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Crónica ideal ao Domingo

A semente que brotou num contexto inesperável

Redação

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Por: Edson Kassanga 
         
[Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível” – São Francisco de Assis]

O povo de Angola deu largamente largas aos sonhos quando, em 2002, a convergência de vontades das entidades de então, predominantemente internacionais, permitiu que soprassem brancas bandeiras em todas as eiras que lhe pertenciam. Entre tantos e tantos sonhos, esse povo sonhou com um país onde os desenvolvimentos económico, científico, tecnológico, educacional e cultural pudessem equiparar-se aos que se vêem nos outros países cujo desenvolvimento, num âmbito geral, é tão visível que se descarta o uso da lupa.

Mais tarde, precisamente no período em que o século XXI ainda encontrava-se entre as balizas triviais da adolescência, o povo, pese embora reconhecesse algumas melhorias em relação à era anterior ao alcance da paz, percebeu que havia sonhado demais. O custo de vida muito alto tornou-se num hóspede resolutamente sem intenção de erguer a mão para dizer adeus, enquanto a caixa de pandora era arremessada de ala em ala tal qual a bola numa partida de voleibol. Ou seja, alguns angolanos atiravam culpas para factos que ocorriam fora do país e outros achavam que a culpa era “made in Angola”.
Por conseguinte, até os sectores para os quais o governo prestava mais atenção viram seus orçamentos virados ao emagrecimento. Tal como era de se esperar, a situação do sector da cultura, tido como parente pobre do governo, piorou sobremaneira. A terra já era débil em fecundidade. Com a estiagem, cuja origem paira na dúvida ou na dual verdade, ela tornou-se árida. Apesar desse contexto adverso, foi criada uma das instituições que mais tem contribuído para preservação e promoção da cultura nacional.
Diz-se que “a cultura é a alma de um povo”. Daí que as civilizações antigas sempre procuraram formas pelas quais pudessem conservar as suas culturas. Esse desejo, esse dever manifesta-se nas mumificações, nas pinturas rupestres, na escolha de materiais utilizados nas construções, entre outras formas, garantindo a possibilidade de serem conhecidas e honradas pelas futuras gerações. A partir de 1430, com a invenção da imprensa, díspares líderes passaram a olhar para a escrita como o primordial veículo de preservação da cultura do povo do qual eram parte. Tal invenção, exuberantemente revolucionária, também contribuiu para que literatura trespassasse a ser prioridade em muitas lideranças.
Em Angola, a literatura mereceu uma atenção bastante simbólica, talvez só e somente, do governo nos primeiros anos da dipanda. A 10 de Dezembro de 1975, era criada a UEA (União dos Escritores Angolanos, a primeira associação cultural criada após a independência) e um leque significativo de escritores foram nomeados para cargos de relevo nos órgãos executivo, legislativo e judicial da tão jovem República (em parte pelo papel essencial que a literatura desempenhou durante a luta de libertação nacional). Ademais, o primeiro presidente de Angola era escritor.
Todavia, o apoio que o governo tem prestando ao livro não tem sido o expectável. Questões preponderantes que o governo poderia alterar, à guisa de exemplo a alta taxa de importação para os livros, o alto preço do dólar e a escassez de gráficas no território nacional, transmudaram o livro num objecto bastante caro para a maior parte da população angolana. Ainda assim, até 2014 algumas livrarias conseguiam algum rendimento capaz de fazer com que as suas portas permanecessem abertas ao público, algum dinheiro cuja quantidade estimulava a sonhar na publicação das obras no prelo. Mas os anos perpassaram e o futuro que se esperava próspero revelou-se bastante agreste.
A crise, cujas opiniões iniciais dos de lá assustavam e dos de cá suavizavam, aportou em Angola com toda sua bagagem, metamorfoseando o dólar numa moeda somente vislumbrada nas telas dos computadores, televisores e dos telemóveis. O seu preço agigantou e, feito efeito dominó, o preço de bens e serviços cresceu a patamares inimagináveis. Alguns angolanos observavam a crise local como resultado da crise económica e financeira mundial, com o baixo preço do barril de petróleo a encabeçar lista, mas outros discordavam. Para esses, a crise local era consequência da falta de patriotismo de seus cidadãos que davam a cara e voz apelando, bem como enaltecendo esse sentimento no seio do povo.
