África
Guiné-Bissau endurece discurso e acusa Portugal de ingerência
O Conselho Nacional de Transição (CNT) da Guiné-Bissau endureceu, esta segunda-feira, 23, o discurso político e diplomático contra Portugal, acusando directamente Lisboa de ingerência nos assuntos internos do país.
Em conferência de imprensa realizada em Bissau, o porta-voz do órgão, Fernando Vaz, advertiu que o CNT não voltará a tolerar qualquer tentativa de interferência externa, sublinhando que Portugal “não tem legitimidade para impor orientações” à realidade política guineense.
A reação surge na sequência das declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, que, a partir de Paris, reiterou o apoio de Lisboa à Guiné-Bissau, sobretudo nos sectores da saúde e educação, e admitiu esforços diplomáticos, em articulação com países como Angola e Brasil, para o regresso à ordem constitucional.
Apesar do tom diplomático adoptado por Lisboa, o CNT interpreta essas iniciativas como tentativa de influência externa sobre a condução do processo político interno, numa altura em que os militares continuam a exercer o poder de facto, meses após o alegado golpe de Estado.
O endurecimento da posição de Bissau ocorre num contexto de crescente pressão internacional. A Freedom House apontou recentemente a Guiné-Bissau como um dos países com maiores retrocessos em direitos políticos e liberdades civis, reforçando críticas ao actual cenário governativo.
A crise política já resultou na suspensão do país de várias organizações internacionais, incluindo a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a União Africana e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, aprofundando o isolamento diplomático.
Num novo foco de tensão, o CNT rejeitou igualmente a actual liderança da CPLP, exercida por Timor-Leste, afirmando não reconhecer a sua presidência rotativa, numa decisão que poderá agravar ainda mais as relações com os países membros da organização.
Apesar das críticas externas, o Conselho Nacional de Transição mantém a sua posição, defendendo que a atual configuração política é necessária para garantir a estabilidade interna e preservar a soberania nacional, insistindo que o controlo militar do poder constitui uma resposta à crise que o país enfrenta.
