Análise
Geopolítica africana 1963 – 2026: tecnologia e infra-estrutura digital
A transformação tecnológica e o desenvolvimento das infraestruturas digitais constituem elementos centrais na estratégia de integração e desenvolvimento continental da União Africana, representando um vector essencial para a promoção da inclusão socioeconómica, da competitividade global e da soberania digital. Orientadas pela Estratégia de Transformação Digital para África (2020-2030) e pelo Programa para o Desenvolvimento de Infra-estruturas em África (PIDA), as iniciativas da UA têm gerado progressos significativos em conectividade, economia digital e harmonização de políticas, com impactos directos na redução da exclusão digital e na consolidação de uma sociedade africana digitalmente capacitada.
Entre os avanços registados, destacam-se o aumento do acesso à banda larga, a expansão da tecnologia financeira, o reforço da segurança cibernética e a criação de capacidades institucionais para a governança digital.
Entre 2019 e 2022, mais de 160 milhões de africanos passaram a ter acesso à Internet de banda larga, e estima-se que, no início de 2025, a penetração das tecnologias de informação e comunicação (TIC) ultrapasse os 25%. O número de utilizadores de Internet aumentou 115% entre 2016 e 2021, apoiado pela expansão de redes de fibra óptica e pelos principais projectos de cabos submarinos, como 2Africa e Equiano, complementados por 1.700 km de fibra terrestre implantados na Mauritânia entre 2021 e 2022, o que reduziu os preços grossistas da banda larga em algumas áreas em até 99%. Paralelamente, a implementação do Sistema Africano de Troca de Internet (AXIS) permitiu que o número de países com Pontos de Troca de Internet (IXPs) passasse de 18 para 35, reduzindo a dependência do trânsito internacional e melhorando significativamente a velocidade e a resiliência das redes.
No plano da economia digital, a inclusão financeira digital expandiu-se de forma significativa, com 191 milhões de indivíduos na África a realizarem ou receberem pagamentos digitais entre 2014 e 2021. O sector de tecnologia financeira (Fintech) tornou-se um motor central da inovação africana, destacando-se a “Savana de Silício” do Quénia, avaliada em cerca de 7,18 mil milhões de dólares em 2023 e projetada para atingir 18,24 mil milhões de dólares em 2032. O desenvolvimento de centros de inovação digital acompanha esta expansão, com mais de 130 centros tecnológicos abertos num período de dois anos, promovendo a investigação, o empreendedorismo e a capacitação local.
Do ponto de vista institucional e de governança, a UA tem avançado na construção de um quadro político e regulatório robusto. O Pacto Digital Africano (ADC), adoptado em julho de 2024, estabelece uma posição comum unificada para impulsionar a inclusão digital e o desenvolvimento sustentável. A ratificação da Convenção de Malabo, em Junho de 2023, proporcionou um enquadramento jurídico para proteger Infraestructuras digitais e enfrentar ameaças cibernéticas, enquanto a Estratégia Continental sobre Inteligência Artificial, aprovada em 2024, orienta a adopção ética e responsável da IA, fortalecida por acordos estratégicos com parceiros internacionais, como o Google, para aumentar a capacidade soberana do continente nesta área.
Os ganhos socioeconómicos e de serviço público refletem-se no desenvolvimento de governo electrónico e serviços digitais, incluindo iniciativas de identificação digital na Nigéria e no Gana, bem como a utilização de drones para entrega de suprimentos médicos no Ruanda. A capacitação de recursos humanos digitais tem sido intensificada por programas como “1 Milhão até 2021”, actualmente expandido para “1 Milhão de Próximo Nível”, com o objectivo de formar 300 milhões de pessoas anualmente até 2025. Os investimentos em infraestruturas no âmbito do PIDA proporcionaram acesso à eletricidade a cerca de 30 milhões de pessoas e estima-se que possam contribuir para mais do que duplicar o PIB africano até 2040.
Parcerias estratégicas, como a Smart Africa Alliance, que reúne mais de 40 países membros, têm impulsionado a iniciativa “One Africa Network”, promovendo a harmonização das políticas de TIC e a redução das tarifas de roaming. Apesar destes avanços, persistem desafios significativos, incluindo desigualdade de acesso, disparidades digitais de género — com as mulheres apresentando 37% menos probabilidade de utilizar a Internet móvel em comparação com os homens — e a necessidade de investimentos adicionais e sustentados em infraestruturas para garantir a conectividade plena de zonas rurais e remotas.
No conjunto, as iniciativas tecnológicas e digitais da União Africana consolidam-se como um instrumento estratégico de desenvolvimento e integração continental, complementando os esforços em saúde pública e outros setores críticos. Ao fortalecer a conectividade, a economia digital e a governança tecnológica, estas políticas contribuem para a autonomia africana, para a redução das vulnerabilidades externas e para o posicionamento geopolítico do continente numa era global marcada pela interdependência digital.