Obviamente, os prejuízos da crise ou das crises em áreas em que o livro era produto essencial foram tão intensos quanto extensos. As gráficas foram obrigadas a cobrarem mais das editoras, essas tiveram de determinar preços mais caros aos escritores e as livrarias. A situação foi agudizando, agudizando, agudizando ao ponto de os escritores optarem em se encarregarem de armazenar e comercializar os próprios livros; algumas editoras encerraram as portas; as poucas gráficas em funcionamento deixaram de existir, assim como as livrarias, inclusive a livraria mais emblemática de Angola, a Lello da cidade de Luanda. No final, foi a população quem mais sofreu, porquanto se viu obrigada a comprar livros a custo dos olhos da cara. De modo explícito, qualquer investimento que tivesse o livro como foco constituía num fracasso à partida.
Entretanto, foi nesse cenário, aproximadamente apocalíptico, que surgiu uma instituição directamente relacionada ao livro que mudou a perspectiva de como se olhava para o binómio juventude-literatura a nível nacional. Precisamente no ano 2017, foi criada a Chela Editora numa localidade sem referências literárias sonantes e onde, naquela altura, os olhares espantados ou desconfiados eram a reacção comum para quem fosse achado falando sobre livros: município da Matala, província da Huíla.
Para além disso, a editora foi criada por alguém cuja idade deveria constituir caso de estudo pelas instituições afins, devido à sua reduzida idade. Tinha apenas 19 anos de idade, quando lançou a semente à terra, ou melhor, quando concretizou o sonho de criação da editora. Não seria menos verdade afirmar que tal feito afigurava-se numa iniciativa onde a inocência, a demência e a visão entrelaçavam-se dando forma a uma única trança.
Actualmente, volvidos três anos, nota-se que a semente brotou. Os ramos que dela advieram cresceram em expessura, assim como em comprimento e já dão suporte à flores cuja fragrância e aparência despertam a atenção de inúmeros nacionais, de inúmeros estrangeiros. A Chela Editora incrementou quilómetros e solidez à ponte, ainda ténue, entre a velha e a nova geração de escritores. Por meio da publicação de livros cujos autores são múltiplas gerações, permitiu o intercâmbio entre os mesmos. Igualmente permitiu que os escritores da última geração e aspirantes, não obstante às duras críticas e aos enormes óbices que enfrentam para se afirmarem no mercado literário nacional, estão veementemente comprometidos em elevar a fasquia que literatura angolana já grangeou na arena internacional.
É mister realçar que, a Chela é das editoras que mais publica livros nos dias que correm e expressiva parte dos autores desses livros são estreantes nas lides literárias. Ou seja, os futuros gigantes da literatura nacional começaram as suas carreiras publicando pela Chela Editora. Editora que já publicou escritores de diversas gerações (José Luís Mendonça, João Tala, Helder Simab, Pedro Mayamona, Tio Velho…) e de variegadas nacionalidades, totalizando 30 até então.
Em jeito de conclusão, vale dizer que “um país não se faz apenas de edifícios, faz-se também de valores” (Matias Pires, prestigiado prof. de Relações Internacionais). É extremamente importante que haja pessoas cujos exemplos de vida enalteçam valores como patriotismo, honestidade, amor ao próximo… para, por via disso, atiçarem positivamente as acções da vigente geração e das futuras também.
E o livro é o fundamental e mais duradouro material onde se pode encontrar informações sobre essas pessoas, é por intermédio dele que se pode tornar conhecidas essas pessoas. Há muitas outras vantagens à volta dos livros. Os livros de carimbo angolano representam um factor de fomento para o turismo local, um factor de promoção da cultura e produtos nacionais no exterior, de facilidade relativa à atracção de investimentos externos para realização de pesquisas de diversa natureza em solo angolano; enfim, esses livros constituem um potencial mecanismo de softpower (poder de um dado Estado derivado do prestígio cultural, educacional, científico, tecnológico ou desportivo) de que o Estado angolano dispõe para uso na esfera internacional.
Logo, instituições como a Chela Editora e todas as instituições que lidam com a edição, publicação, distribuição, promoção de livros e de hábitos de leitura deveriam ter (maior) auxílio do governo para a prosperidade do país, para a eternidade da cultura nacional.
Será que a inclusão do livro na Insígnia Nacional, um dos Símbolos da República, foi por acaso?

Será que a inclusão do livro na Insígnia Nacional foi apenas para o inglês ver?
UM KANDADU CALOROSO A TODOS QUE TÊM AS LETRAS COMO CAMINHO, COMO META E QUE a UEA RESISTA À RECENTE QUÃO VERGONHOSA MAKA QUE NÃO É À QUARTA-FEIRA!

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