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Análise

Do petróleo aos dados: Angola na geopolítica da Internet

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A Internet deixou definitivamente de ser apenas um instrumento de comunicação. No século XXI, transformou-se numa infra-estrutura crítica de poder, comparável à energia, às estradas ou ao sistema financeiro. Controlar, expandir e democratizar o acesso à Internet significa hoje controlar fluxos de informação, capital, inovação e influência política. Como afirma Manuel Castells, “o poder na sociedade contemporânea exerce-se através da capacidade de moldar redes e controlar fluxos de informação” (The Rise of the Network Society).

É neste contexto que os dados globais mais recentes sobre o uso da Internet devem ser lidos: não como estatísticas neutras, mas como indicadores de posicionamento estratégico das nações no sistema internacional.

1. O Estado do Mundo Digital em 2025: Crescimento com Fracturas

Em 2025, cerca de 74% da população mundial, o equivalente a aproximadamente seis mil milhões de pessoas, utilizava a Internet. Este valor representa um crescimento face a 2024, quando a taxa global era de 71% (5,8 mil milhões de utilizadores). À primeira vista, os números sugerem um avanço civilizacional contínuo e irreversível.

No entanto, uma leitura mais atenta revela uma contradição estrutural: mais de um quarto da população mundial continua excluída do espaço digital. Esta exclusão não é aleatória. Segue linhas claras de rendimento, geografia, desenvolvimento económico e capacidade institucional do Estado.

A clivagem é particularmente evidente quando se comparam países de diferentes níveis de renda:

Nos países de alta renda, 94% da população está conectada à Internet;

Nos países de baixa renda, apenas 23% da população tem acesso.

Este fosso digital confirma a tese de Amartya Sen, segundo a qual o desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo crescimento económico, mas pela capacidade efectiva das pessoas participarem na vida social, económica e política (Development as Freedom). Onde não há acesso digital, não há plena liberdade no mundo contemporâneo.

2. O Ranking Global dos Utilizadores de Internet: A Força da Escala Populacional

O ranking dos 20 países com maior número absoluto de utilizadores de Internet, publicado a 20 de Dezembro de 2025, com base em dados do Datareportal e análise do Visual Capitalist, revela uma realidade central: o tamanho da população pesa mais do que a taxa de penetração na definição da força digital de um país.

A classificação é a seguinte:

1. 🇨🇳 China – 1.296.394.000 utilizadores
2. 🇮🇳 Índia – 1.026.954.000
3. 🇺🇸 Estados Unidos da América – 323.888.000
4. 🇮🇩 Indonésia – 230.448.000
5. 🇧🇷 Brasil – 184.997.000
6. 🇷🇺 Federação Russa – 135.676.000
7. 🇵🇰 Paquistão – 116.839.000
8. 🇲🇽 México – 110.345.000
9. 🇳🇬 Nigéria – 108.700.000
10. 🇯🇵 Japão – 106.933.000
11. 🇪🇬 Egipto – 98.211.000
12. 🇵🇭 Filipinas – 98.025.000
13. 🇻🇳 Vietname – 85.621.000
14. 🇧🇩 Bangladesh – 82.806.000
15. 🇩🇪 Alemanha – 78.454.000
16. 🇹🇷 Turquia – 77.466.000
17. 🇮🇷 Irão – 73.751.000
18. 🇬🇧 Reino Unido – 68.090.000
19. 🇹🇭 Tailândia – 67.826.000
20. 🇫🇷 França – 63.449.000

3. China e Índia: Gigantes Digitais por Escala

A China ocupa o primeiro lugar com cerca de 1,30 mil milhões de utilizadores, representando mais de 90% da sua população total. A Índia surge logo a seguir com 1,03 mil milhões de utilizadores, mesmo com uma taxa de penetração significativamente inferior, estimada em cerca de 70%.

Em conjunto, China e Índia concentram mais de 2,3 mil milhões de utilizadores, superando, isoladamente, todos os outros países do ranking combinados. Este dado confirma a ideia defendida por Jeffrey Sachs de que a demografia, aliada a políticas públicas consistentes, cria vantagens estruturais de longo prazo (The Age of Sustainable Development).

4. A Reconfiguração do Espaço Digital Global: O Sul Global em Ascensão

Outro elemento incontornável do ranking é a crescente presença de mercados emergentes. Países como Indonésia, Brasil, Paquistão, México e Nigéria figuram entre os dez primeiros, rivalizando ou mesmo superando várias economias avançadas.

Este movimento sinaliza uma mudança gradual do centro da actividade digital global para o Sul Global, onde o crescimento populacional, a urbanização acelerada e a massificação dos dispositivos móveis estão a criar novos ecossistemas digitais. Joseph Stiglitz observa que “o poder económico do futuro dependerá menos da riqueza acumulada e mais da capacidade de integrar tecnologia, população e inovação” (People, Power and Profits).

5. África no Contexto Global: Um Continente Jovem, Pouco Conectado

Apesar do seu dinamismo demográfico, África permanece marginal na cartografia digital global:

Apenas a Nigéria surge entre os dez primeiros países;

Apenas dois países africanos figuram entre os vinte maiores utilizadores.

Este défice não resulta da falta de população, mas de limitações estruturais profundas: fraca infra-estrutura de telecomunicações, elevado custo da Internet, baixa literacia digital e insuficiência de políticas públicas robustas de inclusão digital. O resultado é um continente jovem, mas digitalmente sub-representado, comprometendo o seu potencial económico e político no século XXI.

6. Angola: Entre o Progresso Estatístico e o Risco da Exclusão Estrutural

Angola insere-se neste quadro africano com sinais contraditórios. Entre 2023 e 2025:

O número de utilizadores de Internet cresceu de cerca de 11,7 milhões para aproximadamente 17,6 milhões;

A taxa de penetração atingiu cerca de 44,8% da população.

Trata-se de um avanço relevante. Contudo, mais de metade da população angolana continua fora do mundo digital, sobretudo em zonas rurais e em comunidades de baixos rendimentos. Isto significa que milhões de cidadãos permanecem excluídos do acesso a serviços digitais essenciais, oportunidades económicas e participação cívica.

Como alertam Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, a tecnologia só gera desenvolvimento quando acompanhada de competências, instituições eficazes e políticas públicas orientadas para a inclusão (The Second Machine Age). Caso contrário, tende a aprofundar desigualdades já existentes.

7. Internet, Estado e Soberania Digital

No plano estratégico, a Internet é hoje:

Uma infra-estrutura económica essencial;

Uma plataforma de inovação;

Um instrumento de governação;

Um vector de soberania nacional.

Sem uma base digital sólida, os Estados tornam-se dependentes, as economias perdem competitividade e os cidadãos ficam marginalizados. Para Angola, isto significa que a digitalização da administração pública, da educação, da saúde, da justiça e da economia informal não é uma opção, mas uma necessidade histórica.

8. Conclusão: A Internet Como Direito, Poder e Responsabilidade

Os dados globais são inequívocos: o mundo está cada vez mais conectado, mas profundamente desigual. O ranking dos países com maior número de utilizadores de Internet demonstra que a escala populacional, quando combinada com políticas digitais consistentes, transforma-se em poder económico e influência geopolítica.

Para Angola, o desafio central não é apenas aumentar o número de utilizadores, mas converter conectividade em capacidade produtiva, inclusão social e cidadania digital efectiva.

No século XXI, ficar offline não é apenas estar desconectado — é estar fora da história.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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