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Envio de licenciados ao exterior: Novo produto ou nova embalagem!

Olivio N'kilumbo

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Como angolano, senti-me orgulhoso a ver o nosso nome “Angola” associado ao termo “Mundo”, sem que isso fosse necessariamente algo negativo – gostei. Como jovem, a notícia caiu ainda melhor, pensei logo na oportunidade de amigos, conhecidos ou mesmo desconhecidos, mas, sobretudo angolanos terão para aprofundar os seus conhecimentos e acumular alguma experiência por via da convivência com outros estudantes com uma qualidade reconhecida, em sistemas de ensino de referência internacional.

Como Professor, senti-me aliviado e pensei: Agora sim, temos mais um instrumento não para chantagear, mas para motivar os nossos melhores para se esforçarem um pouco mais.

Finalmente, como membro directo ou indirecto do Ministério da Educação em particular e do sistema de ensino em geral, senti que afinal estamos a ser ouvidos pelo Executivo. Afinal, em tão pouco tempo era a segunda Victória após a aprovação da “padronização dos salários”, que agora se assemelham a classe dos médicos – custou, mas chegou.

Tudo isso passou pela minha cabeça numa fracção de segundos. Como passaram outras coisas. De forma deconstraída, desde então tenho conjecturado devagar para tentar perceber a medida, programa ou simplesmente o anúncio – já que não tenho acesso ao programa.

Devo mencionar que sem o programa é quase impossível fazer uma análise adequada, logo, alerto aos leitores, que este texto espelha apenas a minha opinião com base na experiência enquanto cidadão e acima de tudo com alguma instrução de Ciência Política.

Nota: aproveito e solicito que algum leitor que tenha acesso e tenha boa vontade a partilhar para que eu possa fazer uma análise digna ao esforço dos profissionais que o gizaram.

Análise dos Factos no Anúncio:

1- Inclusão e Diversidade

Ficou claro que a sorte vai bater a porta de 300 Angolanos por ano, espero que sejam de Cabinda ao Cunene, do Lobito ao Luau. Temo que algumas das nossas províncias, para não dizer boa parte delas, sofram com o pesadelo da desqualificação imediata, porque nem são abençoadas com professores e infraestruturas para servir os seus estudantes a altura de um ensino superior digno, que moral teremos nós de cobrar aos candidatos para “competir” com os melhores do mundo?

Vamos é contar com aqueles que já foram, sabe Deus como conseguiram ir e como sobreviveram até agora, vamos contar que haja diversidade regional, provincial, geracional e inclusão de género tanto dos 600 alunos, como do Júri neste programa durante os 12 meses.

2- Mérito Académico

Que as regras sejam bem claras e que sejam anteriormente publicadas, para que os candidatos tenham conhecimento das mesmas regras. Na verdade, nesta altura, se o programa é para sair em 2020, pelo menos os docentes já deveriam estar familiarizados com os critérios para estimular o empenho dos alunos. O programa deveria estar a ser partilhado com a Nação para se impor em tempo adequado o espírito de responsabilidade.

3- Mundo

Vi também a palavra mundo e tomei a liberdade de fazer uma pesquisa básica no ranking das melhores Universidades – nada muito profundo.

Usei a página como referência http://www.webometrics.info/en/world e sem querer me aprofundar muito, no top 100, apenas uma Universidade é dum País pertence à comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa, trata-se da Universidade de são Paulo em 79o lugar.

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Só isso, reduz bastante o universo de potenciais candidatos à sorte da generosidade modesta do Conselho de Ministros. A não ser que, o programa vai contemplar algum tempo dedicado ao aprendizado de línguas para facilitar o enquadramento desses angolanos nas melhores Universidades do mundo de facto.

Mais uma vez, admito que sem o programa em questão, não tenho elementos para analisar a sua robustez e a verdadeira intenção do executivo. As 200 ou 300 melhores Universidades do mundo, quem sabe?

4- Realidade e Contas

As verbas atribuídas ao Programa, que nem o nome foi anunciado na notícia pelo Conselho de Ministros da República de Angola.

