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Conheça o autor do livro “Mandume – O Rei de Oukwanyama”

Manuel Camalata

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Nesta quinta-feira, 01 de Abril, é lançado, em Luanda, o livro “Mandume – O Rei do Oukwanyama”, um romance histórico a volta da vida e obra de uma figura emblemática do passado e presente dos angolanos e da África. Em entrevista ao Correio da Kianda, Cigano Satyohamba explica os desafios que teve de enfrentar e aventuras que viveu, para que pudesse escrever este, o primeiro livro sobre a vida e obra do rei que aos 24 anos preferiu morrer à ver o colonizador português dominar a sua terra.

Quem é Cigano Satyohamba?

Eu sou Arsênio Orlando Satyohamba, natural do Cunene, nascido em 1988. Mas como muita gente, se alguém ver o meu documento e relacionar com a história, poderá perguntar-se como é que em 1988 nasceste no Cunene, se nesta época estava desabitado, por causa da ocupação do regime do apartheid? Na verdade, eu nasci na Huíla, mas sou registado como natural do Cunene, porque a Huila cedeu um território para o povo do Cunene, onde tinha a administração. Tinha lá o governo do Cunene. Eu nasci praticamente na condição de deslocado, por isso é que eu não me identifico como natural da Huila, por causa das condições que me fizeram lá estar e nascer lá na castanheira. Sou filho de Elias Satyohamba e da dona Felicidade Satyohamba, e venho de uma familía extensa. Sou descendente da linhagem da corte do Rei Kwanyama.

Como é que surge a ideia de escrever o livro com o título: Mandume – Rei de Oukwanyama?

A ideia de escrever o livro com o título Rei Mandume começou quando eu estava na universidade em Londres, em 2009. Tenho alguém muito especial, um amigo que já era doutorado nesta época – o professor Didalelwa, o falecido Governador do Cunene. Eu encontrei um amigo angolano, que conhecia duas britânicas bisnetas de um explorador que já esteve no Cunene, e tinha fotografias de um Cunene e de um povo Kwanyama muito diferente, que usava até trajo diferente do que se usa hoje. Então, com o interesse dessas duas jovens em querer saber que as suas avós estiveram e viveram no Cunene, elas tinham alguns registos, então eu apresento-as ao governador para elas fazerem uma excursão ao Cunene e participo da excursão. Neste processo todo notei que eu era culturalmente analfabeto, porque o Europeu, as inglesas, sabiam mais da minha cultura que eu. E sabiam mais dos reis, – principalmente do Mandume, – do que eu. E eu que sou alguém que venho, sou membro da corte, sou descendente da Corte do Kwanyama, senti-me um pouco ignorante e sabia que só sei coisas impíricas sobre a minha história. Mas depois notei que era muito típico de nós angolanos. Quando falávamos de Rainha Ginga, nem a data de nascimento sabíamos. Só sabíamos de coisas horríveis, do tipo Ginga tinha maridos e os matava. Mandume enforcava as pessoas. Quer dizer, criaram-se esteriótipos grandiosos, mas que nós também não entendíamos.

Saiu de Londres pela digressão ou nesta altura já estava aqui em Angola?

Saí de Londres para visitar, mas voltei a me apaixonar pela minha cultura vendo os outros a olharem para a minha história e a minha cultura com admiração.

Quer dizer, que trouxe a equipa de Londres para aqui…

Exacto. E com eles eu aprendi que temos uma grande riqueza, que é a nossa história. Lhes fez viajar, gastar recursos para vir aqui saber, e eu estou aqui e tenho acesso. Então comecei a pesquisar até que decidi escrever sobre a história do Rei Mandume, também tentei ler para aprender e vi que não havia informação concreta. O primeiro livro escrito sobre a historia do Mandume, desde o nascimento até a morte, é este que eu lancei. Encontrei trechos dele em relatórios militares do General Adefa, no Livro Ndjiva, nação Ovambo. O único livro que fala um pouco mais é um boleto do actual Rei do Okwanyama, o Sanojoma, Presidente da Namíbia também tem um discurso dele no seu livro. Os mais velhos sempre tiveram a história, mas nunca se levou muito a consideração.

