Análise
Como será o mundo depois das guerras? Da ordem liberal à geoestratégia das esferas de influência
As guerras em curso não representam episódios isolados de instabilidade, mas sinais cumulativos de transição sistémica. Tal como após a Segunda Guerra Mundial e no termo da Guerra Fria, o sistema internacional encontra-se novamente num momento de rutura estrutural. A diferença reside no facto de esta transição ocorrer sem um desfecho formal, manifestando-se antes através de conflitos regionais interligados que expõem o esgotamento funcional da ordem liberal.
1. Fim prático da ordem liberal liderada pelos EUA
A arquitetura normativa construída sob liderança dos Estados Unidos permanece formalmente em vigor, mas perdeu capacidade coerciva e legitimidade universal. As regras continuam codificadas, mas a sua observância tornou-se seletiva e instrumental. O sistema evolui para uma anarquia competitiva multipolar, onde a força, a dissuasão e a utilidade estratégica prevalecem sobre a norma jurídica.
2. Multipolaridade dura
A ascensão da China, a afirmação revisionista da Rússia e a consolidação de potências regionais indicam a passagem para um tipo de multipolaridade não cooperativa, na qual Estados disputam zonas de influência de forma aberta, recorrendo a instrumentos militares, energéticos, tecnológicos e financeiros.
3. Regresso das zonas de influência (modelo do século XIX)
A lógica das esferas de influência regressa ao centro do jogo internacional. Estados com superioridade militar e capacidade de projeção procuram controlar a sua vizinhança imediata e reduzir a presença de rivais. O direito internacional continua a existir, mas perde primazia face às exigências estratégicas dos actores mais poderosos.
4. Militarização das economias
Cadeias de abastecimento deixam de ser meros circuitos comerciais e convertem-se em instrumentos estratégicos. Energia, minerais críticos, alimentos, tecnologia e rotas marítimas passam a integrar o cálculo de segurança nacional. Sanções, restrições tecnológicas e controlo de infraestruturas tornam-se extensões da política de poder.
Deste ponto de vista, a grande questão é saber se a mudança global pode ocorrer sem guerras entre grandes potências. Embora muitos académicos sustentem que grandes transições hegemónicas tendem a depender de grandes conflitos, não é inevitável que China e EUA entrem obrigatoriamente numa guerra convencional aberta. O que se observa é uma competição estratégica multifacetada, não apenas militar, mas económica, tecnológica e normativa, em que ambos os lados procuram gerir a rivalidade sem escalada directa para um confronto armado total.
A estratégia chinesa, em particular, tem procurado evitar confrontos directos com os EUA, privilegiando a expansão de influência através de comércio, investimento e diplomacia multilateral. Isto explica, por exemplo, porque a China não interveio militarmente em crises como a da Venezuela ou no conflito do Médio Oriente, apesar de condenar algumas acções estadunidenses como violações de soberania, optando por uma postura de não intervenção militar directa e pela manutenção de relações amplas com múltiplos parceiros.
Por outro lado, eventos como a intervenção militar dos EUA na Venezuela em 2026, que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro, podem ser interpretados por Pequim e por observadores externos como tentativas de limitar a influência chinesa na América Latina, mostrando que Washington ainda procura manter esferas de influência e dissuadir a expansão de rivais em regiões tradicionalmente consideradas sua “zona de interesse”.
No curto e médio prazo, o mais provável é que esta dinâmica conduza a um sistema internacional fracturado, caracterizado por competição intensa e rivalidade não cooperativa, mas não necessariamente a uma guerra convencional total entre superpotências. Tanto os EUA como a China têm incentivos estratégicos para evitar um confronto directo, precisamente porque os custos de um conflito aberto seriam catastróficos para ambos.
Assim, o mundo pós-guerras será definido por:
•Multipolaridade estratégica, onde grandes potências disputam influências em várias regiões simultaneamente;
•Transição da norma jurídica para a lógica do poder e da dissuasão;
•Competições económicas e tecnológicas que funcionam como “guerras sem batalhas”;
•E uma maior pressão sobre Estados médios e periféricos para escolherem alinhamentos ou navegarem com independência.
O desafio para a comunidade internacional é encontrar mecanismos de gestão da rivalidade e coexistência que reduzam o risco de confrontos militares directos enquanto se tenta preservar algum espaço para cooperação em temas globais.
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