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Análise

Bombeiros de Angola precisam de autonomia para salvar vidas

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As alterações climáticas deixaram de ser um debate meramente académico para se tornarem uma realidade operacional incontornável. Cheias, secas prolongadas, incêndios florestais e tempestades intensas desafiam, de forma crescente, os Estados africanos, incluindo Angola. Como sublinha o Intergovernmental Panel on Climate Change, os eventos extremos tornaram-se mais frequentes e severos, exigindo sistemas nacionais de resposta mais resilientes e estruturados.

Neste contexto, o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros de Angola assume um papel central na salvaguarda de vidas humanas e bens. Contudo, as recorrentes calamidades demonstram que o modelo actual carece de modernização profunda, não apenas ao nível dos meios técnicos, mas sobretudo em matéria de governação institucional, autonomia administrativa e organização territorial estratégica.

1. Formação e Profissionalização: A Base da Resiliência Operacional

Herbert Simon, Prémio Nobel da Economia, defendia que decisões eficazes dependem de estruturas organizacionais capazes de processar informação com racionalidade limitada, mas orientada por dados e procedimentos claros. Em contexto de emergência, essa racionalidade traduz-se em formação técnica adequada, protocolos padronizados e liderança competente.

A adopção de normas internacionais, como as da National Fire Protection Association, permitiria elevar os padrões formativos, garantindo certificações compatíveis com serviços de referência mundial. Como argumenta Peter Drucker, “o que não é medido não pode ser melhorado”; assim, a profissionalização deve estar associada a indicadores de desempenho e a auditorias técnicas regulares.

2. Planeamento e Gestão do Risco Climático

Ulrich Beck, ao conceptualizar a “sociedade de risco”, alertava que as ameaças modernas exigem instituições capazes de antecipar e gerir incertezas sistémicas. Angola precisa de evoluir de um modelo predominantemente reactivo para um modelo preventivo, baseado em:

Cartografia actualizada de zonas vulneráveis;

Sistemas de alerta precoce;

Integração com serviços meteorológicos;

Educação comunitária permanente.

A gestão do risco deve estar alinhada com os princípios defendidos pelo United Nations Office for Disaster Risk Reduction, que promove a redução do risco como política pública transversal e estruturante.

3. Equipamentos, Tecnologia e Modernização Logística

Sem meios técnicos adequados, não há eficácia operacional. Manuel Castells recorda que vivemos numa “sociedade em rede”, onde a informação e a tecnologia determinam a capacidade de resposta institucional.

Angola necessita de:

Auto-bombas modernas e devidamente equipadas;

Plataformas aéreas para incêndios urbanos em edifícios de grande altura;

Viaturas 4×4 para incêndios rurais e zonas de difícil acesso;

Equipamentos especializados para matérias perigosas (HazMat);

Sistemas digitais integrados de comando e controlo.

A modernização tecnológica deve ser encarada como investimento estratégico e não como despesa circunstancial.

4. Autonomia Administrativa e Organização da Representação Territorial

Este é, provavelmente, o ponto mais estruturante da reforma necessária.

Max Weber ensinou que a administração moderna exige competências técnicas, hierarquia clara e autonomia funcional. No domínio da protecção civil, a excessiva centralização administrativa pode comprometer a rapidez e a eficácia das decisões em contexto de crise.

4.1 Autonomia Administrativa e Financeira

Para responder adequadamente às calamidades climáticas, o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros de Angola deve caminhar para:

Maior autonomia orçamental;

Capacidade de gestão directa de recursos financeiros e logísticos;

Planeamento plurianual de investimentos;

Criação de um fundo nacional permanente para emergências climáticas.

Como defende Elinor Ostrom, sistemas descentralizados, quando bem regulados, tendem a apresentar maior eficiência na gestão de recursos comuns.

Autonomia não significa ausência de controlo; significa responsabilização associada à capacidade de decisão técnica imediata.

4.2 Organização da Representação Territorial

Angola é um país de dimensão continental, com realidades geográficas distintas do litoral às regiões semiáridas do Sul, passando por zonas florestais e bacias hidrográficas vulneráveis.

Uma reforma estrutural deve considerar:

1. Comandos Regionais com autonomia operacional, distribuídos estrategicamente por macro-regiões;

2. Centros Provinciais de Resposta Rápida com capacidade logística própria e equipas especializadas;

3. Unidades Municipais reforçadas e articuladas com as administrações locais;

4. Implementação de um Sistema Nacional Integrado de Comando de Incidentes, padronizado e interoperável em todo o território nacional.

Henry Mintzberg defende que organizações eficazes precisam alinhar estratégia, estrutura e contexto. A representação territorial da protecção civil deve reflectir o mapa de risco do país e não apenas a divisão administrativa formal.

5. Certificação Internacional e Cultura de Excelência

A certificação institucional por organismos internacionais não é mero formalismo; trata-se de inserir Angola num circuito global de boas práticas. Organizações como a Commission on Fire Accreditation International estabelecem padrões de excelência que reforçam transparência, eficiência e credibilidade institucional.

A cultura de melhoria contínua deve ser institucionalizada, promovendo:

Avaliação externa periódica;

Programas de intercâmbio internacional;

Formação de formadores com certificação reconhecida internacionalmente.

6. Conclusão: Reformar para Salvar

As calamidades climáticas não aguardam reformas administrativas. Elas testam, em tempo real, a capacidade do Estado de proteger os seus cidadãos.

Angola precisa transformar o seu sistema de protecção civil num modelo:

Preventivo;

Tecnologicamente apetrechado;

Territorialmente organizado;

Administrativamente autónomo;

Internacionalmente certificado.

Como afirmou Amartya Sen, desenvolvimento é expansão de capacidades. No domínio da protecção civil, isso significa expandir a capacidade do Estado de salvar vidas com eficiência, rapidez e dignidade.

A reforma do sistema de protecção civil e bombeiros não é apenas uma agenda técnica. É uma agenda de soberania, segurança humana e responsabilidade histórica perante as futuras gerações.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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