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Análise

Avaliação do risco de fraude no Sistema de Pagamento Angolano

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A confiança é o alicerce de qualquer sistema financeiro. Sem confiança, as transações deixam de fluir, os agentes económicos retraem-se e o investimento esmorece. É nesse ponto que o risco de fraude assume uma dimensão central no debate sobre a segurança e a credibilidade do Sistema de Pagamentos de Angola (SPA).

O risco e a sua gestão

O risco, em termos gerais, é a possibilidade de um acontecimento futuro ter impacto negativo sobre a situação financeira de uma instituição. No sector bancário e financeiro angolano, os riscos são múltiplos: desde o risco de crédito, liquidez e mercado, até ao risco operacional, reputacional e de compliance. Entre eles, destaca-se o risco de fraude ,um subrisco do risco operacional , justamente porque resulta de ações intencionais de manipulação, omissão ou engano para obtenção de vantagem indevida.

A fraude distingue-se do erro porque é deliberada, dissimulada e frequentemente difícil de detectar. Para que ocorra, geralmente estão presentes três factores identificados no famoso “triângulo da fraude”: a pressão (normalmente associada a dificuldades financeiras), a racionalização (a tentativa de justificar o acto) e a oportunidade (fragilidade dos controlos e processos). Estudos mais recentes acrescentam ainda a “capacidade” e a “disposição ao risco”, reconhecendo que o conhecimento técnico, a posição hierárquica ou mesmo a “aventura” de cometer fraude podem ser determinantes.

Tipos e consequências da fraude

As manifestações de fraude no sistema de pagamentos são diversificadas. Entre as mais frequentes contam-se:

* Fraude de identidade, que utiliza dados de terceiros para abrir contas ou aceder a serviços financeiros;
* Fraude financeira, incluindo desvio de fundos, apropriação indevida ou manipulação de transações;
* Fraude documental, pela falsificação ou adulteração de documentos;
* Vazamentos de dados, cada vez mais comuns em ambientes digitais;
* Esquemas online, como o money-flipping ou compras fraudulentas em plataformas digitais;
* Fraude fiscal e branqueamento de capitais, que prejudicam o Estado e minam a integridade do sistema económico;
* Corrupção e conflitos de interesse, que corroem a credibilidade das instituições e favorecem o crime financeiro.

As consequências destas práticas são devastadoras: perdas financeiras significativas, danos reputacionais, quebra da confiança de investidores e clientes, e até impacto psicológico sobre as vítimas. Em última instância, a fraude fragiliza a estabilidade do próprio sistema financeiro.

O Sistema de Pagamentos Angolano

O SPA, regulado pela Lei n.o 40/20, é composto por instrumentos, procedimentos e intervenientes que asseguram a circulação de fundos no país. O Banco Nacional de Angola (BNA), na qualidade de regulador e supervisor, definiu quatro grandes objetivos para o sistema: segurança, fiabilidade operacional, eficiência e transparência.

Na prática, o SPA integra seis instrumentos de pagamento, cheques, transferências, ordens de saque, débitos directos, cartões de pagamento e moeda eletrónica. e oito subsistemas, entre os quais se destacam o Sistema de Pagamentos em Tempo Real (SPTR), o Subsistema Multicaixa (MCX) e o Subsistema de Pagamentos Móveis (SPMA).

Apesar dos avanços na modernização e na digitalização, os riscos de fraude mantêm-se presentes. Os cheques, por exemplo, continuam vulneráveis a adulterações; os cartões de pagamento enfrentam ameaças de clonagem e phishing; os pagamentos móveis, embora inovadores, podem ser explorados por burladores em esquemas digitais.

Fraquezas e desafios

Uma das maiores vulnerabilidades do sistema está na qualidade dos controlos internos das instituições financeiras. O excesso de burocracia, por um lado, pode gerar processos ineficazes; a ausência de mecanismos de fiscalização, por outro, abre espaço para irregularidades. O equilíbrio entre eficiência e segurança continua a ser um desafio central.

Outro factor de risco é a insuficiente da literacia financeira da população. Num ambiente em que grande parte dos utilizadores ainda não domina plenamente os mecanismos digitais, torna-se mais fácil para os fraudadores explorar a falta de informação. Some-se a isso a crescente sofisticação dos crimes cibernéticos, que exigem respostas rápidas e especializadas por parte das instituições e do regulador.

Caminhos para a prevenção

Prevenir a fraude exige mais do que boas intenções: requer políticas claras, investimentos em tecnologia e, sobretudo, uma cultura organizacional ética. Entre as medidas prioritárias, destacam-se:

1. Governança robusta: códigos de conduta claros, lideranças comprometidas com a integridade e políticas antifraude consistentes.
2. Compliance activo: auditorias internas e externas regulares, canais de denúncia anónimos e eficazes, programas de formação contínua.
3. Tecnologia de ponta: soluções de criptografia, sistemas de autenticação multifactor, controlo de acessos e monitorização em tempo real.
4. Gestãoderiscosistemática:avaliaçãocontínuadaprobabilidadee impacto da fraude, com planos de mitigação e resposta.
5. Cooperação institucional: maior articulação entre o BNA, os bancos, as fintechs, a CMC, a BODIVA e entidades internacionais, sobretudo no espaço da SADC.

Conclusão

A fraude é uma ameaça persistente e mutante, que não pode ser eliminada, mas pode e deve ser controlada. O SPA é uma conquista importante para a economia angolana, mas a sua credibilidade dependerá sempre da capacidade de proteger os utilizadores e de garantir operações seguras e transparentes.

Num mundo financeiro cada vez mais digital e interligado, Angola precisa investir não apenas em infraestruturas tecnológicas, mas também em pessoas: formar profissionais competentes, criar equipas de compliance eficazes e cultivar uma cultura de ética e responsabilidade.

Reduzir o risco de fraude no sistema de pagamentos não é apenas um desafio técnico. É, sobretudo, uma condição para o desenvolvimento económico sustentável, para a atração de investimento e para a consolidação da confiança na economia angolana.

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