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Até ao momento só temos a certeza do valor a ser investido neste programa, mas na essência notamos a ausência de dois aspectos fundamentais: a) origem dos fundos; e b) prazo de execução.

Se a Ministra do pelouro (Ensino Superior) confirma que não é do seu orçamento, logo é preciso saber a verdadeira origem para que no futuro não nos deparemos com surpresas desagradáveis e juros azedos – é preciso se ganhar o hábito de explicar ao cidadão que escolhas os representantes da Nação fazem pela Nação, isso sim representaria uma mudança.

Por outra, se não fugirmos da realidade, vamos perceber que além da barreira da língua, existem outras realidades que precisam e que se calhar foram contempladas, mas que carecem de algum esclarecimento. Um programa de Mestrado pode perfeitamente ser compactado num período de 12 meses, como também pode ser extensivo a 18 ou mesmo 24 meses.

Contudo, fazer um programa de Doutoramento de 4 a 8 anos dependendo do domínio de formação, da instituição e do desempenho do candidato. Esta realidade levanta questões relacionadas à sustentabilidade do programa, não financeiramente assumindo que todos os pagamentos sejam executados antecipadamente, mas em termos de acompanhamento do programa em si. É verdade que o anúncio expressa que alguns candidatos a Mestres e Doutores serão aproveitados, a verdade é que com alguns imprevistos, alguns candidatos poderão iniciar apenas em 2020 e terminar a formação em 2028 – parece-me que só aí poderemos fazer um balanço final deste programa.

5- Escopo: Engenharias, Tecnologias e Saúde:envio de licenciados ao exterior: novo produto ou nova embalagem! - GRAFICO 3 - Envio de licenciados ao exterior: Novo produto ou nova embalagem!

6- Objectivo

As palavras usadas foram:

“capacitar o país de quadros formados nas melhores universidades do mundo e assim reconhecer o mérito a estudantes ou a mestres que demonstrem ter um elevado desempenho”.

Fonte: Jornal de Angola, ed. 25/01/19 pag. 4.

Sinceramente os objectivos são, se alguma coisa, vagos, sem detalhes, sinais de que ou não se analisou profundamente o assunto ou então não se está a comunicar efectivamente, estou mais inclinado em acreditar que seja a última.

Fundamentando o meu argumento fui buscar alguns dados comparativos internacionalmente para que se possa entender então qual é a posição de Angola actual e onde se quer chegar. Doutra forma, não parece que estamos a levar a sério o desafio da capacitação.

Dos várias formas de comparação menciono duas

A – Comparação aos BRICS (Brasil. Rússia, Índia, China e África do Sul).

Número de Investigadores Científicos por cada milhão de habitantes nos seguintes Países:

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Fonte: https://mg.co.za/article/2018-07-27-00-scientific-research-is-sas-future

Pergunto: Qual é o número de cientistas Angolanos por cada milhão de cidadãos?

B – Porção do Orçamento para Investigação.

A África do Sul comprometeu-se a investir de 2018 a 2020 1.5% do seu PIB para Investigação Científica. Posso ter percebido mal, com as minhas lacunas na língua inglesa, mas tenho a fonte para que alguns me ajudaram a interpretar.

Fonte: https://mg.co.za/article/2018-07-27-00-scientific-research-is-sas-future

C – Comparação a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa)

Apercebi-me recentemente que um programa Europeu, com o nome de Horizonte 2020 está a investir €11.5m para 8 investigadores Portugueses. Claro que não se compara maçãs com bananas. Mas dá para perceber a seriedade das coisas e que provavelmente esses nossos dinheiros não vão chegar para muito – se calhar deveria ser usado doutra forma. Ou eu estou a ser muito ambicioso em querer comparar Angola com Países muito desenvolvidos. Quem sabe…

Fonte: https://observador.pt/2018/07/27/horizonte-2020-atribui-mais-de-115-milhoes-a- oito-investigadores-portugueses/

No caso específico de Angola, temos apenas 3% do valor disponibilizado $1m para 600 potenciais Angolanos – ver Gráfico: 1.

