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Crónica

A mentira mais cara dos 40 anos: “ainda há tempo”

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Chegar aos 40 anos é uma experiência curiosa. Já não és jovem o suficiente para “descobrir-te”, nem velho o suficiente para fingir que não sabes exactamente o que estás a fazer com a tua vida. Estás naquele ponto bonito da existência em que o entusiasmo fala mais baixo e o joelho fala mais alto.

E, ironicamente, é aqui que muitos descobrem que a vida não é um filme motivacional… é uma prestação mensal com juros acumulados.

Dizem que “agora é que começa a vida”. Claro. Começa, sim, mas com consulta médica marcada, crédito em atraso e uma leve nostalgia dos tempos em que o metabolismo era teu aliado e não teu inimigo declarado.

Sobre o dinheiro, por exemplo. Aos 20 achavas que era uma questão de esforço. Aos 30 começaste a desconfiar. Aos 40 já tens a certeza incómoda: esforço é bonito, mas não paga escola privada, nem combustível, nem aquela dignidade mínima de recusar um convite porque “não há condições”. Agora percebes que não trabalhas para enriquecer… trabalhas para manter a ilusão de estabilidade com boa iluminação.

O corpo, esse antigo parceiro de aventuras, já não é parceiro, é sócio problemático. Já não responde a estímulos motivacionais, responde a fisioterapia. O mesmo corpo que antes recuperava de uma noite mal dormida com um café, agora precisa de dois dias, silêncio absoluto e arrependimento existencial. E, ainda assim, há quem insista em tratá-lo como se fosse dos 20 anos. Spoiler: não é.

Depois há a fase do “ninguém vai te salvar”. Verdade inconveniente. Aos 40, o espelho já não devolve esperança, devolve prestação de contas. E, curiosamente, é nesse momento que muitos descobrem que a culpa nunca teve endereço externo, só desculpas bem organizadas.

Privacidade, essa palavra elegante para “cansei de explicar a minha vida”. Aos 20, querias plateia. Aos 40, queres silêncio. Já entendeste que nem toda a gente que pergunta está interessada; alguns só querem estatísticas para comparar com o próprio caos.

E o conforto… ah, o conforto. Esse sofá que parece inocente, mas tem currículo de sabotador de destinos. Ele não grita, não ameaça, não discute. Ele apenas te convence, com uma suavidade criminosa, de que “está tudo bem assim mesmo”. E assim mesmo, lentamente, vais adiando tudo… até perceberes que a vida não foi roubada, foi trocada por rotina.

Quanto ao círculo, aqui a ironia atinge nível profissional. Aos 20 queres muitos amigos. Aos 40 queres poucos, mas úteis, emocional e mentalmente higiénicos. Já não precisas de multidão, precisas de critério. Porque há pessoas que não acrescentam nada… só ocupam espaço e energia, como aplicações inúteis no telemóvel.

E no fim, resta a grande verdade que ninguém gosta de admitir: motivação é entretenimento. Disciplina é trabalho. E aos 40, já não há tempo para confundir as duas coisas.

A boa notícia, sim, existe, é que ainda há jogo. Só que agora não há tutorial, não há ensaio, e ninguém vai esperar que ajustes a estratégia. Ou jogas com consciência… ou continuas a assistir à tua própria vida como espectador cansado na bancada.

E, convenhamos: já não tens idade para ser apenas público.

Denílson Adelino Cipriano Duro é Mestre em Governação e Gestão Pública, com Pós-graduação em Governança de TI. Licenciado em Informática Educativa e Graduado em Administração de Empresas, possui uma sólida trajectória académica e profissional voltada para a governação, gestão de projectos, tecnologias de informação, marketing político e inteligência competitiva urbana. Actua como consultor, formador e escritor, sendo fundador da DL - Consultoria, Projectos e Treinamentos. É autor de diversas obras sobre liderança, empreendedorismo e administração pública, com foco em estratégias inovadoras para o desenvolvimento local e digitalização de processos governamentais.

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