Connect with us

Mundo

África do Sul vai a votos com mais negros a depositar esperança a partido de maioria branca

Published

on

Trinta anos depois de ter derrotado o Apartheid, um sistema de segregação racial então liderado pelo Partido Nacional, constituído por gente branca, o ANC revelou-se incapaz de pôr termo às assimetrias sociais, sendo que de acordo com o Banco Mundial, é o país com mais desigualdade do planeta. E é neste cenário que se realizam hoje às suas sétimas eleições-gerais.

A África do Sul, país governado há mais de três décadas pelo Congresso Nacional Africano (ANC), partido ícone da luta contra a segregação racial no país, vai a votos esta quarta-feira, 29, num processo eleitoral em que a maior organização política corre sérios riscos não só de perder a maioria parlamentar, bem como ser forçada a ter que governar em coligação.

Se fosse possível, Nelson Mandela, uma das principais autoridades morais e democratas do mundo, estaria a revirar-se em seu túmulo, face ao sofrimento de seu povo, associado às más práticas a que seus pupilos políticos adoptaram, como a corrupção, por exemplo.

Além da segregação racial, o ANC de Nelson Mandela lutou contra a pobreza, a desigualdade social, a discriminação na distribuição de emprego, bem como, entre outros factos, pôr fim aos guetos pobres e arquitectonicamente desestruturados.

Entretanto, trinta anos depois, a conclusão que se chega é que pouco foi feito em relação aos objectivos que nortearam a luta que ceifou um número incalculável de vidas.

Os negros (do ANC) que no passado prometeram melhoria social caso chegassem ao poder revelam-se incapazes de pôr termo às assimetrias. Dados do Banco Mundial de 2022 consideram a África do Sul o país mais desigual do planeta. E é neste cenário que se realizam hoje às sétimas eleições-gerais sul-africanas.

A maioria negra, que durante décadas confiou ao ANC todas as suas esperanças, já tem desviado o seu sentido de voto, este que gradualmente vai deixando de ser racial, mas objectivo.

Como indica o gráfico ao lado, face à crescente desaprovação popular, os resultados eleitorais do ANC têm tido uma marcha negativa para o partido, sendo que o seu maior resultado histórico foi em 2004, altura que alcançou 70% dos votos, sob liderança de Thabo Mbeki.

De referir que as eleições de 1994, em que o partido obteve 63% do escrutínio, foram as mais importantes do país, tendo sido as primeiras após o acordo que pôs fim ao regime do Apartheid. No pleito, o ANC teve Nelson Mandela à sua frente, um gigante político que se recusou a concorrer para uma reeleição.

Em 1999, captou 66% dos votos, tendo em 2009 obtido 66%, bem como 62% e 58% nos pleitos de 2014 e 2019, respectivamente.

Os mais proeminentes candidatos

Cyril Ramaphosa. Actual presidente da República, e líder do ANC, busca uma reeleição, e manifesta-se confiante. Com 71 anos de idade, Ramaphosa assumira em 2018 o lugar do antigo presidente Jacob Zuma, que está envolvido num escândalo de corrupção e enfrenta múltiplas acusações de extorsão, fraude, evasão fiscal e branqueamento de capitais.

John Steenhuisen. É líder do partido de maioria branca, a Aliança Democrática (DA), a maior organização na oposição ao ANC. De 48 anos, John ascendeu na hierarquia do partido antes de ser nomeado seu líder em 2020.

Steenhuisen assumiu o cargo depois de dois altos dirigentes negros se terem demitido, um deles invocando dificuldades em expandir o apelo da DA para além da sua base sul-africana tradicionalmente branca.

Diferente do que tem sido praxe entre as lideranças da DA, Steenhuisen, que lidera uma coligação multipartidária encabeçada pelo seu partido, tem-se esforçado para se libertar da identidade branca e de classe média do seu partido e alargar o seu apelo.

Julius Malema. Jovem político irreverente, é o terceiro mais importante candidato. Com 43 anos, fundou o partido radical Combatentes da Liberdade Económica (EFF) em 2013, depois de ter sido expulso do ANC por incitar a divisões e desacreditar o partido. Foi presidente da Liga da Juventude do ANC.

O seu novo partido ganhou proeminência ao defender reformas radicais, incluindo a redistribuição de terras e a nacionalização de sectores económicos fundamentais para combater as profundas desigualdades.

Além dos já citados, vale lembrar que existem outros importantes candidatos, como o antigo líder da DA, Mmusi Maimane, que agora lidera o Build One South Africa (“Construir uma África do Sul”), um novo partido liberal.

Herman Mashaba, ex-presidente da câmara de Joanesburgo, um empresário ligado a produtos para o cabelo africano. Entretanto, há ainda outros que se vão perfilando, mas muito atrás das proeminentes figuras citadas.

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *