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“Africano emigra por falta de condições que dão dignidade à pessoa humana”

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Assinala-se hoje, o Dia de África. E para marcar a data, entrevistamos uma jovem especialista em Relações Internacionais, para falar do continente berço, na actualidade política. Engrácia Marques é uma mulher com convicções próprias no que as relações entre os Estados diz respeito. Ela entende que a tendência de emigração dos africanos para os países mais desenvolvidos, não está relacionada com questões financeiras, mas com a busca por “verdadeira dignidade à pessoa humana”.

Que desafios e oportunidades o continente africano oferece? 

África é cheia de potencialidades e em cada desafio que enfrentamos temos várias oportunidades por se explorar. Não faz sentido enumerar desafios sendo que temos uma agenda (2063) que já nos traz um conjunto de desafios e ao mesmo tempo soluções rumo a África que pretendemos. Portanto, precisamos sair do discurso à acção e efectivamente utilizarmos os recursos africanos para a serventia do africano, essencialmente na firme aposta do capital humano que é o centro do desenvolvimento de qualquer sociedade. É urgente encontrarmos soluções africanas para os problemas africanos, a importação de soluções só vem agravando mais a situação. Precisamos reconstruir o nosso continente numa base assente na rica filosofia africana e nas aspirações dos grandes filhos do continente cujos legados nos inspiram e precisam ser resgatados para os processo de integração que aspiramos.

O que a África tem a oferecer aos seus filhos e ao mundo?

Talvez devêssemos é pensar no que é que os filhos de África têm a oferecer ao seu continente, porque temos uma geografia invejável, cada filho desta terra se voltar às raízes de África e se encontrar com a sua identidade, olhar-se como responsável dos destinos desta terra.

Quanto ao mundo, África tem uma história, não uma história construída no prisma ocidental na base da cultura do silenciamento, mas uma história que a torna digna da denominação “berço da humanidade” que a coloca no mesmo pedestal nas relações intelectuais entre os povos. Uma história que influenciou e ainda influencia na construção do conhecimento universal. Somos uma imensidão e agregamos a diversidade.

Quando é que África vai deixar de ser visto como um continente de pedintes?

Ao refletirmos a situação actual do continente africano, precisamos olhar para as questões endógenas e exógenas que perpetuam a situação de subdesenvolvimento de África, e estamos calejados de discutir as questões internas que agravam os problemas de África, porém não devemos desassociá-los  a estrutura do status quo dominante, cujas instituições foram concebidas quando África não estavam em posição de negociação, pelas razões óbvias da colonização que interrompeu um percurso de desenvolvimento da história e das civilizações africanas e podemos afirmar que hoje, os  vistos como “ salvadores do continente” têm a responsabilidade histórica de reparar os danos causados pelas razões citadas. Todavia, se olharmos para as ajudas externas de que África tem sido beneficiada como fruto da solidariedade internacional, então não diria que África é um continente de pedintes, pois até a Europa, reergueu-se dos escombros da segunda guerra mundial também com financiamento dos EUA. Fica óbvio que o problema não está somente na recepção de financiamento externo, mas na forma de alocação do mesmo, bem como nas responsabilidades e exigências que tais financiamentos nos remetem.

África é, do ponto de vista territorial, o maior de todos.  Tem também o maior número de países, comparativamente a Ásia, Europa e América. 77% da sua população é jovem com menos de 35 anos. Tem as maiores terras aráveis, mas continuamos a ter uma região continental subdesenvolvida. Afinal, qual é o problema de África?

Todos sabemos quais são as potencialidades africanas sobretudo dos recursos naturais. E é verdade que o factor geográfico, sobretudo pela qualidade e os recursos do território, a posição, espaço territorial e o factor demográfico jogam ao nosso favor, se olharmos para estes elementos enquanto factores de poder, porém, não devemos limitar-nos aos aspectos quantitativos, que de nada ou pouco nos servirão se não forem equacionadas aos aspectos qualitativos que permitem a concepção de políticas públicas adequadas para o contexto actual do continente e quando falamos dos aspectos qualitativos referimo-nos a necessidade de se criar uma conjuntura política, económica e social que potencializa sobretudo o capital humano para que este altamente qualificados busque soluções equivalentes aos reais problemas. Todavia, o tipo e a qualidade de liderança que impera em África vai fortemente agravando a actual situação do continente e é nas lideranças que África encontra os maiores entraves para o desenvolvimento. “A África que pretendemos o seu desenvolvimento centra-se na firme aposta nos jovens, em particular nas mulheres e raparigas” e essa aposta implica a capacitação educacional e cívica dessa franja da sociedade que é decisória para o futuro do continente.

 Como travar a onda de emigração de cérebros?

Temos o direito a livre circulação e portanto é natural esse processo emigratório transcontinental, que dão-se por diversas razões, mas que vêm se transformando numa crise, pois as causas da mesma já não têm sido tão espontâneas, mas forçadas pelo agravamento das condições de vida em África. Vamos assistindo grandes filhos do continente emigrando e vão se afirmando nos países de chegada pelos seus méritos intelectuais que de longe nos orgulhamos, mas que deviam estar aqui para servirem seus países, mas que muitos não são bem-vindos pela sua visão contestatária que para as lideranças africanas acaba sendo afrontosa e são chamados até mesmo “perturbadores”. É urgente criarmos uma atmosfera social acolhedora e integradora sobretudo para a juventude, que está ávida de vontade de mudança e vai cada vez mais buscando formação e informação para auto-emponderamento e que precisa encontrar seu espaço no processo de tomadas de decisões em seus países, não ao lado dos decisores, mas como parte do processo, envolvidos e com responsabilidades atribuídas para que se comprometam com a causa.

A maioria dos africanos, principalmente jovens, sonha em sair do continente, ao mesmo tempo que vemos muitos europeus, asiáticos e americanos a vir para os nossos países, porque dizem que há aqui muitas oportunidades. Que oportunidade são essas que os próprios filhos não veem?

Qualquer europeu, asiático ou americano que vem ao nosso continente, vem essencialmente com razões bem mais viradas aos factores económicos ou de pesquisa. África é um mercado extenso e apetecível, com vários sectores a espera de investimentos quer na produção de bens quer na prestação de serviços e quem tem o domínio da informação e tecnologia encontra aqui um “el dorado”. E precisamos entender que a vontade de emigrar do continente para as populações africanas, não se dão por questões meramente económicas ou financeiras, mas por falta de condições que dão a verdadeira dignidade a pessoa humana, que permitam a participação e o exercício da cidadania, que promovam as liberdades e suas garantias e que dão ao africano a verdadeira sensação de paz social. Fica claro que não é a intenção de sair do continente para enriquecer, mas de encontrar ambientes onde poderão sentir-se “mais seguros”. Então precisamos entender que o Desenvolvimento está aliado a garantia de direitos, e os países africanos precisam assegurar e efectivar os Direitos Humanos e dos Povos que sem os mesmos estaremos longe de alcançar a África que pretendemos.

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