Porque um livro literário e não um livro científico, com toda a informação que conseguiu recolher?

Quando eu dei conta disso, decidi escrever sobre Mandume. Mas eu venho da base, eu estudei literatura inglesa, como disciplina. E lá são mais obras literárias para contar a história. Ficção, mas com factos reais. Eu me apaixonei muito com o que foi feito com o Xaka Zulu. A história de Xaka Zulu, mas eles conseguiram nos fazer entender. Percebi que há muitos livros sobre histórias que dificultam a percepção dos jovens. E mesmo a informação que tinha sobre o Rei Mandume era um pouco difícil de entender. Então eu decidi criar esse sistema de escrita que é o romance histórico que é um género literário. Primeiro, antes de começar a escrever eu tentei sobre a história da ocupação do Huambo, a minha primeira obra a ser publicada que é Tukuba Matukala, e teve um sucesso estrondoso. As pessoas conseguiram perceber, conseguiram entender o que é que é. Então vi que decidi adoptar esse modelo para fazer as pessoas compreenderem, porque aquilo não é ficção como tal. Então, achei que eu como jovem, se ler um livro desse género vou conseguir interpretar e entender melhor sobre Mandume. Facilita também a exortação da nossa história… só para lhe dar um exemplo, no Brasil para ingressar à Universidade no curso de Literatura há um livro de leitura obrigatória que é Maiombe, do nosso grande escritor Pepetela. Ele conta vivência dele na luta de libertação e ele contou nesse género.

O género literário, com a nossa história pode até abrir portas para pessoas que querem fazer filmes. Facilita a exportar a nossa história.

Que Rei Mandume o leitor encontra ao abrir o livro?

O leitor ao abrir este livro encontra um jovem resiliente. Primeira coisa que o leitor vai descobrir é que Rei Mandume era jovem, entrou para a governação com 16 anos, quando ficou príncipe, administrador de Okalukalunga, um território cheio de corrupção, e ele conseguiu endireitar. O seu primo, que era Rei gostou e deu a ele uma área grande que é hoje o município e Namacunde, que naltura era Oieke. Administrou Oieke até aos 18 anos, quando o primo morre, ele concorreu e se tornou Rei de uma nação que estava rodeada de guerra e estava prestes a ser ocupada por duas grandes nações – Reino Unido e Portugal. Então ele, com apenas 18 anos fez o seu papel de proteger a sua nação e aos 24 anos escolheu morrer ao invés de se render. O que aconteceu foi que lhe foi ofertado, por causa de uma das maiores batalhas da história da ocupação colonial, onde pela primeira e a única vez na história da humanidade, um general europeu, que foi ex ministro da Defesa de Portugal sai da Europa para vir ser governador de Angola e comanda uma expedição que sai de Luanda para ir combater contra Mandume, um miúdo de 22 anos. Tremendamente dificultado por Mandume teve de pedir reforço. Reconhece, escrevendo, que este rapaz tem a habilidade dos maiores comandantes europeus, do ponto de vista tático. Esta é a dimensão de Mandume porque a estratégia militar, a logística que ele teve. Então quando pedem a Mandume para se render e receber um título militar europeu e ser recebido pelo rei na Inglaterra, ser recebido em Portugal e ser baptizado seria uma coisa fácil para um jovem de 24 anos, mas ele não aceitou porque iria fragilizar a luta. Ele era a última resistência, juntamente com o reino da Etiópia. Se ele fizesse isso o todo o povo africano iria desistir. Por isso, ele preferiu suicidar-se do que ser morto pelo ocupador. Preferiu lutar até à ultima bala do que se render. Depois da morte do Mandume, o povo do Cunene nunca pagou imposto porque sempre faziam resistência e rebelião, tanto é que as guerras ali contra os portugueses continuaram por seis meses.

Então, o que o leitor vai encontrar no livro é o pensamento do Mandume. Onde é que se formou, como é que um jovem de 24 anos decidiu se matar ao invés de desistir da guerra, o que lhe forjou… quem o instruiu, quais eram os seus ideais… tudo isto está no livro.

Quais foram as maiores dificuldades durante a sua pesquisa?

