Análise
Dinâmicas geoestratégicas do petróleo: implicações para os produtores africanos
A configuração geopolítica do petróleo tem vindo a assumir proporções sem precedentes no contexto internacional contemporâneo. O bloqueio do Estreito de Ormuz, no Irão — por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial —, aliado à crescente insegurança na navegação no estreito de Bab el-Mandeb, coloca em causa a estabilidade da segurança energética global.
Não obstante, África, enquanto região produtora de petróleo, ainda não tem enfrentado desafios significativos decorrentes da recente escalada dos preços no mercado internacional, encontrando-se, no presente, a beneficiar das receitas elevadas associadas a esta commodity. Todavia, o facto de o continente exportar predominantemente petróleo bruto torna-o relativamente dependente de mercados externos responsáveis pelo refino e processamento do produto.
Neste sentido, face ao actual cenário geopolítico no Médio Oriente — caracterizado pela ausência de perspectivas de cessar-fogo e pela manutenção do bloqueio no estreito de Ormuz —, coloca-se a questão de saber se África será impactada pelas externalidades do conflito ou se, pelo contrário, a existente capacidade produção e de refinação poderá mitigar tais efeitos.
Nigéria vs Angola dois pilares da segurança energética africana
A Nigéria e Angola destacam-se como os principais produtores de petróleo no continente africano. A estes países juntam-se cerca de 18 outros produtores, entre os quais se evidenciam o Gana, a República do Congo, o Gabão, a Líbia, a Argélia e o Sudão do Sul. No seu conjunto, África produz aproximadamente 10 milhões de barris de petróleo por dia, correspondendo a cerca de 10% da produção mundial.
No caso da Nigéria, a refinaria de Dangote — a maior do continente — desempenha um papel estratégico no reforço da segurança energética nacional. Com uma capacidade de produção estimada em 650.000 barris por dia, esta infraestrutura, localizada em Lagos e inaugurada em 2024, tem contribuído para a redução de falhas no abastecimento interno. A refinaria fornece cerca de 60 milhões de litros de combustíveis por dia ao mercado doméstico e exporta aproximadamente 20 milhões de litros para países da África Ocidental. Globalmente, o consumo africano situa-se em torno de 4 milhões de barris por dia.
Por sua vez, Angola, enquanto segundo maior produtor africano, assume igualmente um papel relevante. O país produz mais de um milhão de barris de petróleo bruto por dia, sendo um fornecedor estratégico para mercados asiáticos. Para além da sua capacidade produtiva, Angola tem vindo a reforçar a sua infraestrutura de refinação, destacando-se a inauguração da refinaria de Cabinda e a expansão da refinaria de Luanda, o que elevou a capacidade de refinação nacional para cerca de 130 mil barris por dia. O país exporta ainda quantidades moderadas de produtos refinados para mercados regionais, como Togo, Mauritânia, Namíbia e República Democrática do Congo.
Nigéria e Angola ambos situados na costa atlântica, beneficiam de um contexto geoestratégico estável, menos exposto às tensões do Médio Oriente. Ainda assim, outros produtores relevantes — como o Gana, a República do Congo e a Líbia — (este último apesar de constrangimentos internos), poderão desempenhar um papel complementar no reforço da segurança energética regional.
Em suma, a evolução do actual contexto geopolítico coloca desafios significativos à segurança energética global, sendo fundamental analisar a capacidade de resposta dos produtores africanos, tanto ao nível da produção como da refinação, para mitigar os potenciais impactos das disrupções nos principais corredores energéticos internacionais.
