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Cimeira de Paz para Ucrânia sem participação da Rússia é outro dilema diplomático para Angola

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Embora tenha optado por uma aproximação a Washington em detrimento de Moscovo, seu velho aliado, Luanda, ao que se percebe, ainda deseja manter alguma resquia do relacionamento, tendo em conta a volatilidade da geopolítica.

A Suíça, uma autoridade moral na perspectiva de paz a nível mundial, comprometeu-se a encontrar um caminho para a estabilidade e paz para Kiev, e está, em face disso, a promover uma Cimeira Global de Paz para Ucrânia, aprazada para Junho próximo.

E já foram convidadas 160 nações, com a excepção da Rússia. Entre os Estados estão os países do G7, G20 e BRICS (grandes economias emergentes).

Cabo Verde foi igualmente convidado e é a primeira nação africana a confirmar a sua presença.

Já Angola, de acordo com a informação colhida pelo Correio da Kianda junto da Embaixada da Ucrânia em Luanda, ainda não recebeu um convite formal por parte da Suíça, mas já recebeu uma cópia do convite por parte do corpo diplomático ucraniano, estando apenas a aguardar pelo envio do convite original que deve ser entregue por Berna.

A Rússia, que iniciou uma invasão a Ucrânia a 24 de Fevereiro de 2022, já fez saber que a cimeira não terá nenhum efeito sem a sua participação. Mas para os ocidentais, o mais importante ainda é isolar o Kremlin do resto mundo, e é assim que vão procurando mais aliados, e Angola não está de fora desta equação ocidental.

Até Março, um mês depois da invasão, Luanda ainda mantinha publicamente uma postura subtil de neutralidade, mas que era interpretada a nível internacional como sendo a favor de Moscovo. O país africano chegou a votar por abstenção na ONU, a uma Resolução que visava condenar a Rússia por atacar a Ucrânia, em violação à Lei Internacional, que prevê a preservação da integridade territorial dos Estados.

Das autoridades angolanas, durante os primeiros sete meses da guerra, não se ouvia qualquer comentário que pudesse figurar como uma condenação aos russos. Entretanto, o quadro mudou após às eleições-gerais de 24 de Agosto de 2022, em que João Lourenço foi reeleito.

A alteração da visão estratégica angolana sobre o conflito militar na Europa, foi pela primeira vez denotada através do discurso de João Lourenço, durante a sessão de sua investidura como Presidente da República, a 15 de Setembro daquele ano.

Pela primeira vez, o estadista angolano, apelou à Rússia para que parasse com a guerra.

“Tendo em conta a necessidade de se evitar o escalar do conflito, consideramos importante que as autoridades russas tomem a iniciativa de pôr fim ao conflito [na Ucrânia], criando assim um melhor ambiente para se negociar uma nova arquitectura de paz para a Europa e abrir caminho à tão almejada e necessária reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, dissera João Lourenço, num discurso bem acolhido pelo Ocidente e recebido com desconfiança no centro do poder russo.

De lá para cá, as posições de Angola face ao conflito passaram a ser claramente contra a invasão. O ministro das Relações Exteriores, Téte António, justificou a nova postura angolana com o número crescente de mortes e destruição de infra-estruturas, que acabam por afectar outros países, face à importância da Ucrânia no mundo.

Em Janeiro de 2023, durante a visita que efectuou a Angola, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, avisou ao seu homólogo Téte António, que as relações entre a Rússia e Angola ”não se compadecem com questões de geopolítica”. O que Lavrov quis fazer: era levar as autoridades angolanas e do MPLA, a recordarem sobre o apoio incondicional que a Rússia estendeu ao partido governante, sobretudo no período da guerra com a UNITA, este que era alimentado pelos norte-americanos.

Numa entrevista concedida à Lusa e ao Expresso, em Junho do ano passado, João Lourenço reafirmou que Angola “está contra a invasão da Ucrânia” e que “não haverá vitória militar de qualquer das partes, pelo que é urgente realizar conversações”.

“A nossa posição é muito clara (…) condenamos a ocupação, pior do que isso, a anexação de parte do território ucraniano pela Rússia, mas para se pôr fim a isso, é preciso conversar, porque militarmente ninguém vai ganhar, nem a Rússia (…) vai tomar a Ucrânia, nem a Ucrânia vai tomar Moscovo”, advertira João Lourenço.

Apesar de o novo ‘caminho’ optado por Angola esteja a levá-lo para mais próximo dos EUA e do Ocidente Alargado, a Rússia não se dá por vencida, e tem usado todos os canais diplomáticos para ter de volta o seu velho aliado africano.

O embaixador russo em Angola, Vladimir Tararov, tem inclusive batido a porta do MPLA, enquanto partido parceiro de longa data.

Entretanto, tem havido um certo sinal de entendimento. Mas o convite que deverá ser feito formalmente pela Suíça a Angola, para que o país participe na Cimeira de Paz para a Ucrânia, sem a participação da Rússia, acaba por representar mais um sério desafio para Angola que, de forma subtil, tem procurado reparar os danos causados à sua relação com o Kremlin.

De recordar que a Suíça, organizador da Cimeira, estava aberta a convidar a Rússia, mas as autoridades do Kremlin, de acordo com a imprensa ocidental, declararam a sua indiferença em relação ao evento.

A Cimeira de Berna visa dar corpo à fórmula de paz do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que se baseia no pressuposto de que a solução para o conflito com a Rússia surgirá quando o país abandonar os territórios ucranianos que ocupa e a soberania e a integridade territorial da Ucrânia forem restauradas.

Além dos governos, o Vaticano e o Patriarca Ecuménico da Igreja Ortodoxa também receberam um convite formal da Suíça, tendo também o país anfitrião garantido que a lista final de convidados será conhecida pouco antes da conferência e que a selecção dos participantes foi feita com o desejo de que o maior número possível de países envie representantes de alto nível.

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