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Higino Carneiro e a ilusão de que bastava candidatar-se

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A recente anulação da candidatura de Higino Carneiro à liderança do MPLA oferece uma autêntica aula sobre o funcionamento das organizações políticas modernas. Muitos cidadãos acreditam que, numa disputa interna, basta existir vontade política, reunir apoiantes, preencher formulários e apresentar uma candidatura para entrar na corrida. Trata-se de uma visão romântica da democracia, quase tão romântica quanto acreditar que um concurso público se resume apenas à entrega de documentos.

A realidade, porém, costuma ser mais complexa. Antes de conquistar votos, é necessário conquistar algo muito mais exigente: o regulamento. E o caso em análise demonstra precisamente isso. Numa organização política estruturada, o primeiro adversário de qualquer candidato não é o concorrente mais forte, mas sim o conjunto de normas que regula o processo. Quando surgem alegações de assinaturas falsificadas e utilização indevida de documentos de identificação, o regulamento recorda, com toda a sua frieza burocrática, que as regras existem para ser cumpridas e não apenas para decorar os documentos do congresso.

Mas o regulamento é apenas a primeira estação da viagem. Existe uma segunda dimensão, menos visível, mas frequentemente mais determinante: os estatutos, os princípios e a cultura organizacional do partido. Toda organização possui uma cultura visível, expressa nos discursos oficiais, nos documentos estratégicos e nas declarações públicas. Porém, existe igualmente uma cultura invisível, composta por valores, práticas, consensos históricos, símbolos e códigos não escritos que orientam o comportamento colectivo. É aquela dimensão que não aparece nos manuais, mas que todos conhecem. Nesse universo, não basta cumprir os requisitos formais; é necessário demonstrar sintonia com a identidade política da organização. Não basta conhecer os estatutos; é preciso compreender o seu espírito. Não basta falar a linguagem oficial; é necessário interpretar correctamente os seus sinais. Em política, muitas vezes, não basta ser candidato. É preciso ser visto como o candidato certo.

É precisamente aqui que surge o terceiro elemento, talvez o mais importante de todos: o alinhamento com o perfil considerado desejável para assegurar a continuidade do poder. Organizações políticas não escolhem apenas dirigentes; escolhem também a direcção que pretendem seguir. Partidos que governam há longos períodos tendem a valorizar lideranças capazes de garantir estabilidade, continuidade e preservação do projecto político que defendem. Assim, a questão central nem sempre é quem deseja liderar, mas quem melhor representa a visão estratégica que a organização pretende manter. É uma lógica que não é exclusiva do MPLA; encontra-se em praticamente todas as grandes organizações políticas do mundo. A diferença é que, em alguns casos, essa realidade é apresentada como estratégia institucional; noutros, como simples coincidência histórica.

Ainda assim, no meio de regulamentos, estatutos, culturas organizacionais e perfis desejáveis, existe um aspecto que merece destaque. O simples facto de uma candidatura alternativa ter sido apresentada demonstra que continua a existir espaço para o exercício democrático dentro das estruturas partidárias. Pode ser um espaço cercado por procedimentos, requisitos, validações, verificações e múltiplos filtros institucionais, mas existe. E isso, por si só, já constitui uma demonstração de que a competição política interna não é uma impossibilidade absoluta.

A grande ironia reside exactamente aí. Há quem entenda a democracia como o direito de escolher livremente entre várias opções. Outros parecem entendê-la como o direito de tentar tornar-se uma dessas opções. No caso presente, a tentativa acabou por encontrar obstáculos antes de chegar ao destino final. Mas o episódio deixa uma reflexão interessante: nas organizações políticas, o caminho para a liderança raramente começa nas urnas. Começa muito antes, nos regulamentos, nos estatutos, na cultura institucional e na definição prévia do perfil que melhor serve os objectivos estratégicos da organização. Em resumo, a democracia interna continua viva. Apenas funciona através de um sistema sofisticado de filtros, verificações e mecanismos de compatibilidade política que garantem que nem todos os que querem podem chegar, mas todos os que chegam parecem ter compreendido perfeitamente as regras do jogo.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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