Opinião
Comparticipação na saúde: reforma estrutural ou transferência de culpa?
O anúncio do Executivo angolano sobre a possível introdução de um sistema de coparticipação nos hospitais estatais, avançado durante a I Conferência Economia & Mercado sobre Saúde, realizada em Luanda, não é um simples ajuste administrativo. Trata-se de uma inflexão estratégica na política pública de saúde em Angola.
Segundo o Secretário de Estado para a Saúde Pública, a medida enquadra-se numa reforma legislativa em curso e visa assegurar a sustentabilidade das unidades hospitalares de maior complexidade, infraestruturas que exigiram investimentos avultados em construção, equipamentos de alta tecnologia e manutenção especializada. O argumento financeiro é consistente. Como sublinha Joseph Stiglitz, nenhum sistema público pode sobreviver indefinidamente se os seus custos estruturais superarem a sua capacidade de financiamento sustentável.
Contudo, a questão central não é apenas financeira. É institucional, estrutural e social. Introduzir cobranças num sistema historicamente marcado por fragilidades organizacionais implica enfrentar, simultaneamente, três grandes desafios estratégicos.
1. O modelo de gestão hospitalar exige governação profissional
Não se pode falar em coparticipação sem falar em governação. Osborne e Gaebler defendem que o Estado moderno deve deixar de ser apenas provedor e passar a ser estratega, regulador e avaliador de desempenho. Isso significa profissionalização, metas claras e responsabilização.
Em Angola, muitos hospitais públicos ainda operam sob modelos excessivamente centralizados, burocráticos e dependentes de nomeações político-partidárias. Tal realidade compromete a eficiência, a autonomia técnica e a responsabilização institucional.
A introdução de cobranças sem reforma da gestão poderá produzir um efeito perverso: aumentar receitas sem melhorar o desempenho.
Como ensina Max Weber, a legitimidade institucional depende de racionalidade administrativa e meritocracia. Quando a gestão é politizada, a eficiência tende a ser substituída pela lealdade política.
Se o objetivo é sustentabilidade real, o caminho passa por:
• profissionalização da administração hospitalar;
• contratos-programa com indicadores de desempenho;
• auditorias independentes e transparência financeira;
• avaliação periódica de resultados clínicos e operacionais;
• modelos alternativos, como fundações públicas hospitalares ou mecanismos de seleção técnica das direções com critérios objetivos.
Experiências internacionais demonstram que hospitais com autonomia administrativa e responsabilização efetiva apresentam melhores indicadores de eficiência. Christopher Hood, ao discutir a Nova Gestão Pública, reforça que a introdução de lógica de desempenho no sector público é condição para sustentabilidade.
Cobrar sem reformar o modelo de gestão é apenas deslocar o problema.
2. Seguro nacional de saúde como obrigação estrutural
O segundo grande desafio é o financiamento estruturado por via de um seguro nacional de saúde.
O Executivo anunciou a intenção de criar um seguro nacional. Esta medida é essencial. Contudo, para que a coparticipação seja socialmente justa, o seguro não pode ser opcional. Deve ser obrigatório para todos os trabalhadores formais, públicos e privados.
Amartya Sen defende que políticas públicas só promovem desenvolvimento quando expandem capacidades e não criam novas barreiras de acesso. Cobrar serviços hospitalares sem garantir cobertura universal por via de seguro pode restringir o acesso à saúde, especialmente da classe média, que não beneficia de subsídios nem possui cobertura privada.
Num país onde o Estado é o maior empregador, a obrigatoriedade de seguro de saúde para funcionários públicos e trabalhadores do sector privado formal permitiria:
• estabilizar o financiamento do sistema;
• reduzir a pressão sobre o Orçamento Geral do Estado;
• criar um mecanismo solidário de partilha de risco;
• integrar os sectores público e privado num modelo regulado.
William Beveridge já defendia que sistemas de proteção social devem assentar em solidariedade contributiva e não apenas em financiamento fiscal direto.
