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Crónica ideal ao Domingo

Carta, o laço ameno e eterno

Redação

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Por: Edson Kassanga

A dados períodos, todos nós tivemos momentos que tiveram começo e, obviamente, tiveram fim. Entretanto, gostaríamos que os mesmos nunca tivessem fim. E mesmo sendo impossível a realização de tal desejo, gostaríamos de transformar o término desses momentos num interregno (intervalo) para que eles nos permitissem resistir, dominar e, quiçá, suprimir as amarguras da vida.

Em abono da verdade, o estar vivo não significa somente um de silvo satisfação. Infelizmente há e sempre haverá ocasiões em que a vida parecerá um profundo estrondo de pranto; ou melhor, aparecerá despida de qualquer encanto, espargindo tormento para todos os lados.

Diante dessa desgraça à qual, seguramente, ninguém está posto de parte, às vezes, somente as reminiscências de um pretérito repleto de deleite podem nos devolver a vontade de viver. Na era de agora, a evolução tecnológica deu-nos a conhecer e usar diversas ferramentas que nos possibilitam registar e guardar acontecimentos importantíssimos da nossa vida, como por exemplo os gravadores de áudio, as máquinas fotográficas, as câmaras de vídeo, etc.

Apesar disso, ela, a evolução tecnológica, não conseguiu nem irá conseguir engendrar algum engenho que anule a utilidade de um dos meios tradicionais de comunicação interpessoais, devido ao esmero, ao efeito indelével, à intimidade, à fertilidade de imaginação e de emoção que a elaboração e leitura do mesmo encerra. Refiro-me especificamente ao apreço intenso perpetuado num pedaço de papel que designamos carta.

Na carta reside o presente que o presente, presumivelmente, nos impede de desfrutar. Ela é o testemunho duradouro dos segundos dourados que já vivenciamos e cujos impactos ainda conseguem nos manter em contacto directo, em contacto vigoroso com o gozo de estarmos vivos todas as vezes que, através do fulgor exíguo dos nossos olhos, desvendamos o que ela, a carta, reporta.

Salvo raríssimas excepções, a intenção de transferirmos diminutas gotas do nosso sangue para um pedaço de papel -de relevo ou liso, perfumado ou não é permanentemente escoltada por uma bruma majestosa composta por gotículas a saber saudade, satisfação, gratidão, ternura, vondade de reviver sensações de outrora; enfim, uma bruma constituída por chagas doces indóceis à passagem desgastante do tempo.

Escrevemos cartas a fim de descrevermos as impressões digitais que algumas pessoas timbraram nas nossas almas; escrevemos cartas com propósito de eternizarmos eventos cujos usufrutos revestiram toda nossa tez feito o vento lento e revigorante que sopra quando o maior astro faz escapar lágrimas de despedida; escrevemos cartas com fito de conservarmos sentimentos que se transmudaram em fontes de energia para a luz dos nossos olhos; enfim, escrevemos cartas iluminados pelo intento de mantermos coesos os laços prazerosos que nos unem às pessoas que fazem imensa diferença na nossa vida.

Ao vislumbrarmos o nosso nome, escrito à mão, como destinatário num envelope que cobre, bem como conserva uma missiva, damos início a uma produção massiva de imaginação que silencia os sensores destinados a nos fazerem sentir dor, fortificando, desse modo, a performance dos sensores que nos transmitem o prazer. Inicia, assim, a sucessão de doces sensações.

Neste instante, o nosso cérebro gera imagens que se revertem em carícias sobre a nossa pele. Imaginamos prováveis ocorrências que motivaram o remetente a recordar-se de nós; imaginamos o mesmo a imaginar os momentos que juntos desfrutamos; imaginamos em tudo que ele deixou de fazer para pensar em nós; imaginamos o espectro de morabeza que envolveu o processo de escrita da carta; imaginamos a candura com que cada palavra foi escolhida e escrita; imaginamos o esmero com o qual ele escolheu o tipo de papel para veícular frases advindas das entranhas do seu coração; imaginamos; imaginamos; imaginamos tantas coisas sem notarmos que estamos produzindo substâncias em altura de abrandarem ou curarem as eferemerides, os desconfortos que eventualmente nos acometem ou nos irão acometer.

E quando efectivamente lemos as palavras que, em debate, tentam debelar a pura brancura do papel, a nossa mente reproduz o som da voz do remetente e passamos a sentir sua presença como se tivesse a pronunciar mansamente cada sílaba, cada palavra, cada frase a parcos palmos do nosso ouvido.

Por conseguinte, o imenso peso da nossa estrutura corporal é cordialmente domado pelo porte delgado do papel. O mesmo papel para onde foi transferido tudo aquilo que, apesar da magna importância, o rebuliço assíduo nas cidades impediu que o remetente expressasse por palavras. E as palavras ficaram para serem entendidas na imagem do olhar.

Efectivamente, a vida citadina emagrece a nossa disponibilidade em dizermos o que sentimos às pessoas pelas quais nutrimos sentimentos ternurentos. De modo reiterado, por desleixo ou obrigação, deixamos que a imagem do nosso olhar fale sobre nós e nos esquecemos da imprecisão que ele acarreta. Dizem que “uma imagem vale mil palavras”, porém as possibilidades de inúmeras palavras terem sido ditas num olhar, por mais cintilante que aparente, não superam a emoção que a convicção das palavras pronunciadas, de facto, produzem. O olhar remete-nos a uma interpretação bastante difusa, bastante dispersa, uma vez que, os indícios de afeição confundem-se, sobremaneira, com os sinais de aversão.

Por isso, sem o mínimo objectivo de obstruir o esplendor do olhar, eu prefiro o abraço de apreço diluído num pedaço de papel, eu prefiro a carta. As cartas sempre foram as prendas mais brandas e profundas que recebi. Mais do que meras tiras de papel, elas solidificaram a inteligência emocional que sustenta o sopro de vida existente no interior da minha efémera escultura de barro.

Prezado leitor, aposto que as pessoas que te são queridas vislumbram a carta sob o mesmo prisma que o meu, mesmo que ainda não tenham manifestado tal visão. Então, se imortaliza na vida dessas pessoas enviando-lhes cartas. Não perca a chance!

Para terminar, antes que eu perca o ensejo, faço jus ao tema em abordagem dizendo que agradeço imenso a quem já me enviou cartas. Muito obrigado!

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