7- Termo de Compromisso

A semelhança do que já se fez no passado, o termo de compromisso não é algo novo. Foi e penso que em alguns casos ainda tem sido assim com os Bolseiros do INAB, com os Bolseiros da Sonangol e outras instituições ministeriais que como o Ministério dos Petróleos tiveram os seus programas de bolsa em paralelo.

A verdade cruel é que a ineficiência e incapacidade de guiar ou enquadrar devidamente os quadros capacitados, culminou em regra com a fuga de cérebros do sector público para o privado em Angola, e de Angola para o estrangeiro – o velho e novo problema de África e particularmente de Angola que, tem que ver com a Gestão de Talentos. Ainda estou à espera do “homem certo no lugar certo”.

Alguns Angolanos com dupla nacionalidade formaram-se com fundos Angolanos, mas acabaram por servir as outras Nações de quem também são filhos. É um grande risco que voltar-se-á a correr com o actual programa, do qual não temos nenhuma prova de que os programa contempla a mitigação de riscos a este nível.

8- Beneficiários

“O programa vai beneficiar também estudantes que já estejam a frequentar uma Universidade de renome internacional em cursos de Mestrado ou Doutoramento e que não disponham de uma bolsa de estudo do Governo”.

Fonte: Jornal de Angola, ed. 25/01/19 pag. 4.

Já se gastaram alguns milhões de dólares no aluguer do avião, e mais outros milhões na obra maravilha de reconstrução da famosa sala das salas, a sala das decisões e dos “biólos” a sala do Conselho de Ministros. Seria mais racional a construção de mais um hospital militar ao invés de gastar mais milhões de dólares na construção de tal Clínica para a Presidência da República enfim adia-se o modesto investimento na educação para 2020? Fico confuso sobre as nossas prioridades – para ser mais correcto, fico ainda mais confuso quanto às “prioridades” do Conselho de Ministros da República de Angola.

Se calhar não tenho como fugir do mérito que o Conselho de Ministros, o executivo ou as pessoas mais directamente ligadas a esta proposta, pela criatividade. Até aqui, a ideia além

de boa, presumo que foi feita com boas intenções. Contudo, ainda não posso atribuir avaliação alguma a implementação, porque nem se quer começou, logo não há pontos para a inovação – que seria pôr o plano em acção e comprovar rentabilidade financeira da execução do programa.

Conclusão:
Como Pai, estou ansioso para ver o País desenvolver, ao mesmo tempo ainda nas vestes de

encarregado de educação, mantenho-me cauteloso e fiel as minhas responsabilidades.

A notícia em si, parece um exercício muito leve que nem mereceu o destaque que julgo ser digno ou necessário – pelo menos no Jornal de Angola, está quase escondida num canto ali. Entretanto, o título tem uma tendência populista, quando estamos numa fase onde é necessária uma abordagem mais esclarecedora para que não se confundam os novos tempos com os tempos antigos, onde os projectos eram empurrados e quase ninguém questionava. Agora, queremos todos ser fiscais das práticas dos nossos líderes para evitar excessos e garantir sucessos.

Primeiro Angola não está simplesmente a enviar também está a aproveitar – é preciso que este aproveitamento seja explicado. Depois, não se contempla o tempo de duração ou pelo menos o ano de início, passando a impressão que é um acto imediato.

Não é envio de licenciados, afinal entende-se no que toca aos potenciais beneficiários com programas já em curso, tratar-se-á também de um aproveitamento.

Parece mesmo que estamos só a reciclar ideias que soam bem nos ouvidos, sem detalhes e certamente velhas, mas agora com uma embalagem de alta qualidade para facilitar a saída do produto.

Como nas várias coisas que fomos fazendo ao longo dos anos, no tempo dos produtos antigos, lança-se o produto, fala-se vagamente sobre os objectivos, mas não se fala nos resultados ou critérios de avaliação dos mesmos. É a tal coisa de misturar velhos e novos hábitos, em empacotar como se fossem novos produtos.

Agora, não sei se será fácil vender o velho por novo, sem que os consumidores se apercebam que a Kissangua da lata não tem nada a ver com Kissangua das nossas Mamã.

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