Sem seguro obrigatório, a coparticipação poderá penalizar famílias que não são consideradas indigentes, mas que também não possuem cobertura privada. Isso pode ampliar desigualdades sociais.
A sequência estratégica deveria ser clara:
1. Primeiro, estruturar o seguro nacional;
2. Segundo, tornar a adesão obrigatória no sector formal;
3. Terceiro, criar mecanismos de subsídio cruzado;
4. Só depois operacionalizar a coparticipação.
Cobrar antes de organizar é politicamente arriscado e socialmente regressivo.
3. Cadastro nacional inteligente para garantir justiça social
O terceiro desafio é tecnológico e estrutural. Trata-se da necessidade de um cadastro nacional integrado e inteligente.
Para que um sistema de cobranças seja justo, é indispensável distinguir quem pode pagar de quem deve ser isento. Isso exige integração de dados baseada no Bilhete de Identidade e interoperabilidade entre ministérios.
Manuel Castells argumenta que o Estado em rede depende da integração digital para garantir eficiência e equidade. Sem bases de dados integradas, políticas públicas tornam-se imprecisas e vulneráveis à fraude.
Um cadastro nacional inteligente permitiria:
• identificação automática de cidadãos vulneráveis;
• cruzamento de dados fiscais e laborais;
• definição de isenções imediatas;
• redução de fraudes;
• planeamento baseado em evidências.
Sem esta infraestrutura digital, a coparticipação poderá gerar exclusão indevida ou injustiças administrativas.
A reforma da saúde deve caminhar lado a lado com a reforma digital do Estado. A interoperabilidade entre saúde, finanças, segurança social e registo civil é condição indispensável para uma política pública moderna.
Peter Drucker afirma que aquilo que não pode ser medido não pode ser gerido. Sem dados integrados, não há gestão eficiente nem justiça distributiva.
A questão central
A introdução de cobranças em hospitais públicos pode ser racional do ponto de vista económico. Contudo, será insuficiente e potencialmente contraproducente se não vier acompanhada de três reformas simultâneas:
• reforma profunda do modelo de governação hospitalar;
• implementação obrigatória do seguro nacional de saúde;
• construção de um cadastro nacional digital integrado.
Sem estas três colunas estruturais, o risco é evidente:
• aumentar receitas sem melhorar eficiência;
• cobrar sem garantir equidade;
• reformar a lei sem reformar o sistema.
A saúde pública não é apenas uma equação financeira. É um contrato social. John Rawls lembra que a justiça de uma política pública mede-se pela forma como protege os mais vulneráveis.
Se a coparticipação for acompanhada de profissionalização, seguro universal e digitalização inteligente, poderá representar um salto qualitativo na governação da saúde em Angola.
Se não for, poderá ser vista como mera transferência de responsabilidade do Estado para o cidadão.
A pergunta estratégica permanece:
Estamos a estruturar um novo modelo de saúde pública sustentável ou apenas a procurar novas fontes de receita para um sistema que ainda precisa de se reinventa.

CELESTINO VICTOR FORTUNA CANGAIE
25/03/2026 em 1:43 am
Excelente reflexão, precisamos primeiro passar por uma reforma no funcionamento público (educação dos profissionais e comprometimento com a causa), para uma melhor integração estratégica de certas medidas, o Estado Paternalista criou vícios e ineficiência dos serviços prestados, hoje o pacato cidadão não tem confiança nas instituições é só vermos a quantidade de indivíduos que preferem procurar ajuda a um programa externo (Fly podcast) em detrimento dos órgãos estatais para a solução dos vários problemas que existem e isto acontece sem nenhuma intervenção dos órgãos afectos, o que sustenta a possibilidade de (transferência financeira do Estado para o cidadão???), coitado do cidadão que de tudo faz para sobreviver e ainda assim deve pagar por tudo que precisa, haver vamos e os próximos tempos penso serem fundamentais e exclarecidores…