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Análise

Educação ambiental na perspectiva da ONG Minuto Verde

Avaliação do impacto social de suas iniciativas comunitárias em Angola.

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Introdução

O desenvolvimento de iniciativas socioculturais voltadas a fomentar conhecimentos, habilidades, valores, atitudes e práticas responsáveis em relação aos recursos naturais e ao ambiente constitui, atualmente, uma estratégia importante para promover o bem-estar social e ambiental em nível comunitário. Em contextos marcados por desafios socioeconômicos persistentes, desigualdades territoriais e pressões ambientais crescentes, esse tipo de iniciativa adquire um caráter transformador ao contribuir para a formação de uma cidadania mais consciente, participativa e comprometida com o desenvolvimento sustentável.  

A educação ambiental e a ação comunitária consolidaram-se nas últimas décadas como pilares essenciais para impulsionar mudanças sustentáveis nos comportamentos individuais e coletivos, fortalecer a coesão social e promover uma relação mais equilibrada entre as comunidades e seu entorno. A UNESCO (2022) destaca que a educação ambiental é um dos alicerces fundamentais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), ao promover o pensamento crítico, a ação transformadora e a corresponsabilidade com o meio natural. Dessa perspectiva, os programas educativos e comunitários voltados ao meio ambiente adquirem um valor formativo, mas também estrutural, ao contribuir para a construção de uma cidadania ambiental e para a sustentabilidade do tecido social. Estudos recentes apontam que as intervenções socioambientais de base comunitária são particularmente eficazes quando combinam processos educativos sistemáticos, participação ativa dos atores locais e ações práticas voltadas à resolução de problemas concretos do território (Vanclay & Esteves 2024; OECD, 2021).  

Para países como Angola, iniciativas desse tipo ganham especial relevância devido à necessidade, a nível social e comunitário, de fortalecer a consciência ambiental, promover práticas sustentáveis e gerar capacidades locais que permitam enfrentar coletivamente os desafios relacionados à gestão dos recursos naturais, urbanização acelerada e os efeitos das mudanças climáticas. Nesse cenário, diversas organizações da sociedade civil têm desempenhado papel fundamental na dinamização de processos educativos e comunitários voltados à proteção do meio ambiente e ao desenvolvimento social.  

Entre as entidades que, nos últimos anos, tiveram impacto relevante na promoção da conscientização ambiental e na participação comunitária em Angola, destaca-se a Minuto Verde. Essa organização articula atores sociais de diversas origens (profissionais, artísticas, geracionais e sociais), com o objetivo de promover a sustentabilidade ambiental e responder a problemas específicos das comunidades em âmbito nacional, utilizando meios e recursos próprios voltados ao bem-estar coletivo.  

Enfoque e método de pesquisa   

A pesquisa teve caráter descritivo e foi fundamentada no método dialético, que possibilitou analisar o objeto de estudo em sua dinâmica com os contextos sociais, educativos e ambientais da Minuto Verde. Essa abordagem permitiu interpretar o impacto social como um fenômeno histórico, multifatorial e em constante transformação, integrando tanto os resultados imediatos das ações ambientais quanto os processos de desenvolvimento comunitário derivados da participação dos beneficiários. 

A amplitude da amostra permitiu aplicar a triangulação de fontes, contrastando as informações obtidas de diferentes perspectivas, o que contribuiu para fortalecer a validade interna do estudo, em consonância com outros autores (Morgan, 2024; Asogwa et al., 2023; Forni & Grande, 2020).  

Os resultados obtidos serviram de ponto de partida para identificar um conjunto de estratégias de melhoria voltadas a mitigar os problemas detectados e fortalecer a sustentabilidade, a expansão e a efetividade das ações da Minuto Verde. São reconhecidas as seguintes:  

  1. Avançar para um modelo de maior sistematicidade na planificação e documentação pedagógica das iniciativas Isso significa elaborar guias metodológicos e didáticos padronizados, que possam ser replicados em diferentes províncias e adaptados a diversos públicos-alvo, mantendo coerência conceitual, qualidade pedagógica e clareza comunicativa. Esses guias devem estar baseados em evidências científicas atualizadas sobre educação ambiental, metodologias ativas e aprendizagem experiencial com enfoque comunitário.  
  2. Profissionalizar e fortalecer a formação dos atores que executam as iniciativas (gestores, promotores locais, voluntários), oferecendo capacitação contínua, voltada a elevar seu nível de apropriação conceitual, sua capacidade de animação sociocomunitária e seu manejo de ferramentas de avaliação e monitoramento. O fortalecimento das capacidades do recurso humano é condição-chave para garantir que cada atividade não dependa exclusivamente da boa vontade individual, mas do domínio de lógicas pedagógicas e sociais essenciais.  
  3. Implementar sistemas de monitoramento e avaliação (M&A) mais consistentes e sistemáticos, que integrem indicadores qualitativos e quantitativos, para mensurar as mudanças em conhecimentos, atitudes, práticas e expectativas dos participantes. Esse sistema, além disso, deve contemplar mecanismos de retroalimentação das comunidades, a fim de promover melhorias contínuas e não apenas a prestação de contas à ONG ou a possíveis financiadores. A institucionalização de um M&A robusto permitirá tomar decisões baseadas em dados e evidências, bem como aprimorar os conteúdos e metodologias utilizados.  
  4. Aprofundar as parcerias institucionais com escolas, administrações municipais, universidades, centros culturais e meios de comunicação locais– Isso não só ampliará o alcance territorial e a visibilidade pública das ações, mas também favorecerá a construção de redes de corresponsabilidade social em torno da educação ambiental, aumentando a sustentabilidade a longo prazo. Se a comunidade assumir como própria a importância da ação, e as instituições locais se comprometerem com sua continuidade, o impacto se multiplica e se torna menos dependente da presença direta da Minuto Verde.  
  5. Promover a co-criação com as comunidades, incentivando que a população participe não apenas como receptora, mas como coprodutora de conteúdo, propostas, metodologias e soluções– Quando os sujeitos são protagonistas reais, aumenta a pertinência cultural, a motivação intrínseca e a apropriação coletiva das mudanças ambientais. A sustentabilidade social do impacto depende, em grande medida, dessa apropriação. Complementarmente, sugere-se incorporar conteúdos que articulem educação ambiental com oportunidades econômicas locais (reciclagem como microempreendimento, agricultura urbana, ecoturismo comunitário, etc.),  

