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Análise

Cuba: entre a resiliência revolucionária e o imperativo da adaptação sistémica

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A actual conjuntura política e económica de Cuba reacendeu um debate recorrente na análise das Relações Internacionais: terá fracassado a Revolução Cubana? A recente admissão, por parte do governo liderado por Miguel Díaz-Canel, da existência de canais de negociação com os Estados Unidos ocorre num momento particularmente sensível, marcado por uma profunda crise energética, deterioração das condições socioeconómicas e sinais crescentes de contestação social.

Desde 1959, quando Fidel Castro liderou a derrubada do regime de Fulgêncio Batista, o projecto revolucionário cubano estruturou-se em torno de três vectores estratégicos fundamentais: a afirmação da soberania nacional face à influência norte-americana, a consolidação de um modelo político de matriz socialista e a construção de um sistema económico fortemente centralizado sob direcção estatal. Durante a Guerra Fria, a sustentabilidade desse modelo foi amplamente garantida pelo apoio político, militar e económico da União Soviética. Posteriormente, já no século XXI, essa função de suporte estratégico foi parcialmente assumida pela Venezuela, através de mecanismos de cooperação energética e financeira.

Todavia, as transformações estruturais do sistema internacional, associadas ao colapso do bloco soviético, à crise prolongada da economia venezuelana e à persistência do regime de sanções imposto por Washington, alteraram profundamente o quadro de constrangimentos externos enfrentado por Havana. Neste contexto, a eventual abertura de canais diplomáticos com os Estados Unidos não deve ser interpretada, de forma simplista, como uma capitulação ideológica do regime revolucionário.

Pelo contrário, à luz da teoria das Relações Internacionais, particularmente das abordagens realistas e institucionalistas, tal movimento pode ser compreendido como uma estratégia pragmática de adaptação sistémica destinada a preservar a estabilidade interna e a sobrevivência do regime político.

A questão central não reside, portanto, em determinar se a revolução fracassou ou triunfou. O verdadeiro dilema estratégico consiste em avaliar se o modelo político-económico cubano possui capacidade de reformulação gradual num contexto internacional caracterizado por elevados níveis de interdependência económica, transformação das cadeias globais de valor e a crescente pressão social interna.

A experiência comparada demonstra que os regimes de orientação socialista, como os de China e Vietname, conseguiram assegurar a continuidade do poder político através da introdução controlada de reformas económicas do mercado. Para Cuba, um percurso semelhante poderá constituir uma via de equilíbrio entre a preservação do sistema político e a adaptação às exigências do ambiente internacional contemporâneo.

Assim, mais do que o eventual fracasso da Revolução Cubana, o momento actual deve ser interpretado como uma fase crítica de reconfiguração estratégica. A sobrevivência do projecto revolucionário dependerá, em larga medida, da sua capacidade de evoluir institucionalmente sem comprometer os fundamentos da soberania política que historicamente procurou afirmar.

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