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Sociedade

“Devemos procurar ocupar o nosso tempo com actividades que nos tiram da mesmice”

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Natural de Luanda, João Manuel Saveia Daniel Francisco, ou simplesmente João Saveia, é doutor em psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), no Brasil. Actualmente, exerce as funções de professor, pesquisador e consultor na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho.

Recentemente, lançou dois livros e relançou outros dois na sua área de actuação. Em entrevista ao Correio da Kianda, o dr. João Saveia apresentou esses trabalhos e falou ainda como a psicologia pode auxiliar no período que vivemos de combate à covid-19, bem como sobre o impacto psicológico que as medidas de biossegurança podem ter sobre os cidadãos.

Leia abaixo:

Conte um pouco da sua trajectória.

Assumi diferentes cargos em instituições públicas e privadas, especificamente: Reitor da Universidade Metodista de Angola; Vice-Reitor da Universidade Técnica de Angola; Diretor Nacional de Gestão e Formação de Quadros do então Ministério do Ensino Superior; Diretor Adjunto do Gabinete do Ministro do Urbanismo e Habitação; Chefe do Departamento de Administração do Instituto de Formação da Administração Local – IFAL.

Sou Professor da Universidade Católica de Angola e Professor Convidado dos Programas de Pós-Graduação da Universidade Gregório Semedo e da Universidade Lusíada de Angola.

Sou membro efectivo da Igreja Metodista de Angola, onde já desenvolvi várias actividades desde a infância, passando pela juventude e agora na vida adulta.

Como foi preparar um lançamento online de quatro livros? Acredita ser a melhor opção para os escritores em tempo de covid-19?

Na verdade, foi o lançamento de dois, especificamente: “Qualidade de vida e bem-estar no pós-carreira: contribuições dos programas de preparação para a reforma”, e “Olimpíadas científicas: a experiência da olimpíada caça talentos Angola 40 anos”.

Os outros dois, “Psicologia organizacional e do trabalho: leituras em saúde mental, qualidade de vida e cultura nas organizações” e “Psicologia: formação e exercício profissional em Angola”, foram relançados, depois de estarem há algum tempo esgotados nas bancas.

Assim como em um lançamento de livro em formato presencial, o lançamento online também gera ansiedade, agravado pelo facto de ser a primeira vez nessa modalidade. O que mais me preocupava era a Internet, que nos últimos dias tem estado a falhar muito. Mas graças a Deus correu tudo muito bem.

Acredito ser esta uma boa opção, não apenas em tempos de covid-19. Foi uma experiência muito boa que, sem dúvidas, poderá ser referência para os próximos lançamentos de livros. É mais abrangente, tivemos assistência em vários países, está no Facebook e as visualizações e partilhas continuam. Creio não ser mais uma “simples alternativa”, mas sim uma opção tão boa quanto a presencial, e com algumas vantagens.

Dr. João Saveia apresenta um de seus trabalhos

Acredita que esse período de quarentena pode impactar negativamente no psicológico dos cidadãos angolanos?

Diante da situação de pandemia, algumas reacções emocionais são esperadas. Entre as respostas emocionais a esta situação inusitada, destacamos: medo, estresse, frustração, culpa, raiva, exaustão, ansiedade, desamparo, desesperança, tristeza, negação, irritabilidade, fadiga, insónia e até mesmo alteração do apetite, uso abusivo do álcool e de outras drogas. Além disso, como as pessoas estão a conviver mais em família, o que poucas vezes acontece, em muitos lares têm surgido conflitos de relacionamento, sendo graves em alguns casos.

O que recomenda as pessoas fazerem nesse período para amenizar tais impactos?

Creio não existirem receitas únicas para todos. As realidades são distintas e o que pode ser feito perpassa por várias áreas de conhecimento como da própria Psicologia, mas também da Medicina, da Sociologia, da Nutrição, etc. O que podemos dizer é que tudo isso são reacções esperadas em situações como as que estamos a viver, mas temos de superar, se necessário, buscando ajuda profissional. O suporte familiar é muito importante assim como a prática de exercícios físicos e mentais. Devemos procurar ocupar o nosso tempo com actividades prazerosas que nos tiram da “mesmice”.

Para as organizações, recomendamos a implementação de serviços de Suporte Psicossocial aos seus trabalhadores com o objectivo de prevenir adoecimentos mentais. Atendendo à situação de distanciamento social, este serviço pode ser prestado online ou por telefone. As organizações não devem eximir-se das suas responsabilidades de preservação da saúde mental dos seus trabalhadores, numa fase em que mais precisam de um apoio.

Como enxerga o ramo da psicologia em Angola, tanto na área académica como na área clínica?

A psicologia tem várias áreas de actuação. A docência e a clínica são apenas duas delas. Temos as áreas da saúde, organizacional e do trabalho, criminal, escolar, desportiva, social, etc. Em termos de formação, estamos entre as áreas mais ministradas no país, sendo um curso ofertado por muitas instituições de ensino superior. Porém, como todas as outras áreas de formação, ainda não existem normas gerais curriculares e as competências que devem ser passadas não estão claramente definidas.

No exercício profissional, ainda nos deparamos com alguns problemas no que diz respeito à regulamentação da profissão, o que enfraquece a actuação dos profissionais, ao mesmo tempo que abre espaço para que o seu exercício, em muitos casos, seja feito de forma pouco profissional, com práticas sem validade científica. Por outro lado, tempos profissionais que não são formados em Psicologia a utilizarem técnicas próprias da Psicologia, o que é grave.

