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Opinião

Escutar é “falar de boca fechada” e de coração aberto

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Certa vez, um dos meus estudantes questionou: por que falamos mais e ouvimos menos?

Em resposta tímida, disse-lhe: palavra é prata e silêncio é ouro. Mas é sempre assim? Retrucou em tom de dúvida, como mostravam as listras na sua testa e a mão coçando a orelha. Sem tê-lo convencido, decidi que havia de lhe falar com mais pormenores na aula a seguir, pois o “intervalo de água” não seria suficiente para um à vontade sobre o assunto.

Não são poucas as razões pelas quais somos pouco admirados pela escrita. Uma primeira seria o facto de o nosso pensamento ser muito mais rápido que a nossa capacidade de falar. Algumas pesquisas apontam que proferimos, em média, 125 palavras por minuto, mas podemos processar cerca de 400/500 palavras quando ouvimos.

A consequência é a seguinte: ao ouvirmos alguém, «obrigamos» o nosso cérebro a receber as palavras à velocidade muito inferior ao que ele é capaz. A renitência do cérebro em enveredar por essa lentidão, impele-o a preencher o desvio com pensamentos desligados das palavras proferidas pela pessoa que estamos a escutar. Ou seja, conseguimos ouvir o que nos dizem e ainda nos resta tempo para «passear» em outros pensamentos. O problema agudiza-se porque, frequentemente, esse desvio é mais amplo e longo do que o desejável. Devaneamos, desenhamos conclusões precipitadas, planeamos a resposta, pensamos acerca de outras coisas – ignorando partes importantes do que está a ser pronunciado. Quando regressamos às palavras proferidas, pode suceder que o nosso interlocutor se encontre numa fase mais avançada do que aquela que havíamos deixado – e perdemos uma porção considerável do que ele pretende transmitir-nos.

O facto é que o emocional quase nunca fica de lado quanto aos aspectos que nos tornam menos competentes na escuta. Eis alguns exemplos:
É difícil reconstruir na nossa mente o pensamento do nosso interlocutor. A pessoa que nos fala tem um pensamento. Para no-lo transmitir, desmonta-o e tradu-lo em palavras. No entanto, para que compreendêssemos totalmente as suas palavras, deveríamos ser capazes de reconstruí-las de acordo com o pensamento original. Porém, essa reconstrução a 100% é impossível, pois os processos de codificação e descodificação dificilmente são coincidentes.

O homem é um ser social, por isso tende a criar boas impressões nos outros. Mas este desejo pode desviar as nossas atenções das palavras do nosso interlocutor. Ou seja: quando estamos excessivamente preocupados em criar boas impressões à pessoa que fala connosco, podemos não prestar a devida atenção ao que ele pretende dizer-nos.

Quando escutamos, somos afectados pelas emoções que nesse momento nos envolvem. Se estamos excepcionalmente bem-dispostos inclinamo-nos mais para os aspectos positivos das mensagens ouvidas, descurando os negativos. O inverso pode ocorrer em situações excepcionais de negatividade emocional. O que quer dizer que escutamos de acordo com o modo como nos sentimos naquele momento.
Muitas vezes pensamos no que pretendemos dizer ainda antes de o nosso interlocutor terminar de falar. Ou seja, «colocamos a carroça à frente dos bois». Daí resultam distracções e perdemos a oportunidade de ouvir tudo aquilo que ele tem para nos dizer.

Noutras circunstâncias, julgamos que «já sabemos» o que o nosso interlocutor vai dizer. Não tomamos o devido tempo para compreender, interrompemos e precipitamo-nos a «responder». Os bons ouvintes actuam ou pelo menos deveriam actuar de modo diferente – «ouvem até ao fim».

Por vezes o ouvinte torna-se o «sabe tudo». Altivo e presunçoso, torna-se pouco receptivo às palavras do interlocutor. Não ouve que é realmente dito, precipita-se nos juízos que projecta sobre as palavras ouvidas, o que pode, como ocorre muitas vezes, fazer o falante adoptar postura desconfiada ou defensiva e até arrogante.

O silêncio do nosso interlocutor gera-nos um tal desconforto que procuramos preencher o vazio com as nossas palavras. Todavia, isso pode impedir-nos de compreender o falante que apesar de silencioso, ainda não terminou o que pretende dizer-nos.

Perguntaria ao meu estudante: quando é que realmente ficas em silêncio para ouvir alguém?

Arrisco que uma das hipóteses seria: quando ouço o que desejo ouvir. Quando ouvimos o que desejamos ouvir, abrimos bem os nossos ouvidos, aceitando tudo – verdades, meias- verdades e até mesmo ficção. No entanto se o que ouvimos contraria os nossos mais arreigados preconceitos, ideias, convicções, costumes e complexos, o nosso cérebro pode ficar exageradamente estimulado. A consequência é que planeamos (mentalmente) replicar, fazer uma pergunta que embarace o nosso interlocutor, ou simplesmente voltamo-nos para sentimentos que reforcem o nosso sentimento relativamente ao assunto em causa («isto é um disparate; mais uma prova de que eu tenho razão; mais para cá, favas acompanhadas de awis e ´tá falar lixo»).

Os comportamentos do falante também podem impedir uma boa escuta. Imagine que o falante expressa-se em baixo tom de voz, constrói incorrectamente as frases, apresenta os temas de modo desorganizado, é repetitivo e monocórdico, fala ansiosa e rapidamente, denota insinceridade, usa indevidamente os equipamentos audiovisuais, não nos fita os olhos, vira as costas à audiência, é inconveniente nos gracejos, usa moletas e amortecedores imperceptíveis.

O que nos faz ouvir menos é que quando ouvimos alguém, nem sempre somos capazes de distinguir entre o essencial e o acessório. Atribuimos igual importância a todos os temas da conversa e perdemos a capacidade para extair a «mensagem nuclear».

Podíamos trazer muitos outros exemplos relacionados com a necessidade do silêncio em conversas e afins, mas o cerne é que necessitamos de uma escuta activa e empática. Pois que na escuta, o órgão mais importante nem sempre é o ouvido ou a mente mas o coração. É nele que você encontrará o verdadeiro significado da comunicação. Só podemos ouví-lo e ele a nós somente fala, quando estamos em quase absoluto silêncio.

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