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Sociedade

Continua dramática a carência de transportes públicos em Luanda

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Uma ronda feita pelo Correio da Kianda na semana finda, apurou que a mobilidade, em Luanda, continua dramática, principalmente no período matinal, para quem vive nas periferias e pretende chegar ao centro da cidade.

Todas os dias é visível, nas principais ruas da capital, enchentes de pessoas ávidas em conseguir um lugar num táxi e cedo chegar aos seus destinos. Na última segunda-feira, o jovem Conceição Ramos, residente no município do Cazenga, disse ter ficado mais de uma hora na paragem de táxis, na quarta Avenida, junto à Administração daquele município, para ir ao Hospital do Sanatório fazer controlo de uma doença a que esteve acometido em tempos.

“Meu irmão, eu sei que também não vou morrer agora. O táxi aqui está mal, muito difícil. Vou lá outro dia remarcar a consulta. Daqui para o Sanatório, que pagávamos apenas 150 kwanzas, agora até mesmo de 200 kwanzas está difícil porque os taxistas só estão a fazer vias curtas”, lamenta, enquanto caminha decidido a regressar à casa.

Simão André vive no município de Cacuaco, e na última quarta-feira, 23, disse que para chegar ao Talatona precisou apanhar mais de cinco táxis. “O primeiro tirou-me do bairro Boa Esperança até à Vila de Cacuaco, onde apanhei o segundo que chamou Ponte do KM 25 à 300 kwanzas, e que depois avançou até ao desvio do Zango”, onde apanhou outro com destino à zona adjacente ao Estádio 11 de Novembro.

Segundo o jovem electricista, para conseguir o táxi e seguir viagem, ficou mais de uma hora na paragem situada junto do estádio 11 de Novembro, na Avenida Fidel Castro. “A paragem estava muito cheia e mesmo para conseguir um táxi da entrada do Patriota foi preciso muita luta”, lamentou, acrescentando que só naquele dia gastou 3.000 kwanzas em táxis, até regressar a casa.

Linhas curtas

Quem vive esta realidade todos os dias é a senhora Branca da Costa, que reside no bairro da Mutamba 2, na Zona da Via Expressa. Para chegar ao seu local de trabalho, no Benfica, apanha quatro táxis, “tudo porque desde que veio a covid-19 os taxistas deixaram de chamar Benfica directo. Só fazem vias curtas”, denuncia.

Já na avenida Deolinda Rodrigues, município de Viana, nas primeiras horas do dia, na última terça-feira as paragens de táxis estavam igualmente apinhadas de passageiros. Às 06h10 a fila para apanhar autocarro, no Capalanga, atingia cerca de um quilómetro de distância.

José Nsimba tinha acabado de descer de uma viatura Toyola Land Cruiser e corria para ocupar o seu lugar na fila, quando o interpelamos. Disse viver na Centralidade do KM 44 e para chegar cedo ao seu local de serviço na zona do Morro Bento, logo a saída da centralidade apanha qualquer viatura com destino a Vila de Viana, e desce no término dos autocarros do Capalanga, que o deixa no Largo 1º de Maio, onde apanha outro até ao Morro Bento. “As vezes caminho do 1º de Maio até ao aeroporto e lá apanho o autocarro da Vila da Gamek e quando está um pouco tarde apanho mesmo táxi, só que nem sempre porque os taxistas dificilmente chamam Gamek ou Futungo como no passado, só estão a fazer vias curtas. Chama Rocham padaria e depois chamam Gamek”, um percurso que segundo fez saber, leva-lhe a gastar cerca de 1.000 kwanzas/dia.

Questionado sobre o valor que gasta num só dia, quando faz o mesmo trajecto, utilizando os táxis colectivos, Nsimba responde que “nem quero imaginar, senhor jornalista. Depois, com essas vias curtas que os taxistas estão a fazer? Ida e volta?… O meu próprio salário completo nem iria chegar”, vaticinou.

Segundo os nossos entrevistados, o Estado devia ser mais contundente na fiscalização, principalmente no que as actividades dos taxistas diz respeito. “Da forma como os taxistas estão a trabalhar, a encurtar as rotas e a alterar o preço mostra que o Governo perdeu controlo ou então é conivente por este sofrimento que nos estão a fazer passar”, disse outro jovem, na paragem dos Congolenses.

O jovem que trabalha como assistente de vendas numa loja, no bairro dos Combatentes e reside na zona do Quintalão ao Golf 2, disse que na semana anterior chegou a paragem “horas iguais” (16h) e os taxistas só estavam a chamar como destino das suas rotas a zona da Shoprite. “Fui avisar o polícia que estava aqui a patrulhar, porque aquilo era crime de encurtação de rota, e o polícia respondeu que não é trabalho dele controlar taxista. Quem tem essa missão é a polícia económica”, relembra, ainda admirado.

O mesmo prevê que o problema venha piorar com possível reinício das aulas a 05 de Outubro próximo “Nem sei como vamos fazer, quando os estudantes voltarem a estudar e, depois já estamos na época chuvosa, e sabemos que quando chove os taxistas fazem muita mania”.