Pensa que a sociedade angolana, de uma forma geral, valoriza e reconhece a importância da psicologia?

A situação de pandemia, de certa forma, está a mostrar a importância do psicólogo para a sociedade, ainda que seja, principalmente, a dos psicólogos mais voltados à área da saúde, social e comunitária. Há muito trabalho pela frente. Por exemplo, no livro Olimpíadas científicas, apresentamos o tema da importância do psicólogo na Escola, que é exigido em outras realidades, mas que aqui, infelizmente, os decisores políticos, parecem ignorar a importância deste profissional.

De que forma a psicologia pode servir para melhoria do ambiente laboral?

A Psicologia e mais especificamente a Psicologia Organizacional e do Trabalho, tem a missão de investigar, analisar e compreender o comportamento humano no trabalho e nas organizações para a partir daí traçar estratégias e procedimentos que possam promover, preservar e restabelecer a qualidade de vida e o bem-estar dos trabalhadores, assim como o aumento da produtividade das organizações.

Um de seus livros, o “Olimpíadas Científicas: a experiência da olimpíada caça talentos Angola 40 anos”, fala sobre as competições académicas para os estudantes. Acredita que deveria haver um maior investimento nessa área?

Sem dúvida, mas desde que, realizadas de forma séria, sem aproveitamentos políticos, com objectivos claros e realizadas de forma regular, de tal sorte que sirvam de instrumento de motivação dos estudantes e meio de diagnóstico dos vários subsistemas de ensino. Ao lerem este livro, certamente perceberão a importância de uma olimpíada científica.

Fale um pouco mais sobre os benefícios deste livro.

O livro “Olimpíadas científicas”, apresenta este tipo de concurso como tendo o objectivo de incentivar o estudo e encontrar talentos nas diversas áreas do conhecimento. Elas são uma oportunidade para diagnosticar o ensino e a aprendizagem das diversas disciplinas no país, podendo, inclusive, gerar material que pode ser utilizado em pesquisas académicas. Este livro é o exemplo de possíveis direccionamentos de uma olimpíada científica. Resulta da Olimpíada Caça Talentos Angola 40 anos. A riqueza do material apresentado no livro fornece sem dúvida uma grande quantidade de informações que podem ajudar a promover profundas reflexões e um diagnóstico do nosso sistema de ensino.

De que forma o seu livro “Qualidade de vida e bem-estar no pós-carreira” pode auxiliar os leitores?

O livro “Qualidade de vida e bem-estar no pós-carreira” é o resultado de nove anos de experiência no desenvolvimento de Programas de Preparação para a Reforma (PPR) em organizações angolanas e procura dar resposta às seguintes preocupações: como podemos ajudar as pessoas a permanecerem independentes e autónomas à medida que envelhecem? Como a qualidade de vida e o bem-estar na velhice podem ser melhorados? Como podemos preparar as pessoas para a reforma? Além destas questões o livro aborda outras preocupações relacionadas com o pós-carreira, ao mesmo tempo que busca promover uma reflexão sobre a necessidade de olharmos para os reformados como recursos importantes para a estrutura e o desenvolvimento da nossa sociedade. As pessoas mais velhas que se reformam podem continuar a contribuir activamente para o país, para as suas comunidades e para as suas famílias. Neste sentido, deve ser preocupação de todos nós promover o envelhecimento saudável, para que as pessoas na reforma sejam um recurso cada vez mais valioso.

E os outros dois livros?

O livro “Psicologia: formação e exercício profissional em Angola”, assim como os outros, é um trabalho de pesquisa transformado em livro. Fornece a mais ampla descrição já feita sobre o exercício profissional da Psicologia em Angola, o que destaca o seu carácter pioneiro e marca o ponto de partida para os aprofundamentos a serem feitos em trabalhos posteriores. O livro cobre uma extensa gama de questões que cercam a formação e o exercício profissional do psicólogo em Angola. São questões que transitam por vários níveis e que trazem reflexões muito ricas para todos aqueles que estão preocupados com o fortalecimento da Psicologia, pela relevância que os seus serviços possuem para a sociedade. A amplitude do estudo, o rigor metodológico em todas as suas etapas, a riqueza das análises e reflexões tornam o livro um importante marco na própria construção da Psicologia como profissão em Angola.

Já a obra “Psicologia Organizacional e do Trabalho” passeia por uma série de temas relacionados ao desenvolvimento do conhecimento na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho. São apresentados elementos pertinentes sobre este campo de conhecimento, como a saúde mental & trabalho e qualidade de vida no trabalho. Promove-se uma reflexão sobre o profissional que assume o desafio de lidar com os problemas humanos relacionados com o mundo do trabalho e das organizações, assim como são apresentadas algumas das principais mudanças que estão a ocorrer no mundo do trabalho, traçando, desta forma, uma visão panorâmica do ambiente de actuação do psicólogo organizacional e do trabalho, com destaque para a cultura nas organizações. Parte-se do pressuposto de que a compreensão dos traços culturais e da realidade actual de Angola é de suma importância para se poder compreender o comportamento dos indivíduos nas organizações. Isso torna a obra relevante e referência para os cursos de Psicologia, Sociologia e Gestão.

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