Connect with us

Politica

Erro de cálculo ocidental levou ao aumento da influência russa em África

Published

on

Incursão diplomática russa no continente berço mantém-se imparável, uma presença que torna o alcance para democracia no continente bem mais distante.

A Federação Russa de Vladimir Putin está a demonstrar, à semelhança dos Estados Unidos, ser uma Nação altamente poderosa. Apesar de travar uma guerra na Ucrânia, objectivamente começada por si, mantém acções diplomáticas que visam livrá-lo do isolamento global, além de estar a afastar os países europeus, com a França à testa, de suas ex-colónias.

O Níger, o Mali, o Burkina Faso e a República Centro Africana, antigas colónias do país de Emmanuel Macron, estão hoje sob influência russa quase a 100%, facto que tem tirado o sono ao presidente francês, que não vê outra alternativa senão parar os intentos de Vladimir Putin através de tropas francesas no teatro militar que se desenrola na Ucrânia.

Com as ex-colónias a escaparem-no entre os dedos, não levará muito tempo para que a França, cujo PIB ascende aos 2,8 mil milhões de euros, cerca de 3 mil milhões de dólares, venha a se tornar num país pobre, tendo em conta que boa parte de sua economia é sustentada por contribuições e depósitos milionários de suas ex-colónias, fruto dos acordos rubricados à véspera da descolonização.

À medida que estes países vão encontrando um protector à altura dos desafios globais, como é Moscovo, estas capitais africanas, já ávidas por rasgar os acordos celebrados no século passado, ver-se-ão com poderes para o fazer, e, coligadas, isolar Paris.

Por um lado, vale referir que o acordo entre estes países e a França, então potência colonizadora, é humanamente imoral, e em face disso deve ser revisto numa perspectiva contextual. Por outro lado, o fim da parceria destes países com o Ocidente acaba por ser perigoso para o pacato cidadão pobre africano, dado que os governantes destes Estados africanos ver-se-ão livres de actuar como quiserem sem observância dos direitos humanos, democracia ou boa governação, dado que a Rússia e a China não se interferem em relação a estes itens da vida. Ou seja, para estas duas potências, o mais importante é a parceria entre os Estados.

Por exemplo, desde que se deu os golpes de Estado mais recentes em África, estreitou-se a relação entre os países africanos que viram seus chefes de Estado sucumbirem politicamente diante da fúria dos militares com a Federação russa.

Enquanto o Ocidente exige aos militares para que devolvam o poder aos civis, por não ser vocação dos militares administrar os Estados, bem como a realização de eleições, os russos nada dizem a propósito. Têm é ampliado a sua presença através do Grupo Wagner, que não só presta assessoria militar a estes governos, como também tem actuado como parte integrante do sistema de defesa e segurança destes países, visando uma estratégia de intimidação contra o Ocidente, tendo em conta o poderio bélico russo, que se revela na Nação mais poderosa do mundo em matéria de bombas nucleares.

A responsabilidade da morte da democracia em África

O Ocidente alargado não se pode queixar. Depois de ter saído vitorioso da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente, com os Estados Unidos da América à testa, criou um mundo baseado em regras, que foram pilares para tudo que se conhece hoje.

E foi com base nessa regra e a clara força militar ante os outros Estados, que alcançaram a prosperidade, e negligenciaram a sede de bem-estar de outros povos. Ou seja, como potência, os ocidentais passaram a aceitar que ocorresse em África o que não permitiam que tivesse em lugar em seus solos, como violações de direitos humanos, fraudes eleitorais e a instalação de ditaduras.

Cooperavam com as ditaduras, reforçando os seus arsenais militares, que em muitos casos serviam para reprimir o seu próprio povo, enquanto tinham acesso livre as riquezas que levam para o desenvolvimento de suas terras.

Além disso, quando chamados para apoiar militarmente qualquer Estado africano contra grupos rebeldes ou terroristas, as suas forças (as ocidentais) revelavam-se/revelam-se incapazes de pôr termo ao referido mal.

Félix Tshisekedi, presidente da República Democrática do Congo (RDC), por exemplo, manifestou-se saturado com a presença das forças de manutenção da ONU, no seu país, e exige a sua retirada acelerada, à sua ineficácia perante os grupos armados.

