Análise
Cuba no fio do petróleo: quando a ideologia já não paga as contas
A declaração de Donald Trump de que “Cuba está pronta para cair” porque dependia do petróleo venezuelano não é apenas provocação retórica. É uma leitura crua e em grande parte correcta da fragilidade estrutural da economia cubana. Durante décadas, Havana sobreviveu menos por eficiência económica e mais por alianças políticas estratégicas. Primeiro a União Soviética, depois a Venezuela chavista. Quando o benfeitor cai, o modelo entra em curto-circuito.
A dependência do petróleo venezuelano foi o oxigénio silencioso do regime cubano no século XXI. Energia subsidiada, acordos de troca por serviços médicos e apoio político mútuo criaram uma ilusão de estabilidade. Mas ilusões não resistem à matemática básica da geopolítica: Estados falidos não sustentam outros Estados falidos por muito tempo. Com a Venezuela mergulhada numa crise profunda, o efeito dominó tornou-se inevitável.
Trump, fiel ao seu estilo directo e pouco diplomático, diz em voz alta o que muitos analistas dizem em tom baixo: Cuba está economicamente exausta. A escassez crónica, os apagões, a emigração em massa e os protestos esporádicos mostram um país que sobrevive por inércia histórica, não por vitalidade económica. O regime mantém-se mais pela ausência de alternativa organizada do que por adesão popular genuína.
O ponto mais desconfortável para Havana é que o discurso revolucionário já não convence uma população jovem que vive conectada ao mundo real, mesmo com internet limitada. A narrativa do “bloqueio” continua a ter peso simbólico, mas perdeu eficácia explicativa total. O problema cubano não é apenas externo; é um modelo económico rígido, incapaz de gerar riqueza, inovação ou esperança material mínima.
Ao afirmar que Cuba “não sabe como vai aguentar”, Trump lança também uma mensagem estratégica à região: o eixo Caracas–Havana está a esgotar-se. Sem petróleo barato, sem divisas e sem padrinhos fortes, o regime cubano enfrenta uma escolha histórica que vem adiando há décadas: reformar-se seriamente ou definhar lentamente. A China observa com pragmatismo, a Rússia com nostalgia estratégica, mas nenhuma delas parece disposta a bancar Cuba como Moscovo fez no passado.
O colapso iminente não significa necessariamente a queda imediata do regime. Sistemas autoritários podem sobreviver muito tempo em estado de falência controlada. Mas significa perda de margem, de influência e de capacidade de exportar ideologia. Cuba já não é o farol revolucionário; é um caso de estudo sobre os limites da política sem economia.
No fim, Trump não está preocupado com o bem-estar cubano. Ele aponta a fraqueza porque sabe que fraqueza altera comportamentos. A pergunta que fica não é se Cuba vai cair amanhã, mas quanto tempo consegue continuar de pé sem mudar as bases do seu próprio sistema. Na política internacional, regimes que vivem de subsídios externos acabam sempre reféns deles. E quando o petróleo seca, a retórica não alimenta ninguém.