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A voz do Cidadão

A obra inacabada de Luther Rescova

Redação

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As chuvas de Abril fustigavam a capital angolana, num ritual de ocorrências diluvianas que, ano após ano, encharcam o sono de qualquer governador provincial. Porém, neste “anus horribilis” de 2020, as insónias que apoquentavam o mais jovem timoneiro de sempre da província de Luanda tinham uma causa diferente e um foco incontornável: os mais velhos do Beiral.

O país procurava adaptar-se às privações do estado de emergência, decretado em boa hora para travar a progressão do novo coronavírus, o inimigo invisível e altamente mortífero que eclodiu no gigante asiático e rapidamente vincou o seu alto grau de letalidade na velha Europa, ameaçando romper as fronteiras dos cinco continentes.

Embora na altura não houvesse um único caso confirmado em Angola, pairando no ar infinitos pontos de interrogação sobre qual seria o impacto da pandemia no continente africano, o mundo inteiro já sabia, como em anteriores surtos gripais, que os idosos constituíam um dos principais grupos de risco.

Foi assim que, naquela manhã chuvosa de Abril, ao chegar ao Palácio da Mutamba, Luther Rescova transmitiu aos seus mais directos colaboradores uma orientação de cumprimento imediato, visando a criação das condições para a retirada dos utentes do Lar da Terceira Idade Beiral para um local mais apropriado, com algum conforto, privacidade e as indispensáveis condições de biossegurança.

O governador estava particularmente preocupado porque tinha consciência de que, se eclodisse um surto no Beiral, seria muito difícil acudir os mais de 100 idosos, quase todos padecendo de diferentes maleitas próprias da idade e das condições precárias a que estavam votados, assim como os cerca de 20 trabalhadores, na sua maioria homens e mulheres com várias co-morbilidades.

Apesar do apoio garantido pela Comissão Multissectorial, que assumiria inicialmente os encargos decorrentes da transferência temporária dos idosos para uma unidade hoteleira em Viana, não havia disponibilidade financeira para garantir a reparação em tempo útil das velhas instalações, erguidas em Maio de 1963 do século passado, no distrito urbano do Rangel. Mas o governador sabia melhor do que ninguém que, por um lado, seria muito mais oneroso manter os mais velhos por tempo indeterminado em aposentos arrendados e, por outro, a degradação acentuada do Beiral punha à prova a competência e a boa vontade do governo.

Além disso, desde a mais tenra idade que Luther Rescova absorveu e cultivou no núcleo familiar uma série de valores nobres que colocam os velhos e as crianças no centro das prioridades. A formação integral que o forjou na flor da juventude permitiu-lhe perceber, desde muito cedo, que só seria possível inspirar os mais novos se houvesse um compromisso sério com o bem-estar e a dignidade dos mais velhos.

Enquanto líder da maior organização juvenil do país, teve a oportunidade de constatar que alguns jovens desencantados não acreditam muito no futuro do país por não encontrarem uma explicação racional para a situação de extrema pobreza dos seus progenitores, que num passado recente tinham melhores condições de vida. E a lição é tão velha quanto actual: para que o futuro possa gerar frutos maduros, é necessário regar e fortificar as raízes do presente e do passado.

Idosos

Assim, estando o país e o mundo a braços com uma pandemia de proporções catastróficas, a busca de uma solução definitiva para o velho problema do Beiral não poderia ser adiada, como acontecera vezes sem conta. Por isso, o governador não vacilou e accionou de imediato os voluntários da “Luanda Solidária”, uma iniciativa estruturada um ano antes para acudir as populações afectadas pela seca severa no sul do país. Na altura, Luther Rescova mobilizou empresários, pessoas de boa vontade e organizações da sociedade civil que doaram e transportaram, em 14 catorze camiões, para as províncias da Huíla, Cunene, Namibe e Cuando Cubango, setecentas toneladas de bens de primeira necessidade.

Era intenção do então governador provincial transformar a “Luanda Solidária” numa estrutura de suporte logístico à concertação social com o objectivo de congregar as inúmeras iniciativas dispersas pelos 9 municípios da província. Governar Luanda sempre foi uma tarefa espinhosa, tendo em conta a complexidade desta megalópole com cerca de 10 milhões de habitantes. Mas Luther Rescova não pretendia deixar apenas mais um retrato emoldurado na galeria dos ex-governadores. Por esta razão, apostou no envolvimento directo da sociedade civil e das comunidades na busca de soluções para os múltiplos problemas do dia a dia.

Perante as incertezas geradas pela pandemia, o governador obteve a pronta resposta de um grupo empresarial rotinado em acções de responsabilidade social, que chamou a si a tarefa da reabilitação do Beiral, sem mais demoras, antecipando-se à burocracia que emperra muitos processos. A previsão inicial indicava que, em Agosto, os mais velhos estariam de volta ao lar-doce-lar. Enquanto as obras avançavam um ritmo apreciável, decorriam diligências no âmbito da “Luanda Solidária” para a aquisição do recheio, uma vez que, além da degradação das infraestruturas, os longos anos de penúria provocaram igualmente a deterioração do mobiliário e de todos os equipamentos.

Com a inesperada transferência do jovem governador de Luanda para o Uíge, o processo sofreu uma travagem brusca, estando hoje em vias de paralisar por completo. Mais uma vez, vem ao de cima o velho problema da fragilidade das instituições do estado, que geralmente gravitam em torno de um homem, cuja força pode ser determinante para a obtenção de resultados, mas em caso de ausência ou indisponibilidade do homem forte, algumas acções em curso podem ficar seriamente comprometidas.

De igual modo, questiona-se a forma como se processa a passagem de pastas, tendo em conta que as prioridades de quem cessa funções nem sempre se encaixam na visão do novo titular.

Luther Rescova nunca teve a veleidade de se apresentar como homem forte porque a experiência adquirida em todas as esferas da vida, escutando, observando e obedecendo os mais velhos, proporcionou-lhe motivos sólidos para acreditar mais em instituições fortes, devidamente estruturadas com base em regras claras. Foi este princípio que nos últimos tempos moldou o perfil do jovem político, jurista e académico, que muito cedo foi catapultado para a alta roda da política, tendo sido testemunha ocular e protagonista de alguns episódios relevantes que marcaram a história de Angola nos últimos 20 anos.

Neste momento, as obras do Beiral estão praticamente concluídas mas os 105 idosos, alojados desde Abril num hotel Viana, estão impedidos de regressar ao seu Rangel porque não há dinheiro para apetrechar o lar mais emblemático da capital do país.

Será que a província de Luanda não tem pujança orçamental e moral para concluir a obra iniciada por Luther Rescova, com o nobre objectivo de garantir segurança sanitária e resgatar a dignidade dos mais velhos do Beiral?

Por: Alves Fernandes

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