Bastidores do Poder
A lealdade que falta na política africana: entre alianças frágeis e disputas pelo poder
Os recentes sinais de tensão entre o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, e o seu primeiro-ministro, Ousmane Sonko, levantam mais do que uma simples divergência política. Eles reflectem um padrão recorrente em várias democracias africanas: a dificuldade em partilhar o poder de forma estável, mesmo entre aliados que outrora caminharam lado a lado.
No caso senegalês, a relação que começou como uma parceria estratégica e simbólica de mudança parece dar sinais de desgaste precoce. A mensagem de Faye — de que Sonko permanecerá no cargo apenas se “fizer correctamente o seu trabalho” — não é apenas um aviso administrativo; é um indício de que a confiança política pode estar a deteriorar-se. Quando líderes que ascendem juntos ao poder começam a impor condições públicas um ao outro, a fractura institucional torna-se quase inevitável. Os exemplos multiplicam-se no continente. Na África do Sul, a transição de Jacob Zuma para Cyril Ramaphosa expôs divisões internas e escândalos de corrupção que abalaram a confiança no ANC, partido no poder.
Este fenómeno não é isolado. Em São Tomé e Príncipe, a exoneração do primeiro-ministro Patrice Trovoada pelo presidente evidenciou uma quebra de confiança baseada em alegações de deslealdade. Já na Guiné-Bissau, a convivência entre presidente e primeiro-ministro — mesmo quando pertencentes ao mesmo partido — tem sido marcada por conflitos constantes, revelando a fragilidade das alianças políticas no país.
Na República Democrática do Congo, o cenário torna-se ainda mais complexo. A relação entre Félix Tshisekedi e Joseph Kabila é frequentemente apontada como um exemplo paradigmático de acordos políticos informais que acabam por ruir. Nos bastidores, fala-se de um entendimento inicial que teria permitido a ascensão de Tshisekedi ao poder, em detrimento de Martin Fayulu, alegadamente o verdadeiro vencedor eleitoral segundo parte da opinião pública congolesa. Esse suposto pacto incluiria uma alternância futura no poder — promessa que hoje parece distante, alimentando tensões e acusações de traição.
A falta de lealdade entre políticos africanos é um fenómeno complexo, frequentemente impulsionado pela necessidade de sobrevivência política, personalismo e redes de clientelismo. Essa instabilidade nas alianças manifesta-se através de mudanças de partido, traições e da transformação de aliados em rivais.
Entre os principais factores e manifestações, destaca-se a política do “homem forte”, onde líderes personalistas concentram o poder, substituindo a lealdade institucional por lealdades individuais. Esse modelo enfraquece o Estado e facilita rupturas sempre que os interesses deixam de convergir. O clientelismo e a corrupção também desempenham um papel central, uma vez que a lealdade política é muitas vezes sustentada por distribuição de cargos e recursos públicos, tornando-se volátil e dependente da capacidade de recompensar aliados.
