Crónica
Benguela levanta-se: a força que nasce da tempestade
Quando as chuvas caem sobre Benguela, não trazem apenas água. Trazem memória, medo e, paradoxalmente, uma estranha demonstração de força colectiva. As ruas alagadas transformam-se em espelhos da nossa vulnerabilidade, mas também em palco da nossa resiliência.
As recentes calamidades que assolaram Benguela não foram apenas fenómenos naturais, foram testes sociais. Casas invadidas pela água, famílias desalojadas e infra-estruturas fragilizadas. O rio Cavaco, tantas vezes contemplado como paisagem serena, tornou-se símbolo da força indomável da natureza. E, no entanto, no meio do caos, emergiu algo que nenhuma enxurrada consegue arrastar: o espírito do povo benguelense.
Resiliência é a capacidade de resistir, de suportar o impacto e continuar. Mas o povo de Benguela parece ir além disso. Não se limita a “voltar ao normal”; reinventa-se, reorganiza-se e aprende. Há uma diferença subtil, mas profunda, entre resistir e evoluir, entre sobreviver e transformar a adversidade em aprendizagem.
Nas zonas mais afectadas, vimos vizinhos a acolher vizinhos, jovens a improvisarem pontes de madeira, mães a protegerem os filhos enquanto salvavam documentos e memórias. Comerciantes a perderem mercadorias, mas não a esperança. Igrejas e escolas transformadas em centros de abrigo.
O Estado presente, ainda que por vezes insuficiente; a sociedade civil activa, ainda que limitada por recursos. No meio da lama, germinou a solidariedade.
Mas há uma palavra mais ousada do que resiliência: anti-fragilidade. É a capacidade de crescer com o choque, de sair mais forte depois da tempestade. Se a resiliência é não quebrar, a anti-fragilidade é fortalecer-se com a pressão.
Será que Benguela pode tornar-se anti-fragíl?
A resposta não está apenas nas obras de reconstrução, nos diques reforçados ou nos planos de contingência. Está na consciência colectiva. Está na decisão de planear melhor o ordenamento do território. Está na coragem de exigir políticas públicas preventivas e não apenas reacções emergenciais. Está na educação ambiental nas escolas. Está na fiscalização urbana. Está numa governação que antecipa riscos e não apenas administra crises.
Cada calamidade revela fragilidades estruturais: ocupações em zonas de risco, drenagens insuficientes e crescimento urbano desordenado. Mas também revela a grandeza humana quando a dor é partilhada.
O povo benguelense ensina-nos uma lição silenciosa: a água pode levar paredes, mas não leva a dignidade; pode destruir móveis, mas não destrói o carácter; pode interromper rotinas, mas não interrompe a esperança.
Contudo, não podemos romantizar o sofrimento. A resiliência do povo não deve servir de desculpa para a ausência de planeamento estratégico. Não basta dizer que “o povo é forte”. É preciso criar condições para que essa força não seja permanentemente testada por falhas evitáveis.
Benguela não precisa apenas de reconstrução; precisa de transformação. Precisa de sistemas de alerta eficazes, de infra-estruturas resilientes, de coordenação institucional sólida e de uma cultura de prevenção. Precisa de investir na protecção civil como prioridade estratégica e não como resposta pontual.
As calamidades naturais são inevitáveis. A tragédia social, muitas vezes, não é.
Entre a lama e a lição, Benguela escolhe sempre levantar-se. Mas o verdadeiro triunfo será quando a cidade não apenas resistir às chuvas, mas aprender com elas. Quando cada inundação for menos devastadora do que a anterior, quando a dor se converter em política pública inteligente.
Porque a grandeza de um povo não se mede pela ausência de tempestades, mas pela forma como transforma cada tempestade numa oportunidade de crescimento.
E Benguela, apesar de tudo, continua de pé. Não apenas resistente, mas pronta para se tornar mais forte do que a própria adversidade.
