Análise
André Ventura vs António José Seguro: o choque de Portugal entre modernidade e tradição
1. Introdução: quando a disputa eleitoral se transforma em disputa ideológica
A actual disputa política em Portugal entre os espaços representados pelo Partido Socialista (PS) e pelo CHEGA deve ser analisada para além da lógica imediata dos resultados eleitorais. Trata-se de um confronto ideológico profundo que revela tensões acumuladas ao longo de décadas no seio da sociedade portuguesa. Mais do que uma alternância de poder, está em causa a interpretação do próprio modelo democrático construído após o 25 de Abril de 1974.
Como defende Seymour Martin Lipset (1960), os sistemas partidários são reflexo das clivagens sociais estruturais existentes numa sociedade. Em Portugal, essas clivagens sempre existiram, entre modernidade e tradição, liberalismo político e conservadorismo cultural, abertura social e necessidade de ordem, mas foram politicamente amortecidas por um consenso moderado. A crescente polarização entre PS e CHEGA indica que esse equilíbrio está a ser progressivamente questionado.
2. O legado do 25 de Abril e a construção do consenso social-democrata
O regime democrático português nasceu de uma ruptura histórica com o autoritarismo, dando origem a um modelo político assente em liberdades fundamentais, pluralismo partidário, Estado social e progressiva secularização da sociedade. Ao longo das décadas, este modelo consolidou-se através de um consenso político alargado, no qual o PS desempenhou um papel central.
A vitória de António José Seguro, com 31,21% (1.738.741 votos), simboliza a continuidade desse consenso. A sua candidatura representa um espaço político que privilegia a estabilidade institucional, a inclusão social e a adaptação gradual às mudanças culturais. Esta postura enquadra-se naquilo que Anthony Giddens (1998) define como social-democracia moderna: uma tentativa de conciliar eficiência económica, justiça social e respeito pelas liberdades individuais.
O eleitorado que sustenta este campo político demonstra preferência por soluções previsíveis, reformistas e institucionalmente seguras, revelando que o legado do 25 de Abril continua a ser, para muitos portugueses, um pilar identitário incontornável.
3. A emergência do CHEGA e a politização explícita do conservadorismo social
O segundo lugar de André Ventura, com 23,29% (1.297.533 votos), representa um ponto de inflexão na política portuguesa. Pela primeira vez desde a consolidação democrática, um discurso assumidamente conservador nos valores, crítico do liberalismo cultural e confrontacional em relação ao consenso pós-revolucionário, alcança uma base eleitoral expressiva.
Enquanto líder do CHEGA, André Ventura corporiza o que Cas Mudde (2007) conceptualiza como populismo de direita radical: uma combinação de conservadorismo moral, nacionalismo identitário, crítica às elites políticas e rejeição do multiculturalismo. Importa, contudo, sublinhar que este crescimento não traduz, necessariamente, um desejo de retorno ao autoritarismo, mas antes uma reacção a transformações sociais percebidas como excessivamente rápidas ou impostas.
O conservadorismo social, que durante décadas permaneceu culturalmente presente mas politicamente silenciado, ganha agora expressão directa e sem mediações.
4. Crise de representação, desconfiança institucional e espaço para a ruptura
A ascensão do CHEGA deve ser compreendida no contexto mais amplo da crise das democracias representativas. Pierre Rosanvallon (2008) sustenta que as democracias contemporâneas enfrentam um défice crescente de confiança, no qual os cidadãos sentem que as instituições já não os representam de forma efectiva.
Neste ambiente, discursos de ruptura tornam-se particularmente atractivos. André Ventura apresenta-se como voz anti-sistema, explorando sentimentos de frustração, insegurança económica, ansiedade cultural e desconfiança em relação às elites políticas tradicionais. O conservadorismo social surge, assim, como um instrumento de mobilização política, mais do que como uma mera doutrina moral.
5. As candidaturas intermédias e a fragmentação do conservadorismo
Entre os pólos PS e CHEGA emergem candidaturas que revelam a diversidade interna do conservadorismo português.
Cotrim de Figueiredo (16,01%) representa um liberalismo económico aliado a um conservadorismo social moderado. A sua visão aproxima-se do pensamento de Friedrich Hayek (1960), que defende a limitação do Estado, a liberdade individual e a responsabilidade pessoal, sem ruptura com os fundamentos democráticos.
Gouveia e Melo (12,41%) personifica uma liderança centrada na autoridade institucional, na disciplina e na ordem. Esta abordagem encontra respaldo em Samuel Huntington (1968), para quem a estabilidade política depende de instituições fortes e de lideranças capazes de impor regras claras.
Por sua vez, Marques Mendes (11,34%) simboliza o conservadorismo clássico português, institucional e prudente, alinhado com a tradição de Edmund Burke (1790), que privilegia a continuidade histórica e a mudança gradual. O seu resultado eleitoral demonstra, contudo, que este tipo de conservadorismo perdeu espaço num contexto de crescente polarização e simplificação do discurso político.
6. Mudança ideológica ou continuidade histórica do conservadorismo social?
A disputa entre António José Seguro (PS) e André Ventura (CHEGA) permite mapear, simultaneamente, mudança e continuidade no sistema político português.
Existe mudança, porque o conservadorismo social deixa de estar confinado à esfera privada, religiosa ou cultural e passa a ocupar o centro do debate político. Existe também continuidade, pois, como argumenta Ronald Inglehart (1997), as sociedades podem modernizar as suas instituições políticas sem eliminar valores tradicionais profundamente enraizados.
Portugal sempre foi uma sociedade culturalmente conservadora, mesmo quando politicamente progressista. A família, a religiosidade, o respeito pela autoridade e a valorização da ordem nunca desapareceram; foram, antes, absorvidos e neutralizados pelo consenso democrático do pós-25 de Abril.
7. A abstenção eleitoral como sintoma de desgaste democrático
A elevada abstenção de 38,50% constitui um dos dados mais reveladores do actual momento político. Para Colin Crouch (2004), este fenómeno caracteriza as democracias pós-representativas, nas quais os cidadãos se afastam da política formal por sentirem que a sua participação tem um impacto reduzido nas decisões reais.
Este afastamento não gera automaticamente conservadorismo social, mas cria um terreno fértil para discursos simples, identitários e emocionalmente mobilizadores. O crescimento do CHEGA deve, assim, ser interpretado como consequência de um desgaste democrático acumulado, mais do que como a causa exclusiva da polarização política.
8. Conclusão: entre o espírito de Abril e a reconfiguração ideológica
Em síntese, a disputa entre PS e CHEGA não representa o fim do legado do 25 de Abril, mas sim a sua reinterpretação num contexto de crise social, cultural e representativa. O conservadorismo social deixou de ser marginal, mas ainda não se tornou dominante.
O futuro político de Portugal dependerá da capacidade do sistema democrático em gerir esta tensão sem abdicar dos princípios fundamentais do Estado de direito, do pluralismo e das liberdades civis. O verdadeiro desafio não reside na escolha entre tradição e modernidade, mas na capacidade de equilibrar autoridade e liberdade, identidade e diversidade, continuidade histórica e adaptação democrática.