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Crónica ideal ao Domingo

Beto de Almeida, o músico que mais contribuiu para a paz

Redação

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Por: Edson Kassanga
[“Onde as palavras falham, a música fala” – Hans Christian Andersen]

O décimo mês do ano começa com uma efeméride. Uma efeméride relacionada à arte sobre a qual nenhum homem, até então, demonstrou aversão, sendo por isso considerada como a arte que mais toca e retoca a alma dos seres humanos. Precisamente, no dia 01 de Outubro, comemora-se o Dia Mundial da Música, data estabelecida em 1975 por uma instituição criada pela UNESCO com intuito de levar a música a todos os sectores da sociedade e promover, através dela, os valores de paz e de amizade.

Tem sido nesse dia, geralmente marcado pela realização de variados espectáculos músico-culturais, que a humanidade procura reflectir sobre a música, bem como sobre o seu papel na sociedade. Também foi nesse mês, do ano 2013, que a música angolana ficou enlutada devido ao passamento físico do músico cuja manifestação de amor à pátria mais contribuiu para a paz alcançada em 2002, a paz definitiva.

A guerra é uma arte da qual a ciência não se aparta. Talvez seja por isso que o seu término exija esforços tão extensos quanto diversos. Durante quase três décadas, Angola foi assolada por uma guerra com proporções profundamente devastadoras em que os seus filhos foram persuadidos e armados para se degladiarem. Felizmente, a situação vigente é bastante diferente. Os angolanos deixaram de ir às igrejas e outros locais apenas para receberem feijão com pirão/funge da cor do sol, disponibilizados pelo PAM ao abrigo das UNAVEMs; os cidadãos já não se atiram ao chão ao ouvirem explosão; o cumprimento do serviço militar obrigatório já não é comparado a uma certeira sentença de morte; as ruas deixaram de testemunhar a passagem de mulheres e crianças com mãos na nuca;  já não se observa filhos de tão tenra idade a arrastarem, em debalde, os corpos inanimados das respectivas mães; enfim, a guerra já acabou.

A guerra acabou, a paz chegou. Para essa conquista, muito distinta dos galanteos com os quais se atrai o coração de uma bonita garota, o mérito é e deve atribuído aos militares de Angola, sem sombra de dúvidas. Como consabido, foram eles que -pelo amor que nutriam pela  pátria- não tiveram a chance de saber o quê a juventude para além do nome; foram eles que postergaram os próprios sonhos para permitirem que um número maior de seus concidadãos ainda pudessem sonhar; foram eles que  (in)voluntariamente abandonaram suas famílias para derramarem sangue, suor e tão ácidas lágrimas em busca de um bem maior; foram eles que subiram ao céu sem caixão nem oração; foram eles que morreram guardando religiosamente cartas repletas de ternura cujo conteúdo jamais será lido, muito menos sentido pelas pessoas para as quais foram escritas; foram eles que juraram proteger e defender a pátria, estendendo a mão direita em direcção à bandeira onde o amarelo assumi-se como elo entre o lado encarnado e o lado enlutado, mesmo que tal custasse o sacrifício das respectivas vidas…

Entretanto, os militares não foram os únicos que teceram a branca bandeira que dança em apoteose em todos os cantos dessa terra abençoada por mil e tantos encantos. Cada militar é, para além e acima disso, um ser humano. Por essa razão, maior parte das suas acções e reacções são dóceis (dependem) a questões inerentes a qualquer ser humano. O para que o militar lute, também precisa acreditar que seu esforço pode ser útil para o alcance de algo superior a si, também necessita de uma razão que lhe motive a lutar a parcos palmos do rio da morte, também é mister ter um objectivo pelo qual ele julga que vale a pena morrer. Enfim, o militar também possui alma. Tal implica dizer que ele precisa ter o seu estado psico-moral elevado para levar a cabo a suprema, bem como espinhosa missão de garantir a integridade do território nacional. Além dos discursos vigorosamente incentivadores preferidos pelos comandantes nas vésperas dos combates, um dos elementos essenciais que serviu para a elevação do moral no meio dos militares foi a música. E quando se põe música e militares sobre a mesma mesa, é inevitável citar o nome de Beto de Almeida.

