Crónica
Do papamóvel à esquadra: a via-sacra do “nosso irmão” apressado
A fé move montanhas. Mas não move cordões de segurança.
O nosso irmão, movido por um fervor espiritual digno das páginas bíblicas, decidiu que não bastava ver o Papa Leão XIV passar no papamóvel. Era preciso tocar nas vestes. Afinal, se na Bíblia uma mulher tocou em Jesus e recebeu a bênção, por que razão ele não haveria de actualizar o milagre para a era do protocolo presidencial?
Esqueceu-se apenas de um pequeno detalhe técnico: entre a fé e o milagre existe o cordão de segurança. E entre o cordão e o Papa existe um batalhão treinado para interpretar qualquer corrida súbita como o início do Apocalipse.
Resultado? O nosso irmão quase conseguiu a bênção eterna… por via administrativa.
Consta que, após a tentativa de “salvação instantânea”, foi conduzido à esquadra para uma sessão intensiva de reflexão espiritual, acompanhada de métodos pedagógicos tradicionais. Uma espécie de retiro forçado, onde a oração das autoridades é feita com porrete na mão e muita convicção patriótica.
Em Angola, a pedagogia policial é profundamente prática: primeiro aplica-se a lição, depois pergunta-se qual era a intenção. E só se lembra que não se está em combate quando o “aluno” já demonstra sinais clínicos de transcendência.
O homem queria tocar nas vestes do Santo Padre. Acabou por tocar na realidade nacional.
Fica aqui o conselho fraterno: irmãos, não tentem atalhos para o céu atravessando dispositivos de segurança. A fé pode até salvar a alma, mas o porrete trata do corpo e com bastante eficiência.
Se querem bênção, levantem as mãos… mas, de preferência, antes de correr.