Os resultados do presente estudo permitem afirmar que as iniciativas implementadas pela Minuto Verde geraram efeitos positivos e multidimensionais sobre o conhecimento, as atitudes e as práticas ambientais nas comunidades intervenientes em Angola. Os aumentos observados no conhecimento ambiental, na adoção de práticas cotidianas (por exemplo: separação de resíduos, economia de água, participação em campanhas de reflorestamento) e as melhorias percebidas no ambiente comunitário constituem evidências coerentes com os objetivos dos programas de educação ambiental voltados à transformação sociocultural.  

De forma coincidente com avaliações realizadas em contextos africanos, a Minuto Verde demonstrou uma influência positiva sobre o conhecimento e atitudes ambientais, padrão documentado em estudos nos quais intervenções educativas, especialmente aquelas que incorporam atividades práticas e participação comunitária, aumentam a consciência e predisposição a comportamentos pró-ambientais (Ogunjinmi et al., 2022; Teresia, 2023). Por exemplo, pesquisas sobre clubes ambientais em escolas do Quênia relataram aumentos significativos na conscientização e na adoção de medidas de gestão de resíduos e conservação, especialmente quando as atividades são contínuas e vinculadas a atores locais (Teresia, 2023). A convergência entre esses achados e os de Minuto Verde sugere que a combinação de oficinas práticas, campanhas massivas e ações em campo é uma estratégia eficaz para promover mudanças imediatas em contextos subsaarianos.  

No entanto, a comparação com estudos em Botsuana e outras avaliações regionais permite nuances nas conclusões. Pesquisas em Botsuana destacaram que a simples inclusão de educação ambiental no currículo escolar não garante a transformação de comportamentos se as metodologias permanecerem centradas na instrução expositiva e sem componentes experienciais (Kanene, 2016). Em contraste, a Minuto Verde incorporou metodologias participativas, como oficinas interativas, reflorestamentos e campanhas comunitárias, o que pode explicar por que em Angola se observou uma transição mais clara do conhecimento para a prática. Isso evidencia que a modalidade pedagógica (experiencial versus tradicional) é um fator condicionante do impacto comportamental, um achado consistente com revisões recentes que identificam o ensino ativo como preditor de melhores resultados em comportamentos pró-ambientais (Zhang et al., 2025).  

Por fim, sob uma perspectiva epistemológica e de políticas públicas, a comparação sugere que programas de ONGs bem estruturados podem complementar e potencializar esforços curriculares formais ao adotarem práticas culturais e localmente pertinentes. A literatura recente recomenda também a incorporação de saberes locais e abordagens de educação ambiental contextualizadas para melhorar a relevância e o engajamento comunitário (Zhang et al., 2025). Para a Minuto Verde, a inclusão explícita de práticas e conhecimentos locais, aliada ao monitoramento contínuo e ao escalonamento logístico, seria um caminho para consolidar e ampliar os resultados iniciais.  

Conclusões 

De modo transversal, o estudo evidenciou que a ação educativa e ambiental da Minuto Verde possui caráter multiplicador, capaz de gerar processos de sensibilização, participação e transformação tanto em indivíduos quanto em coletivos. O envolvimento de famílias, escolas, associações juvenis e empresas em iniciativas de limpeza, plantio de árvores e programas educativos demonstra que a ONG conseguiu mobilizar diversos atores sociais em torno de um propósito comum: a construção de comunidades mais sustentáveis.  

Em síntese, os resultados obtidos permitem concluir que a Minuto Verde se consolida como uma experiência bem-sucedida de educação ambiental comunitária em Angola, combinando a capacitação de seus membros, a transformação de práticas individuais e coletivas, e o fortalecimento de redes interinstitucionais. Ainda assim, os beneficiários apontaram a necessidade de ampliar a cobertura geográfica e diversificar os temas abordados, o que representa uma oportunidade estratégica para potencializar o alcance e a sustentabilidade futura das ações da organização.  

        Autores

  1. Rafael Lucas – Presidente da ONG MINUTO VERDE 
  2. Juan Sílvio Cabrera Albert – Presidente do Conselho Científico da MINUTO VERDE 
  3. Jorge Luis Mena Lorenzo – Vice-Presidente do Conselho Científico da MINUTO VERDE
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