José Eduardo dos Santos (já falecido), então na qualidade de Presidente de Angola, e líder da Região dos Grandes Lagos, intensificou acções diplomáticas junto da ONU e dos países ocidentais, visando levantar o embargo de armas impostas à República Centro Africana (RCA) desde 2013, mas não foi bem sucedido, dado que os ocidentais são a maioria na ONU, e manifestam-se, até aqui, relutantes.

Os ocidentais justificam as suas posições favoráveis ao contínuo embargo, imposto na sequência da guerra civil que eclodira há mais de uma década, visando o alcance da paz e a estabilidade na região. Mas contrariamente a essa perspectiva, os grupos rebeldes têm conseguido se armar, inclusive com material com uma sofisticação superior ao armamento utilizado pelo Estado.

José Eduardo dos Santos, vale lembrar, tudo fez para ajudar no desenvolvimento da RCA, que, à data altura, suas instituições estatais tinham inclusive dificuldades financeiras para a manutenção de suas tarefas. Se o Ocidente tivesse dado ouvidos a José Eduardo dos Santos, provavelmente a RCA não teria a necessidade de, através de Vladimir Putin, contratar o Grupo Wagner para a sua protecção enquanto Estado.

Ao que tudo indica, Félix Tshisekedi, aliado do actual presidente angolano, João Lourenço, terá igualmente solicitado os préstimos do Grupo Wagner, visando acabar de uma vez por todas com os grupos rebeldes que se vão espalhando pelo país há décadas, apesar da presença das tropas da ONU preenchidas com exércitos ocidentais, tidos como os mais equipados e profissionais do mundo.

A opção de Tshisekedi, cujo país partilha uma vasta fronteira terrestre e marítima com Angola, talvez não agrade muito aos interesses actuais de Luanda, que vai dando mostras de estreita colaboração com o Ocidente, mas a verdade é que o país vizinho não vê outra alternativa.

Entre outros países, além dos Estados já citados, o Grupo Wagner está hoje no Níger, no Mali e no Burkina Faso. Todas essas Nações, há dez anos, eram controladas pela França, que acabou por se revelar incapaz de partilhar a prosperidade que seu povo vivencia em Paris e noutras localidades.

Não será fácil para o Ocidente contornar a situação, enquanto os militares continuarem no poder.

E para lá dos governos militares nestes países, também Estados africanos comprovadamente democráticos, como é o caso do Senegal, que podem vir a virar as costas ao Ocidente, sobretudo por conta da postura francesa.

Numa intervenção feita na passada quinta-feira, 16, Ousmane Sonko, actual primeiro-ministro do Senegal, nomeado pelo presidente Bassirou Faye, criticou a atitude de Paris durante a repressão aos protestos do ex-presidente Macky Sall, acusando a presidência de Macron de ter incitado à “perseguição”. Ousmane Sonko fez estas acusações diante do opositor da esquerda radical francesa, Jean-Luc Mélenchon, durante uma conferência de cariz global.

“Durante todo o período de perseguição violenta contra todo um movimento político e que resultou na morte de mais de 60 pessoas, milhares de feridos e mais de mil presos políticos, nunca se ouviu o governo francês denunciar o que aconteceu no Senegal”, recordou Sonko, que, entretanto, avisou que o seu governo e seu país, não vão “abandonar” o povo e os governos do Sahel.

“Faremos tudo o que for necessário para fortalecer os laços e ajudá-los no que for necessário. É certo que houve golpes de Estado e certamente ninguém encoraja a prática de golpes de Estado, mas recuso-me a ser aquele que analisa os sintomas e que se recusa a ver as verdadeiras causas”, sublinhou.

O presente discurso é uma clara demonstração da insatisfação gerada por anos de parceria sem prosperidade. Estes factos devem levar os ocidentais a repensar suas acções.

Entretanto, importa referir que, apesar do ocorrido e dos anos sofridos, os africanos devem, nesse jogo da geopolítica, escolher um lado, e não há um lado melhor do que a democracia. A liberdade, a economia de mercado sem controlo real do Estado, e os direitos humanos, só são objectivamente alcançáveis com a democracia.

*O provável perigo da presença dos Wagner na RDC para Angola é um tema que vamos abordar nos próximos dias.

Colunistas