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Académicos analisam tensão política na RDC e implicação para Luanda

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O Correio da Kianda ouviu um jurista e um especialista em relações internacionais para analisar o clima tenso e apreensivo que se vive há já alguns anos, e que se agudizou em 2017, na República Democrática do Congo. Para eles, a solução dos problemas do país vizinho passa por tomadas de medidas mais assertivas.

A história começa com a pretensão de Joseph Kabila, então presidente, em alterar a constituição da República e manter-se mais tempo no poder, contra os actuais oito anos previsto na lei magna. Um facto não alcançado, face as ondas de contestação surgidas, por parte inclusive, dos bispos católicos que saíram à rua em protesto contra o então presidente Kabila que dilatava o tempo para a convocação das eleições.

Com a pressão sofrida, vinda de todos os círculos do país, incluindo dos bispos católicos que se manifestaram nas ruas de Kinshasa, Joseph Kabila viu-se obrigado a abandonar o poder, cujo mandato havia terminado passavam dois anos.

Nas eleições de 2018, Félix Tshisekedi foi sagrado o vencedor das presidenciais, ao passo que o partido de Kabila venceu as eleições legislativas, obrigando a formação, de um governo de Coligação.

O jurista Joseph dos Santos diz que a tensão política que se vive na RDC “já era expectável”, a julgar pela “própria história política da RDC que já é conturbada e complexa”, desde o nascimento do estado-nação congolês, na década de 1960. Para ele, os problemas quando não são cabalmente resolvidos, provocam um “reabrir de feridas num futuro próximo”.

A jovem Engrácia Rodrigues, especialista em relações internacionais, corrobora da opinião de Joseph dos Santos sobre a previsibilidade da tensão política naquele país da África central. Para ela, “o que pareceu inicialmente um casamento conveniente (entre Tshisekedi e Kabila no governo de coligação) foi se tornando um divórcio frustrante”, provocando a instabilidade político-administrativa do país.

Engrácia Rodrigues antevê um futuro incerto para a situação da RDC por entender que os pronunciamentos e a decisão do presidente Tshisekedi em acabar com a coligação agravam “ainda mais o conflito, pelo que esta coligação revela-se uma tentativa fracassada de peacebuilding, sobretudo pela génesis do conflito ter um forte pendor histórico”.

Na última semana, discursos inflamados contra ao presidente Tshisekedi foram atribuídos à Kabila, o que terá motivado o actual presidente a acabar com a coligação. O analista Joseph dos Santos entende que esses factos são uma clara demonstração de forças, através das quais Kabila pretende desacreditar o seu sucessor e voltar ao poder.

Como solução, Engrácia dos Santos defende o fortalecimento das instituições da República Democrática do Congo. “Fica cada vez mais clara a necessidade da RDC fortalecer as suas instituições para assegurar o seu pleno funcionamento e buscar caminhos mais consensuais para se ultrapassar o impasse político”, evitando assim “que o conflito ganhe proporções mais alarmantes que possam alimentar maior instabilidade nas zonas cuja presença das milícias é tendencial”.

Busca de apoio à Luanda

Engrácia Rodrigues entende que a vinda do presidente Tshisekedi à Luanda serviu para buscar experiência para acabar com o clima de tensão no seu país. Para a especialista em relações internacionais, a tensão política na RDC é igualmente uma preocupação para Luanda, pois pode gerar efeito dominó para Angola, visto que a situação do Congo Democrático pode desencadear “consequências devastadoras” para o país e para toda a região.

O jurista Joseph dos Santos entende que a vinda à Luanda por parte de Tshisekedi, como a mais assertiva pelo facto de Angola ser uma potência político-militar na região e no continente. “Se a situação do Congo não for bem administrada, pode trazer consequências devastadoras para Angola em diferentes segmentos, como os recentes casos dos movimentos de refugiados que se instalaram no leste e norte do país, fugindo dos conflitos na República do Congo e também na República Democrática do Congo”.

O analista acrescenta ainda que a vinda à Luanda do presidente congolês democrático carrega duplo significado. Primeiro, “que o mesmo tem respaldo da comunidade internacional para tomar as medidas que achar necessárias, mas também que antes de tomar as medidas esgotou todas as possibilidades do diálogo interno”, disse. “Até porque devemos nos lembrar do papel pacificador e mediador de Angola, que lhe é reconhecido à nível internacional”, rematou.

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