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Opinião

Cisão de gerações em Luanda – Edson Kassanga

Redação

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O estilo de vida predominante na sociedade luandense hodierna traz consigo, entre outros males, o distanciamento entre gerações, principalmente no seio da população residente em bairros bastante distante da cidade de Luanda. Não obstante tratar-se de uma situação similar a um tsunami cujos ventos tendem a ser cada vez mais vertiginosos, algumas iniciativas podem reduzir o afastamento entre miúdos e graúdos.

Luanda, cidade fundada por Paulo Dias de Novais em 1575, foi inicialmente projectada para 500 mil habitantes, segundo o que dizem os mais velhos. Com o desenrolar dos anos, a cidade, que mais tarde deu lugar ao município e província com o mesmo nome, foi crescendo rapidamente por conta das guerras ocorridas em outras províncias de Angola, da inobservância efectiva (a nível nacional) de políticas públicas com vista a descentralização em multiformes aspectos, da oferta de melhores condições de vida, entre outros factores.

Entretanto, este crescimento foi somente demográfico, porquanto outras importantes condições que se espera de qualquer cidade,  nomeadamente a disponibilidade de habitações condignas, de uma rede hospitalar extensa e de qualidade, de vias de comunicação e a respectiva regular manutenção, de um eficiente saneamento básico, etc, não esteve nem está em pé de igualdade com a incremento populacional que se regista em Luanda. Por conseguinte, este crescimento desproporcional e desordenado fez com que uma franja significativa dos habitantes da província de Luanda fosse, com o trespassar dos anos, viver em zonas cada vez mais longínquas da cidade Luanda. Lavras e terrenos baldios converteram-se em novos bairros, entre os quais o actual distrito do Zango, local onde habito.

Quase todos os funcionários de empresas públicas e privadas que habitam no distrito supracitado trabalham na cidade de Luanda, facto que os obriga a passarem tamanhas vicissitudes decorrente da extensa distância das próprias área de residência para o local de trabalho (cerca de 40 km). Acordam por volta das 04 horas, perdem muito tempo locomovendo-se de táxi em táxi, têm períodos prolongados de sonolência no local de trabalho, gastam horas nas paragens de táxi essencialmente quando regressam à casa, dispõem de pouco tempo para lazer, possuem pouca disponibilidade para se inteirarem sobre o dia-a-dia da zona na qual residem, não sabem quem são os amigos de seus filhos, não conhecem os vizinhos da sua rua para além dos seus rostos, estão desprovidos de tempo para gerarem afeição com os seus filhos e vizinhos. Enfim, são obrigados a tornam-se estranhos na zona onde residem, agudizando o afastamento entre putos e kotas.

Com fito de alterar esta realidade que em pouco ou nada acresce para uma convivência harmoniosa, Josemar Baptista, meu estimado amigo e vizinho, utilizou a simpatia e aceitação que naturalmente conquistou (em tempo recorde) no seio dos kotas tanto como no meio dos putos da banda para organizar, nas manhãs de sábado, partidas de futebol entre gerações, ou melhor, Kotas vs Putos. Têm sido partidas cujos frutos vão para além das quatro linhas que limitam o campo despido.

Para além da interacção entre vizinhos da mesma faixa etária, os putos têm sabido um pouco mais sobre os kotas e vice-versa, algumas ideias erradas (alimentadas apenas através de aparências) têm sido modificadas- os kotas que viam certos putos como gatunos de botijas assim como os putos que observavam alguns kotas como ignorantes vão descobrindo que não é bem assim-, os putos (que geralmente passam mais tempo na banda) vão sentindo-se mais à vontade em disponibilizarem informações aos kotas (que frequentemente gastam maior parte do seu tempo nos respectivos locais de trabalho) sobre o que acontece na área onde ambos vivem, juntos trocam impressões relativas aos problemas locais, juntos buscam soluções, enfim, kotas e putos, cada vez mais unidos, têm contribuido para um ambiente mais saudável a todos habitantes e desta feita suprimem a distância entre gerações.

Portanto, o nível de separação entre aldutos e garotos que se verifica em inúmeros bairros localizados na província de Luanda vem tomando dimensões preocupantes. Apesar de ser um problema de dificil resolução devido a um conjunto de dificuldades que afectam principalmente quem vive em bairros tão distante do seu local de serviço, algumas iniciativas levadas a cabo nas áreas de residência tem dado resultados animadores. Um dos exemplos tem sido as partidas de futebol que têm dito lugar durante as manhãs de sábado no Zango entre Kotas vs Putos. É o desporto dando provas do seu enorme poder de integração social.

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