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Opinião

As mulheres africanas tomaram a dianteira

Redação

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Por: Edson Kassanga

A caminhada dos Direitos Humanos, iniciada no longínquo ano de 1689 com a Declaração dos Direitos na Inglaterra, traz um rastro de suor lágrimas e sangue. Grande quantidade desses fluídos foram derramados por dadas pessoas cujo sexo dita(va) uma sentença infinita que aborta(va), à beira da boca, qualquer desconforto, qualquer inconformismo e, até mesmo, qualquer ideia valiosa para o progresso da humanidade. Essas pessoas são especificamente as mulheres, flores delicadas na estrutura e tão robustas de espírito, que, infelizmente, ainda são vítimas da discriminação em todas as sociedades. Não obstante essa discriminação, as mulheres têm tomado iniciativas com fito de dirimir problemas extremamente complexos antes dos homens. A prova pode ser encontrada no capítulo das efemérides do dia 31 de Julho de 1962.

Através da história universal é possível perceber que as sociedades foram se metamorfoseando com o desenrolar dos anos. Num tempo bastante distante, as mulheres eram vistas somente como instrumento de trabalho, uma vez que, lhes era vetado um rol enorme de direitos, desde o direito à educação ao direito de voto. Muitas delas tiveram de se fazer passar por homens – apertando os seios, cortando o cabelo, engrossando a voz, usando máscaras, etc – para realizarem actividades às quais elas sentiam-se capazes, porém eram proibidas de realizá-las nas sociedades em que estavam inseridas.

A título de exemplo, segue-se breves historiais sobre mulheres de diversos períodos e facetas que se notabilizaram:

Agnodice (nascida em Atenas século IV a.C) teve de se formar, às escondidas, em medicina no Egipto e quando regressou à sua terra natal, obrigou-se a adoptar uma identidade masculina para exercer a profissão em que se formou;

Joana D’Arc – intrépida combatente na Guerra dos Cem Anos ocorrida de1337 a 1453- teve de cortar o cabelo e vestir-se tal qual homem a fim de convencer o Rei Carlos VII a fornece-lhe tropas e armamento para combater contra os ingleses;

Margaret Ann Bulkey se fez passar por homem para se formar em medicina, tornando-se, após a formação, cirurgião militar do exército britânico durante a Batalha de Waterloo;

Amantine Dupin, considerada como uma das maiores escritoras francesas do século XIX, começou a escrever romances sob pseudónimo de Geoge Sand de modos a evitar o preconceito,

Rena Kanokogi, judia americana, disfarçou-se de homem para competir num torneio de judo ao qual acabou ganhando uma medalha em 1959.

Com o perpassar dos anos, aliado aos impulsos advindos dos exemplos femininos de valentia, as mulheres foram achando que já não era necessário fingir ser homem para levar a cabo aquilo que acreditavam ser seu sonho, propósito de vida ou talento. Elas foram conquistando, de par em par, os seus direitos e simultaneamente mitigando a desigualdade entre homens e mulheres. Uma das grandes reviravoltas nesse quesito ocorreu quando diversos países, a começar pela Nova Zelândia em 1893, fizeram aprovar leis que atribuíssem o direito de voto às mulheres.

Como consabido, a evolução da emancipação feminina está intrinsecamente relacionada à evolução dos Direitos Humanos e a sua observância não foi uniforme a nível mundial. Nessa odisseia, a Europa e os EUA sempre estiveram mais avançados na adopção de medidas facilitadoras à participação da mulher na vida pública, enquanto o continente berço foi sempre aquele no qual se registou os maiores atrasos.

Entretanto, a mulher africana não ficou especada e de braços cruzados à espera que os homens resolvessem as ‘makas’ que lhes assolavam. Contra todas as previsões, elas deram o primeiro passo para solucionar problemas que não eram somente delas, eram problemas de todos os africanos -homens e mulheres, nobres e plebeus, cultos e analfabetos, assimilados e indígenas, ricos e pobres- numa época em que, mais do que hoje, África era um corpo inanimado a mercê de qualquer abutre.

No limiar de 1962, pese embora 66% dos países africanos já haviam alcançado a independência, o continente ainda enfrentava sérias dificuldades que colocavam em descrédito a capacidade de liderança dos seus líderes, seus novos lideres. Por conseguinte, as mulheres perceberam que, diante de problemas gigantes, apenas a união podia fazer diferença.

Então, decidiram realizar, a 31 de Julho de 1962, a Conferência da Mulher Africana cujo objectivo principal foi debater o papel da mulher na reconstrução de África. Dada a amplitude do evento, essa data ficou consagrada como o DIA DA MULHER AFRICANA. Já os líderes africanos, materializaram a ideia de união em 25 de Maio de 1963, ou seja um ano depois. Logo, elas tomaram a dianteira antes dos homens. Porém, esse não é único exemplo de proeza das mulheres africanas.

Tal como ocorreu em outras paragens do mundo, a história de África também tem registo de mulheres que, pelos seus actos, grangearam admiração e veneração por diversas gerações a nível mundial. São disso exemplo as seguintes personalidades:

Nzinga Mbandi (1583-1663): foi rainha do Ndongo e é considerada como uma das maiores guerreiras de África. Durante o seu reinado de quarto décadas defendeu o seu reino contra o domínio colonial português com diplomacia, estratégia e força. Além disso, ela conseguiu ampliar o seu reino, anexando o reino vizinho da Matamba;

Nadine Gordimer: foi uma escritora sul-africana que se notabilizou na luta contra o sistema segregacional do seu país, denunciando-o através dos seus livros. Pelo seu modo de luta, foi galardoada com o Prémio Nobel de Literatura em 1991;

Ellen Johson: foi presidente da Libéria após um período de guerra que durou três décadas. Por ela ter sido hábil em manter a paz e reconstruir o país, foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2011. Ellen é a única africana a atingir o cargo de presidente até então;

Apesar desses bons exemplos, o continente ainda é acometido por uma abismal desigualdade entre homens e mulheres em todos os sectores da sociedade. Por conseguinte, as mulheres africanas debatem-se com diversos problemas, destacando-se a mutilação genital feminina, o analfabetismo, a pobreza extrema, os casamentos forçados e o HIV. Tendo em consideração ao número de filhos por mulher em África, cuja média está a cima dos quatro por uma, esses problemas afectam quase todo povo africano. Assim, é urgente reflectir e agir em prol do continente berço!

Portanto, pese embora a história africana registe, em diversas épocas, o contributo que as suas filhas tiveram para a resolução de múltiplos problemas no interior do continente, o fosso entre homens e mulheres permanece exponencial. Contudo, as mulheres não devem deixar de empreender esforços no sentido de mudar essa realidade. É importante que a mulher actual não espere pelo homem e busque inspiração nas mulheres supracitadas para garantirem a sua emancipação e, desta feita, melhorar a sua vida, a dos seus filhos e também da sociedade.

Kandandu à todas as mulheres de África. FELIZ DIA DA MULHER AFRICANA!

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