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Politica

Alinhamento e ‘desalinhamento’ da política externa angolana

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‘Zig-zag’ é a terminologia que espelha bem como andara a política externa angolana, pelo menos nos primeiros anos do primeiro mandato de João Lourenço. O também Titular do Poder Executivo, que inicia na sexta-feira uma visita oficial de três dias à China, acabou por quebrar essa postura sem um roteiro definido na arena internacional no arranque do seu segundo mandato, precisamente a 15 de Setembro de 2022.

Após a independência nacional, Angola, então liderada por António Agostinho Neto, detinha, face à aproximação ideológica ao bloco soviético, uma política externa devidamente alinhada e previsível. E mesmo após o desmembramento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) [liderada pela Rússia], em 1991, o país, já sob as mãos de José Eduardo dos Santos, continuou alinhado à Rússia e aos países até então tidos como comunistas.

Na arena internacional, mesmo depois de ter constitucionalmente adoptado a democracia, Angola posicionava-se ao lado dos ‘países amigos’, fossem estes democráticos ou não.

A questão que se coloca não é se a opção angolana era boa ou má. Era somente a expressão de um roteiro de política internacional devidamente montado.

Por exemplo, em 2010, Laurent Gbagbo, antigo presidente da Costa do Marfim, e amigo do Governo angolano da época, recusou-se a sair do poder mesmo depois de ter perdido as eleições a favor de Alassane Ouattara, tendo em conta os dados divulgados por Youssouf Bakayoko, então presidente da Comissão Eleitoral Independente. Contrário a Comissão eleitoral, Gbagbo reivindicou vitória, desencadeando um breve conflito militar, dado que determinados grupos das forças armadas posicionaram-se ao lado de Ouattara.

Todo mundo ocidental manifestava apoio ao opositor Alassane Ouattara, tendo a França ameaçado e enviado suas forças militares no terreno para não só proteger Ouattara, como também para capturar o presidente.

Se o Ocidente manifestava apoio incondicional a Alassane Ouattara, do lado angolano, José Eduardo dos Santos posicionou-se a favor de Laurent Gbagbo.

Para José Eduardo dos Santos, Gbagbo tinha ganho as eleições, e que mesmo em caso de dúvidas, ele era, na visão de Dos Santos, “o presidente constitucional”.

“África, através das instituições competentes da União Africana, deve fazer prova da sua maturidade, experiência e habilidade, para resolver os problemas do nosso continente, mesmo os mais complexos e delicados, não esperando soluções inadequadas impostas do exterior”, afirmara José Eduardo dos Santos, numa clara manifestação de repúdio ao envio de tropas franceses à Costa do Marfim, por decisão de Nicolas Sarkozy, que então ocupava o Palácio do Eliseu.

José Eduardo dos Santos, que falava na cerimónia tradicional de cumprimentos de Ano Novo do Corpo Diplomático acreditado em Angola, em Janeiro de 2011, acrescentou que no “mundo actual”, ainda referindo-se à opção de Sarkozy, “já não são aceitáveis soluções impostas pela força, pela intimidação ou pelo terror, porque chocam com os valores e princípios universais, que constituem a base da acção dos povos rumo à paz, ao progresso e ao bem-estar”.

Embora Angola tenha mantido relações comerciais e até acordo de assistência em segurança, e de formação de quadros militares e de inteligência com potências ocidentais, bem como com Israel, no campo político, a nível da arena internacional, a posição angolana era clara.

A questão não é se era a opção certa ou não. Trata-se apenas de uma opção de ser e de estar e de ser visto no mundo.

Com a ascensão de João Lourenço ao poder em 2017, Angola registou uma mudança inicialmente ténue.

A França foi o primeiro país europeu que João Lourenço visitou tão logo tomou posse. A visita foi realizada entre 28 e 29 de Maio de 2018.

Durante o diálogo que manteve com o seu homólogo Emmanuel Macron, João Lourenço manifestou o desejo de Angola integrar à Organização Internacional da Francofonia (uma organização que congrega países de língua oficial francesa).

Ainda durante o primeiro mandato de cinco anos, João Lourenço manifestara igualmente o desejo de Angola aderir a Commonwealth (organização intergovernamental dos países que anteriormente formavam o Império Britânico).

No mesmo ano, o Chefe de Estado desejou que Angola se juntasse ao BRICS, organização em que consta o Brasil, Rússia, Índia, China e a África do Sul (e que agora alargou para mais países).

Essas manifestações expuseram o país como uma Nação sem uma política internacional definida.

Entretanto, em 2019, Angola recusou-se a alinhar-se ao Ocidente na aceitação de Juan Guaidó, como presidente da Venezuela. De forma clara, o Estado angolano sublinhara que reconhece Nicólas Maduro como Chefe de Estado.

Quando se deu a invasão russa sobre a Ucrânia, Angola votou, na ONU, por abstenção, a uma Resolução que visava condenar a opção de Moscovo.

Já em Setembro de 2022, ano em que se deu a invasão, João Lourenço, numa clara mudança de posição, apelou à Rússia, durante a cerimónia de sua investidura para um segundo mandato, a parar com a guerra. Os apelos neste sentido continuaram em períodos subsequentes.

Ficou evidente que Angola virou as costas ao velho aliado russo, além de ter preterido a China em determinados negócios.

Angola começara uma nova era com os Estados Unidos da América, uma calorosa amizade que antes parecia improvável.

De referir que, parte significativa dos angolanos elogia João Lourenço por esta mudança, dado que cimenta relações com o maior defensor da democracia no mundo, e espera que tal relacionamento leve o país a alcançar prosperidade económica, mas também evolução democrática. Ou seja, aguarda que não hajam mais ‘zigzags’.