas:

Auditorias externas regulares, com relatórios públicos desclassificados na medida do possível;

Fortalecimento do Parlamento: comissões especializadas dotadas de acesso a informação seleccionada e mecanismos de sigilo técnico;

Publicação de relatórios summarisados sobre execução orçamental e contratos estratégicos, com versões protegidas quando necessário;

Certificação independente de aquisições (due diligence internacional e nacional);

Plataformas de denúncia protegidas para detecção precoce de irregularidades;

Políticas de compliance para fornecedores que obriguem padrões internacionais de transparência.

Estas medidas não implicam anulação da segurança operacional, implicam, isso sim, equilíbrio entre segredo legítimo e responsabilização pública. Países que melhor gerem este equilíbrio atraem mais investimento e reduzem o risco de aparelhamentos privados.

8. Modelo de Defesa Inteligente e Integrado para Angola (Plano Operacional)

Proponho um modelo operacional em três camadas, estratégico, táctico e institucional com instrumentos concretos e metas temporais.

Camada Estratégica (3–10 anos)

Visão Nacional de Segurança: documento oficial que ligue defesa, economia e planeamento urbano;

Plano Nacional de Modernização: priorizando ciberdefesa, vigilância marítima e capacitação logística;

Parcerias regionais (SADC, AU) para patrulha marítima e intercâmbio de inteligência.

Camada Táctica (1–4 anos)

Centros de Comando Integrados: interligar forças armadas, polícia, agências de fronteiras e serviço de inteligência;

Unidades de cibersegurança com pessoal formado e links com universidades;

Programa de manutenção e logística nacional, redução da dependência externa para manutenção básica.

Camada Institucional (Imediata — 1 ano)

Código de Ética Militar e Programas de Formação em integridade;

Mecanismo de Auditoria Permanente com capacidade de vigiar projectos estratégicos;

Cláusulas de salvaguarda em PPPs que impeçam transferência de controlo sobre infra-estruturas críticas sem aval parlamentar e auditoria internacional.

Cada item deve ter KPIs mensuráveis (redução de tempo de resposta, índice de disponibilidade operacional de equipamento, número de auditorias concluídas, percentagem de contratos com due-diligence).

9. Protecção de Infra-estruturas Críticas e Prevenção da Captura Privada

Quando o Estado privilegia soluções imediatas sem cláusulas de protecção, corre-se o risco de transferência encapotada de controlo de activos estratégicos, portos, terminais, redes energéticas e de comunicação. Para mitigar este risco:

Inventário nacional de infra-estruturas críticas, com classificação de risco e requisitos mínimos de protecção;

Cláusulas contratuais obrigatórias que definam limites de participação privada (porcentagem de capital, direitos de voto, garantias de continuidade de serviço);

Testes de stress e due diligence antes de qualquer concessão;

Planos de recuperação e reacção em caso de tentativa de captura ou litigância estratégica.

A estratégia é clara: permitir investimento privado, mas não ceder soberania. Protecção jurídica e mecanismos de contingência devem ser pré-negociados.

10. Sociedade Civil, Investigação e Media: Parceiros na Boa Governação

O Estado não governa isoladamente. Universidades, think tanks, media independente e organizações da sociedade civil são fontes valiosas de auditoria social, produção de conhecimento e pressão por transparência. Medidas práticas incluem:

Parcerias académicas para investigação em ciberdefesa e logística militar;

Mecanismos formais de diálogo com a sociedade civil sobre prioridades de segurança;

Apoio legal à investigação jornalística para proteger jornalistas que investiguem contratos públicos sensíveis.

Estas acções fortalecem o tecido democrático e aumentam a confiança social nas instituições de defesa.

11. Recomendações Prioritárias Imediatas (Checklist para 12 meses)

Eis as recomendações:

1. Publicar um relatório resumido sobre execução do orçamento de defesa 2024 com dados verificáveis.

2. Implementar uma auditoria externa a pelo menos dois contratos de grande vulto assinados nos últimos três anos.

3. Criar uma comissão parlamentar especializada com mandato e acesso protegido à informação.

4. Lançar um programa de formação em ética e integridade para oficiais de média e alta patente.

5. Iniciar um inventário nacional de infra-estruturas críticas e definir cláusulas de salvaguarda em PPPs.

12. Conclusão: Defender com Inteligência, Crescer com Transparência

Angola enfrenta um paradoxo comum a Estados em transição: a necessidade de modernizar forças de defesa e segurança num contexto fiscal restrito e de elevada exposição a riscos de captura. A saída passa por gerir melhor os recursos, por priorização inteligente, eficácia institucional e disciplina ético-orçamental.

A defesa e segurança não é um fim em si mesma; é um meio para garantir que o investimento, o emprego e a prosperidade sejam protegidos. Um sistema de defesa e segurança moderno, transparente e responsável é um multiplicador de bem-estar, protege fronteiras e também assegura que as infra-estruturas e os investimentos permaneçam sob a alçada do interesse público.

Defender Angola é proteger o presente e assegurar o futuro. E isso exige, em igual medida, equipamento, planeamento, integridade e participação democrática.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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