África
“É possível manipular muitas coisas, mas a liderança de um país não deve ser uma delas” – Kabila
O antigo presidente da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, actualmente condenado à pena de morte pelo Governo que ajudou a colocar no poder, concedeu ao New York Times a sua primeira grande entrevista em oito anos. Sobre a mesa, esteve a sua visão das quase duas décadas que governou o país vizinho, bem como duras críticas à governação de Félix Tshisekedi, ao qual acusa de perseguição a opositores.
Joseph Kabila assumiu a liderança da RDC, a seguir ao assassinato de seu pai, Laurent-Désiré Kabila, em 2001, aos 29 anos. Teve como grande feito ter realizado as primeiras eleições livres daquele país em quatro décadas, em 2006. Contudo, após fazer manobras para permanecer no poder por mais dois anos além do permitido pela Constituição, o país mergulhou numa série de protestos que culminaram nas eleições de 2018, na qual Kabila terá arquitectado “um acordo secreto de partilha de poder que colocou Tshisekedi como seu sucessor, embora os dados e os observadores indicassem que o candidato da oposição, Martin Fayulu, havia vencido”, escreveu a jornalista Ruth Maclean.
Na sua propriedade, à beira do Lago Kivu, em Goma, Leste da República Democrática do Congo, fortemente protegida por membros do Movimento 23 de Março (M23), a jornalista norte-americana, realçou que Kabila “insinuou a possibilidade de manipulação da votação”.
“Nós, em nossa sábia maneira de pensar, achamos que para que a situação continuasse tão estável quanto estava, era importante que o presidente tivesse a maioria e que houvesse uma coalizão”, mencionou sobre a primeira transição pacífica de poder na República Democrática do Congo, na qual tomou posse Tshisekedi, numa eleição marcada por acusações de fraude e acordos secretos. “E esse foi o acordo que foi assinado”, contudo, sete anos depois Joseph Kabila demonstra arrependimento:
“É possível manipular muitas coisas, mas a liderança de um país não deve ser uma delas”, afirmou. “Em retrospectiva, essas são coisas que poderíamos e deveríamos ter mudado”, lamentou conforme citado pela publicação.
De costas viradas com Félix Tshisekedi, Joseph Kabila exilou-se na África do Sul e regressou à RDC após a tomada de Goma pelo M23, em 2025. Questionado pela jornalista o motivo do regresso, o antigo líder congolês afirmou estar “em casa”.
“A verdadeira questão é: por que não estou em Kinshasa?”, questionou.

Tony Karumba/Agence France-Presse — Getty Images
Para Tshisekedi, Kabila é “o líder indiscutível do M23”, conforme declarado pelo juiz militar que o condenou à pena de morte no ano passado.
Fundada em 2012, a milícia rebelde está entre os mais de 120 grupo que actuam na RDC, controlando o Leste do país, rico em minerais importantes para a indústria tecnológica. O grupo permaneceu inactivo por quase dez anos até ressurgir em 2021. De acordo com relatórios, conta com apoio do Ruanda, informação não confirmada por Kigali.
Enquanto líder da República Democrática do Congo, o Governo de Kabila combateu os rebeldes do M23, mas hoje, considera a protecção que recebe em Goma como legítima por serem eles a controlarem àquela região:
“Tentar ligar a rebelião ao Sr. Kabila é pura estupidez”, disse à jornalista norte-americana.
Outro fracasso de sua governação, conforme disse à reportagem do NYT, foi “não ter transformado os congoleses em cidadãos melhores”. Para Kabila, “você consegue líderes melhores”.
Questionado se gostaria de voltar a ser presidente da República Democrática do Congo, deu “uma reposta vaga”, segundo a reportagem.
“O que o Congo precisa são patriotas, pessoas que realmente possam colocá-lo de volta nos trilhos”, assinalou.
Foto de capa: Guerchom Ndebo for The New York Times
