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Crónica de uma morte na esquadra policial do Cassequel

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Por: José Luís Mendonça

Zacarias Mussambo, guarda da União dos Escritores Angolanos (UEA), morreu numa fatídica sexta-feira, dia 13 de Abril, numa cela da esquadra da polícia do Cassequel. A autópsia ao corpo de Zacarias, feita por médico cubano no Hospital Maria Pia, revelou morte por traumatismo craniano com objectos contundentes e choques eléctricos. Quando a família viu o corpo dele na morgue, no dia 16 de Abril, estava brutalmente desfeito. Para além da cabeça, o corpo apresentava costelas fracturadas, um braço e uma pena partidos e marcas visíveis de algemas nos pulsos.

O comandante da esquadra do Cassequel, Francisco Pululu, foi quem levou pessoalmente, por volta das 15 horas, o guarda Zacarias, no dia 11 de Abril, data em que o decujus estava de serviço na UEA. Nesse dia decorria na UEA um encontro da AJPD (Associação Justiça, Paz e Democracia). A acção do comandante Pululu resultara de uma chamada telefónica que a Dona Lúcia, presidente da AJPD, uma mulher que diz lutar pela justiça e recorre a métodos feudais, lhe fizera, em virtude ter-se deparado com a sua viatura, Toyota Fortuner de cor castanha, com um vidro de trás desfeito e o furto da placa electrónica do motor.

O comandante Pululu levou Zacarias para a esquadra “para prestar declarações”. Zacarias, morador em Viana, no bairro Boa Fé, fez boa fé nas palavras da autoridade e foi. Não devia. Cometeu o maior erra da sua vida. O meu irmão, Zacarias Falso Mussango, de 36 anos, pai de 6 filhos e marido de Helena Paulo Caculo, nunca mas regressou à convivência dos colegas da UEA, dos quais eu faço parte.

No Sábado, dia 14, quando a esposa levou a comida do marido detido na esquadra, mandaram esta aguardar das 9 às 12 horas. Nesse dia, a Dona Helena já não ouviu, a voz do Zacarias a ser chamado pela polícia, para receber a comida. Domingo, dia 15, a Dona Helena ficou à espera das 8 às 13 horas, com o farnel da comida na mão, porque a polícia aja não recebeu a refeição. Às 14 horas, mandaram entrar Dona Helena e o comandante perguntou se Zacarias sofria de algum problema, do género paludismo, e informou: “O teu marido teve uma crise, foi levado ao hospital e acabou por morrer.”

O meu irmão Zacarias foi sepultado dia 21 de Abril. Não lhe dei o último adeus. Estava fora do país. Soube que o porta-voz da polícia, Mateus Rodrigues, anunciou que Zacarias teve uma briga dentro da cela com outros detidos que o espancaram até à morte. Porque é que o comandante Pululu disse à esposa no dia 15, que Zacarias tinha ido de urgência ao hospital e falecera? Diga-me uma coisa, ó Sr. Rodrigues, então um homem a quem se quebra a cabeça, parte um braço, uma perna e algumas costelas não grita de dor? Onde estava a polícia da esquadra quando o Zacarias foi brutalmente assassinado na cela?

Este acontecimento, num país civilizado, dava a auto-demissão do ministro do Interior. Num país civilizado, a UEA já devia ter convocado a Assembleia-geral para informar os seus membros e tomar medidas para pedir justiça. E, da mesma forma que o Estado angolano lutou veemente pela justiça para um cidadão nosso acusado em Portugal, o Estado deve lutar veemente para que a morte do Zacarias não fique absolvida pelo comunicado do Sr. Mateus Rodrigues, porta-voz da Polícia Nacional.
Estou de luto. O meu irmão Zacarias morreu. Só entrarei na sede da UEA, de onde Zacarias foi detido a 11 de Abril e não mais voltou, doravante só lá entrarei para participar na Assembleia-geral que vai pedir justiça. Justiça célere. A vida de Zacarias tem muito valor para mim. Apesar de Zacarias não ser dirigente do nosso país. Tenho uma lágrima no canto do olho. Lágrima de escritor.

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