A principal dificuldade tem a ver com a localização dos registos. A história estava em seis países. Primeiro é uma história que estava distorcida há mais de 105 anos. E para falar de Mandume primeiro tens de falar dos primeiros reis, então, estamos a falar de 250 anos, de uma história de um povo que vive oralmente. E espero que não te assuste com o que vou dizer agora. Para poder ter inspiração para escrever eu tive de ter uma ligação espiritual com os ancestrais, para me darem a motivação e eu conseguir ter essa inspiração. Então, eu tive de viver e senti que estive lá.

Significa que o facto de ser do Cunene e sobretudo da corte do rei Mandume facilitou no processo de recolhas das informações?

Facilitou, porque depois a dificuldade era da história. Na Finlândia encontramos fontes, na Alemanha encontramos em alguns jornais, porque eles participaram da guerra contra Mandume. Na África do Sul, na Inglaterra tem informação, em Portugal também tivemos de ir ao alcance dessa informação toda. Uma das coisas que mais me incentivou a escrever este livro é o racismo científico. Tu vais ser um grande herói ela libertação de África, mas quem vai escrever é o europeu. Vai te escrever bem, mas depois vai dizer que matavas crianças, fazias isto e aquilo para te descridibilizar. Então nós tivemos que mudar porque o racismo científico. Tu vais aos mais velhos e eles contam a historia, e na hora de publicar os europeus dizem que não é assim, e alteram. Portanto é mais ou menos nisso que se baseia o racismo científico.

O racismo cientifico não vem apenas dos europeus, em Àfrica há também racismo científico, de alguns que criaram padrões e acham que só eles dominam a ciência e limitam outras ondas de pensamento, outras criatividade.
Sofri muito preconceito, pela minha idade em escrever sobre o rei Mandume, mas graças a Deus hoje estamos aqui.

O que acha que deve ser feito para o combate a esse racismo científico?

Como estamos na luta da diversificação da economia, temos que diversificar também no conhecimento. Começar a investir mais no conhecimento interno, trabalhar mais nas nossas ciências. Colocarmos arquiologistas do nosso país a estudar os esqueletos do nosso país para ver onde é que os Khoisan estiveram, parar de consumir a National Geographic que só fala sobre outros países, parar de estudar só conceitos dos outros. Vamos estudar a escrita dos Tchokwe, que é uma coisa profunda para estudar. Vamos debater a angolanidade na sua plenitude… se nós não nos valorizamos, não valorizamos o nosso conhecimento, podemos estar a produzir produtos, mas na mesma vamos ser escravos mentais porque ainda somos dependente de conhecimento,.

Chegou a ter receio, ou até mesmo medo por estar a escrever sobre esta emblemática figura de que recentemente teve informações sobre o seu porte físico…

Eu nunca tive medo ou receio porque eu sou descendente da Corte de Okwanyama. Meus avós conviveram e trabalharam e serviram com Mandume. Nós nunca tivemos dúvida da imagem do Rei Mandume e a nossa missão é falar verdade e simplesmente a verdade. É uma coisa simples de se explicar: Mandume tinha 24 anos e aquela imagem não é de alguém com 24 anos!.. Aquilo faz parte da campanha agrícola. Qual é o medo que eles têm…

O Ondjokonona está em desuso?

O Ondjokonona é a história contada, passada de geração à geração.

Como é que olha para a questão da aculturação do povo do Cunene?

O povo do Cunene nunca será aculturado porque é um povo que já tem cultura. Agora o povo do Cunene está a se adaptar porque foi o último a ser colonizado. Outros estão há 500, 400 anos e ele está somente há 70. Então, o Cunene está numa fase de integração. Está determinado em guardar os seus valores positivos que vão dar contributo positivo no valor da cultura angolana como tal. Há tradições e ritos que não dão nada de benefícios para valores culturais gerais de Angola. O povo do Cunene restaurou o seu reinado em 2019, elegemos o rei Gerónimo Alengue e está a fazer um grande trabalho, que é preservar a nossa cultura.

Pensa algum dia concorrer, já que faz parte da corte, para o reinado?

Eu não, e explico porque, porque estou um pouco distante e tenho outros propósitos, mas se o dever me pôr numa fase em que eu for chamado, se é ali onde melhor vou contribuir à nação angolana, eu estarei pronto.

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