Tchuma, como também era carinhosamente chamado, foi o músico que mais vivenciou, ao vivo e a cores, o dia-a-dia dos militares no tempo da guerra. Sentiu o odor dos militares que tinham o banho como um sonho adiado; viu as atrocidades da guerra nos combatentes invisuais e desprovidos de membros; vislumbrou a dor e a cor da coragem de quem lacrimeja em silêncio feito uma estátua; apalpou o gélido medo nos contactos com os tropas; viu nos olhos dos mesmos vestígios de uma esperança que se despediu há muito tempo; etc. Não obstante a esse cenário desolador, Beto fez recurso a sua música para recuperar e incrementar hormonas que têm a sua quota parte nos sentimentos de optimismo e de coragem.

Em inúmeras ocasiões, Beto (em companhia de seu irmão, Moniz de Almeida) fazia espectáculos em contextos muito invulgares. Para além de serem actividades músico-culturais realizadas em zonas eminentes (tão propensas a ataques), eram direccionadas aos militares que estavam conscientemente prestes a entrarem em combate nos próximos dias ou horas. Segundo o mano do Beto, numa entrevista exibida pela TPA, haviam momentos que tinham de parar os espectáculos abruptamente porque a unidade onde se encontravam a cantar estava a ser atacada. E ainda há quem vai mais além. Dog Murras, contemporâneo dos manos Almeida e uma voz autorizada da música nacional, demarca Beto dos demais músicos, num artigo publicado pela Angop a 10/10/2013, ao afirmar que “Beto foi o primeiro artista que pegou na sua viola e levou para a frente de combate e nos obrigou a olhar para isso de forma normal”.

Logo, Beto de Almeida foi o músico que mais contribuiu para a paz em Angola, exaltando o astral de militares que abnegadamente e heroicamente lutaram por este país, arriscando a sua vida em circunstâncias e locais exuberantemente impróprios para músicos, proporcionando o último momento de encanto para os militares que foram à frente de combate e jamais regressaram, etc. Em abono da verdade, as acções de Tchuma, pelos distintos pontos dessa extensão de terra chamada Angola, dão a entender que foram apenas o cumprimento de tudo quanto procurou proferir com tamanha emoção na canção “Minha Viola”, música do álbum “Pico” lançado em 1999.

Roberto Tiago da Silva de Almeida, exímio músico e autêntico patriota nascido nas terras de Mwene Vunongue em 1976, sempre demonstrou apetência para fazer música. Seu nome começou a atrair as luzes da ribalta em 1985, quando venceu o prémio principal do Primeiro Festival Regional da Canção realizado no Namibe. Anos mais tarde, depois de uma passagem na província da Huíla, a fama de Beto de Almeida ganhou substancial imensidão com a sua ida a Luanda e a promoção de sua canção intitulada “Cara de Pau”. Desde a década de 80 até ao ano em que morreu, 2013, teve outros vários sucessos, muitos desses com a participação de Moniz de Almeida, que, agregados a sua simplicidade, simpatia, humildade e vigoroso patriotismo, tornaram-no num dos melhores e tão indeléveis filhos da nação angolana. “Beto de Almeida viveu menos de 40 anos, mas contribuiu para a nação como se tivesse vivido mais de 100 anos” (Massano Júnior, Ex Presidente da UNAC-SA, União Nacional dos Artistas e Compositores- Sociedade de Autores).

Em síntese, a conquista da paz em Angola resulta de esforços empreendidos por variegadas  franjas da sociedade. Embora ela tenha dependido sobremaneira da bravura, bem como da coordenação dos militares no decurso das sangrentas batalhas, existem civis que tiveram um papel de relevo para a concretização dessa conquista, porquanto influenciaram positivamente nas acções daqueles através da música. E um desses civis foi, inquestionavelmente, Beto de Almeida, o músico que melhor soube usar a sua voz e a sua viola como arma de combate. Dessarte, ele foi o músico que mais contribuiu para o fim da guerra em Angola.

BETO DE ALMEIDA, UM ORGULHO PARA A SUA GERAÇÃO, UM LEGADO DIGNO DE SER SEGUIDO PELAS GERAÇÕES VINDOURAS.

Que a sua alma descanse em paz e saiba que Angola agradece!

Por: Edson Kassanga

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