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Editorial

Exploração da pobreza e da sexualidade: a nova máquina de fazer ‘likes’

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Há algo que deve começar a ser questionado: a exploração da fé e do sofrimento das pessoas. Primeiro a fé, porque é o que o ser humano tem de mais sensível.

É aquele momento que nos despimos de toda a maldade e adquirimos uma pureza quase como de uma criança, nos tornando totalmente frágeis e manipuláveis.

Segundo, a exploração do sofrimento devido condições sociais adversas, um momento que expõe a vulnerabilidade humana.

Recentemente, temos visto imagens e vídeos a circularem nas redes sociais de uma actividade feita por uma organização social, que trouxe alguns influencers para promover projectos em Angola.

São bem-vindos todos aqueles que querem colaborar e ajudar o país a desenvolver. Reconhecemos que muito tem sido feito e ainda há muito trabalho por se fazer. Entretanto, é importante despir-se da inocência em algumas situações.

Entre as imagens das visitas às comunidades, inexplicavelmente começaram a aparecer vídeos de mulheres estrangeiras com fatos de banho, acompanhadas por crianças nas mesmas condições, deixando nítido que a acção não é tão inocente assim.

Não pela organização, mas as pessoas que vieram nitidamente mostraram que o objectivo maior era fazer ‘likes’, aumentar o número de seguidores e com isso ganhar valores que podem chegar aos milhões de kwanzas.

Somente o You Tube paga hoje a cada mil visualizações em torno de 0,25 a 4,50 dólares. Os influencers  já descobriram que quando se trata de ganhos nas redes sociais, o maior montante vem, principalmente, de parcerias directas, não de um valor fixo por compartilhamento, sendo o engajamento e o tamanho da audiência os maiores determinantes do seu potencial de ganho.

No Brasil, os ganhos por Post/Acção, não só compartilhamento, giram em torno de, para contas com dez mil a cem mil seguidores: média de R$1.500 (Kz 253 988) a R$4.000 (Kz 677 302) por post, para cem mil a um milhão de seguidores: de R$4.000 a R$25.000 (Kz 4 233 142) + por post. Acima de um milhão pode ultrapassar R$40.000 (Kz 6 773 028) por post.

A disputa actualmente, com tantas opções é pela atenção, cada segundo que visualizamos um vídeo conta. E, neste momento, os produtores de conteúdo, como precisam inovar, descobriram a nova fórmula. A pobreza, a tristeza e o sofrimento chamam muito mais atenção do que o sucesso.

Soma isso a mulheres bonitas quase sem vestimentas… toda a repercussão mostra como a fórmula funciona. E bem. Claro, para os bolsos dos influenciadores.

E tem algo ainda pior nisso tudo, a exposição de crianças nas redes sociais. Recentemente, no Brasil, houve um intenso debate sobre a sexualização infantil com lei já sendo discutida para começar a travar a divulgação de imagens sexualizadas de crianças na internet, o que está a ser considerado como produção de conteúdo para pedófilos. Como resultado, o You Tube e o Instagram tiraram do ar vários canais com exposição sexualizada de crianças.

Fica apenas como uma reflexão em relação a isso, porque nem tudo o que vemos devemos engolir o roteiro pronto que nos entregam. Temos que reflectir, nem tudo é caridade gratuita e, principalmente, temos que proteger as nossas crianças.

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