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Análise

De que forma os contadores de histórias africanos estão a reposicionar o continente nos ecrãs

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Por: Marcus Valdez – Director-Geral da MultiChoice Angola

Durante décadas, África existiu no entretenimento mundial principalmente como um lugar interpretado por outros. A sua complexidade foi reduzida a estereótipos. As suas histórias, filtradas por lentes externas e as suas línguas, humor, política e contradições, muitas vezes tratadas como demasiado específicas, demasiado locais ou demasiado desconhecidas para serem exploradas.

Esta lógica ultrapassada está a começar a ruir à medida que uma nova geração de contadores de histórias africanos deixou de exigir apenas visibilidade; está a redefinir os próprios termos da influência cultural. Áfrca já não é apenas um público emergente, é também uma potência narrativa emergente

E poucas empresas estão a apostar neste futuro com tanta agressividade como o Canal+.

No meu percurso na MultiChoice, testemunhei o investimento na construção de um dos ecossistemas de conteúdo local mais formidáveis do continente, encomendando e produzindo histórias que reflectem as realidades, ambições e tensões do público africano. Através de marcas como Mzansi Magic, Africa Magic e Kwenda Magic, cultivámos o apetite do público por histórias contadas em línguas locais, baseadas em referências culturais familiares e conduzidas por talentos africanos.

Após a aquisição da MultiChoice, o Canal+ deixou claro que a sua estratégia de crescimento em África vai para além da escala de distribuição e da economia de subscrições. O grupo tem consistentemente posicionado o conteúdo africano como central na sua estratégia de crescimento e diferenciação a longo prazo, utilizando a combinação da capacidade de produção local da MultiChoice com o financiamento internacional e as capacidades de distribuição do StudioCanal para levar as histórias africanas para além do continente.

E traz é uma ambição mais vasta: expandir estas histórias internacionalmente com o StudioCanal a tornar-se estrategicamente relevante.

O recente anúncio da empresa sobre The Road Home – uma produção sul-africana centrada na criação de Graceland e nas tensões culturais e políticas que a rodeiam – oferece um sinal útil de intenções. A produção, orçada em cerca de 300 milhões de rands, será filmada na Cidade do Cabo, empregará centenas de membros da equipa local e milhares de figurantes, e posiciona-se explicitamente como uma história distintamente sul-africana com ressonância internacional.

Não se trata de uma produção mundial genérica que utiliza África meramente como pano de fundo ou locação para filmagem. É uma história inseparável da história, da música, da política e da identidade sul-africanas, financiada e elevada com ambição mundial.

É um facto que uma das principais tensões no conteúdo africano tem sido a falsa dicotomia entre autenticidade e exportabilidade: a suposição de que, para viajar mundialmente, as histórias africanas necessitam de se tornar menos africanas. Contudo, as recentes tendências de consumo mundial sugerem o contrário. O público que abraçou séries internacionais de regiões como a Coreia do Sul, Espanha e outras partes do mundo não o fez porque estas histórias eram culturalmente neutras. Tiveram sucesso porque a especificidade se tornou um ponto forte.

O conteúdo africano está cada vez mais posicionado para beneficiar desta mesma mudança. Tal é já visível em títulos como Shaka iLembe, Spinners e outros dramas produzidos localmente que demonstraram uma forte aceitação do público e um crescente potencial de exportação. Os executivos do Canal+ declararam abertamente a sua ambição de utilizar as redes internacionais do StudioCanal para impulsionar a televisão e o cinema produzidos em África para novos mercados mundiais.

As implicações vão para além do entretenimento, uma vez que a cultura continua a ser um dos mecanismos mais poderosos através dos quais as regiões moldam a percepção, a influência e o soft power. Hollywood não exportou apenas filmes; exportou estruturas para a compreensão dos Estados Unidos. O boom de conteúdos da Coreia do Sul não gerou apenas sucessos de bilheteira; recalibrou a curiosidade mundial em torno da língua, da estética, da moda e da cozinha coreanas.

Apesar de a economia criativa africana possuir os ingredientes essenciais para uma influência semelhante, o que muitas vezes falta é capital, infraestruturas e uma arquitetura de distribuição mundial. É aqui que a combinação Canal+/MultiChoice se torna estratégica.

Enquanto executa uma estratégia de reestruturação em todas as operações da MultiChoice, o Canal+ mantém o seu compromisso com o investimento em conteúdos premium no continente, num contexto em que a maior parte das empresas se tornam mais avessas ao risco.

Neste Mês de África, em que frequentemente somos convidados a reflectir sobre a identidade, o património e as possibilidades partilhadas, deixo-vos com uma questão mais incisiva: no contexto da televisão e do cinema, quem tem o poder de moldar a forma como África é imaginada, tanto por si própria como pelo mundo?

Cada vez mais, a resposta vira-se para os criadores africanos que contam histórias com convicção suficiente para se repercutirem primeiro nos seus países de origem e depois no estrangeiro. Os contadores de histórias africanos constroem cada vez mais histórias com a confiança de que o seu conteúdo, não está simplesmente a expandir a representatividade, mas a ajudar a redefinir o que significa contar histórias africanas à escala mundial.

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