Análise
Diplomacia académica e boas práticas de investigação: desafios e oportunidades
Num mundo onde o conhecimento se tornou o principal activo geoestratégico das nações, as universidades deixaram de ser apenas centros de transmissão de saber. Hoje, são actores centrais da diplomacia científica, da cooperação internacional e da afirmação dos Estados no cenário global.
O recente convite dirigido ao ISCED-HUÍLA, no âmbito do projecto franco-angolano DIGARQ-2 (Investigação e Cooperação em Arqueologia e Património), constitui um exemplo paradigmático de Diplomacia Académica em acção. A iniciativa foi apresentada por Isis Mesfin, investigadora do Muséum national d’Histoire naturelle, em Paris, e envolve igualmente a Sorbonne Université.
Importa sublinhar que, neste processo de articulação e diálogo institucional, o ISCED-HUÍLA foi representado pelo Professor Doutor Helder Pedro Alicerces Bahu, cuja participação evidencia o compromisso da instituição com a cooperação científica internacional e com o fortalecimento da investigação académica.
1. A Universidade como Actor Diplomático
Jane Knight (2004) defende que a internacionalização do ensino superior deve ser entendida como um processo estratégico que integra dimensão internacional no ensino, na investigação e na extensão universitária. Não se trata apenas de mobilidade académica, mas de posicionamento institucional.
No contexto angolano, onde as instituições públicas enfrentam desafios estruturais de financiamento, qualificação técnica e inserção em redes internacionais, a Diplomacia Académica surge como instrumento essencial de modernização e consolidação científica.
A colaboração com centros de excelência como o Muséum national d’Histoire naturelle não representa apenas intercâmbio técnico. Representa:
Transferência de conhecimento especializado;
Acesso a tecnologias avançadas, como modelação e digitalização 3D aplicada ao património;
Integração em redes científicas internacionais;
Formação avançada de docentes e estudantes.
2. DIGARQ-2: Cooperação Científica com Impacto Estruturante
O cronograma de actividades previstas para 2026 demonstra uma abordagem integrada:
Formação técnica em conservação arqueológica na África do Sul;
Workshop em tecnologias 3D em Paris;
Aula intensiva em Paleociências em Benguela;
Escola de Campo em Ebo;
Prospecção e investigação paleontológica na Humpata.
Todas as actividades são integralmente financiadas pelo projecto e pela Missão Pré-Histórica Franco-Angolana, o que revela um compromisso sólido com a cooperação efectiva.
Este modelo evidencia que a diplomacia científica contemporânea é operacional, técnica e orientada para resultados.
Joseph Nye, ao conceptualizar o Soft Power, argumenta que a ciência e a cultura são instrumentos fundamentais de influência e cooperação internacional. Quando uma instituição angolana participa activamente numa rede científica internacional, ela não apenas recebe conhecimento, ela também projecta Angola como produtora de saber.
3. Continuidade, Liderança e Boas Práticas de Investigação
Um dos aspectos mais estratégicos do convite é a solicitação para que o Reitor identifique um investigador ou docente que assegure continuidade no projecto.
Este ponto é crucial.
A investigação científica não se constrói com participações episódicas. Exige:
Liderança académica consistente;
Equipas estruturadas;
Integração entre ensino e investigação;
Produção científica conjunta;
Formação de jovens investigadores.
A representação do ISCED-HUÍLA pelo Professor Doutor Helder Pedro Alicerces Bahu simboliza precisamente essa necessidade de liderança institucional qualificada, capaz de transformar cooperação em resultados científicos sustentáveis.
4. Diplomacia Académica como Política Institucional
Se Angola pretende consolidar um sistema de ensino superior competitivo e internacionalmente relevante, a Diplomacia Académica deve deixar de ser circunstancial e passar a integrar os planos estratégicos institucionais.
O projecto DIGARQ-2 não é apenas uma parceria técnica. É uma oportunidade de:
1. Reforço da reputação científica do ISCED-HUÍLA;
2. Qualificação de quadros nacionais;
3. Valorização do património arqueológico e paleontológico angolano;
4. Inserção em redes internacionais de investigação;
5. Consolidação da soberania científica nacional.
A questão estratégica não é apenas participar.
A verdadeira questão é saber se estamos preparados para transformar cooperação académica em desenvolvimento estrutural e afirmação científica de Angola.
