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Opinião

Girabola: competição profissional com estrutura amadora?

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O recente episódio ocorrido no Girabola, em que o Clube Desportivo 1.º de Agosto se apresentou no Estádio França Ndalu e o Atlético Petróleos de Luanda, juntamente com a equipa de arbitragem, compareceu no Estádio 11 de Novembro, deve ser analisado como um fenómeno institucional e não como um simples episódio pontual.

O sucedido revela fragilidades estruturais na arquitectura de governação do futebol profissional angolano. Não se trata apenas de uma falha logística; trata-se de uma disfunção organizacional que expõe limitações nos mecanismos de coordenação, validação e responsabilização.

Num sistema profissional, a previsibilidade operacional é um requisito mínimo. Quando duas equipas e a arbitragem não convergem para o mesmo local oficialmente designado, evidencia-se uma ruptura nos canais formais de decisão e execução.

  1. A Liga Profissional como Imperativo Estrutural

A criação de uma Liga profissional autónoma não é uma proposta circunstancial. É uma exigência estrutural do desporto moderno.

Segundo Barrie Houlihan (2008), os sistemas desportivos contemporâneos caracterizam-se por crescente complexidade organizacional, exigindo especialização funcional, clareza normativa e mecanismos de accountability robustos. A ausência destes elementos compromete a eficiência e a legitimidade institucional.

No mesmo sentido, Jean-Loup Chappelet (2010) sustenta que a governação eficaz do desporto profissional requer separação clara entre as funções reguladoras (federação) e as funções executivas e comerciais (liga), prevenindo conflitos de competência e assegurando eficiência operacional.

Uma Liga profissional de futebol constitui-se, tecnicamente, como:

Pessoa colectiva de direito privado ou misto, dotada de autonomia administrativa e financeira;

Estrutura executiva responsável pela organização da competição;

Entidade com poderes regulamentares delegados;

Órgão central de negociação e gestão dos direitos comerciais;

Sistema institucional com mecanismos internos de controlo e auditoria.

A profissionalização não se resume à existência formal da competição. Ela implica arquitectura institucional adequada.

  1. Governação e Estrutura Organizacional

A teoria organizacional fornece instrumentos claros para compreender o problema.

Henry Mintzberg (1983) argumenta que organizações complexas necessitam de mecanismos de coordenação formalizados — padronização de processos, supervisão directa estruturada e sistemas claros de informação. Quando tais mecanismos são frágeis, aumentam os riscos de desarticulação operacional.

No contexto do futebol profissional, a falha de alinhamento quanto ao local de realização de uma partida sugere ausência de:

Sistema digital unificado de validação oficial;

Protocolos obrigatórios de confirmação logística;

Hierarquização clara de decisão final;

Auditoria interna de cumprimento regulamentar.

Geoff Walters (2012) reforça que a boa governação no desporto assenta em três princípios essenciais:

  1. Transparência processual;

  1. Responsabilização objectiva;

  1. Distribuição inequívoca de competências.

Sem estes pilares, a competição perde previsibilidade e credibilidade.

  1. Eficiência Económica e Centralização Comercial

Do ponto de vista económico, a inexistência de uma Liga profissional limita o potencial de valorização do produto futebol.

Stefan Szymanski (2003) demonstra que a centralização dos direitos comerciais sob uma liga aumenta a eficiência económica, permite redistribuição equilibrada de receitas e fortalece o equilíbrio competitivo.

Uma Liga profissional permitiria:

 

Negociação colectiva de direitos televisivos;

Estruturação de contratos de patrocínio padronizados;

Planeamento financeiro plurianual;

Implementação de fair play financeiro nacional;

Melhoria da previsibilidade orçamental dos clubes.

Sem estrutura comercial integrada, o campeonato perde valor de mercado e capacidade de atracção de investimento.

  1. Separação entre Regulador e Operador

Os modelos internacionais recomendam distinção clara entre:

Entidade reguladora (federação);

Entidade organizadora e comercial (liga).

Este princípio encontra respaldo nas orientações institucionais da FIFA e da Confederação Africana de Futebol, que promovem governação transparente, autonomia funcional e profissionalização das competições de elite.

A concentração excessiva de funções numa única estrutura tende a gerar:

Sobrecarga administrativa;

Ambiguidade decisória;

Redução de accountability;

Fragilidade na execução operacional.

A especialização funcional é uma exigência do desporto contemporâneo.

  1. Valor Público e Legitimidade Institucional

Do ponto de vista da administração pública aplicada ao desporto, Mark Moore (1995) defende que organizações devem produzir valor público sustentado em três dimensões:

Legitimidade;

Capacidade operacional;

Sustentabilidade institucional.

O futebol profissional, enquanto fenómeno social e económico de grande impacto, exige exactamente estes três elementos.

Quando ocorrem falhas estruturais visíveis, a legitimidade institucional é afectada. E quando a legitimidade é afectada, diminui-se a confiança dos adeptos, investidores e parceiros estratégicos.

  1. Instrumentos Técnicos que uma Liga Implementaria

Uma Liga profissional autónoma poderia implementar, de forma estruturada:

Sistema digital integrado de calendarização e validação;

Certificação prévia obrigatória do local de jogo;

Manual operacional padronizado para todos os clubes;

Comité independente de arbitragem com avaliação técnica contínua;

Sistema disciplinar automatizado por incumprimento;

Auditorias regulares de conformidade regulamentar.

Estes mecanismos reduzem a margem para erro humano e fortalecem a previsibilidade institucional.

Portanto, o episódio ocorrido não deve ser tratado como um acontecimento isolado. Ele constitui um indicador objectivo de fragilidade estrutural na governação do futebol profissional angolano.

A criação urgente de uma Liga profissional autónoma, juridicamente estruturada, financeiramente sustentável e tecnicamente competente é uma condição necessária para:

Garantir previsibilidade operacional;

Reforçar a credibilidade institucional;

Atrair investimento estruturado;

Elevar o nível competitivo do campeonato nacional;

Alinhar o futebol angolano com as melhores práticas internacionais.

A modernização institucional não é apenas desejável. É imprescindível para assegurar estabilidade, confiança e valorização sustentável do futebol em Angola.

 

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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